Não à guerra, mas as armas devem ser enviadas. Artigo de Vito Mancuso

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07 Março 2022

 

"Temos que construir a paz. É um dever político e moral. Talvez, a partir de 24 de fevereiro, esta tenha se tornado a missão de nossa vida. Há um nível militar nesse sentido: os ucranianos lutam por sua liberdade e precisam ser ajudados militarmente. Há um nível humanitário: os ucranianos precisam de assistência e devem receber alimentos, roupas, remédios e acolher atenciosamente todos aqueles que se põem a salvo. Existe um nível diplomático e todas as negociações devem ser buscadas e incentivadas", escreve o teólogo italiano Vito Mancuso, ex-professor da Teologia Moderna e Contemporânea da Universidade San Raffaele de Milão, e ex-professor de História das Doutrinas Teológicas da Universidade de Pádua, em artigo publicado por La Stampa, 06-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

E ele lembra que 'aa Amsterdã ocupada pelos nazistas, uma jovem judia, Etty Hillesum, mais tarde morta em Auschwitz, escreveu em uma carta datada de dezembro de 1942: "Sei que quem odeia tem bons motivos para isso. Mas por que deveríamos escolher sempre o caminho mais curto e barato? Pude ver pessoalmente como cada átomo de ódio que é adicionado ao mundo o torna ainda mais inóspito".

 

Eis o artigo.

 

Existem perguntas à quais não gostaríamos de responder porque conhecemos a complexidade da situação, que não pode ser reduzida a um sim ou a um não. No entanto, às vezes é necessário responder, assumindo os riscos da consciência moral em ação. Perguntam-me: "Você é a favor de enviar armas para a Ucrânia?".

 

Eu respondo: "Sim, sou a favor". Acredito que precisamos ouvir seu apelo e não os deixar sozinhos, compartilho a posição da UE e do governo. Eles rebatem: "Mas então você é a favor da guerra! Ao apoiar o envio de armas, você diz sim à guerra, você joga lenha na fogueira, você alimenta a carnificina!".

 

A objeção vem sobretudo de quem declara querer a paz mais do que qualquer outra coisa e pode ter um duplo argumento: ou de tipo ideológico, por ser sempre e em qualquer caso contra o uso de armas, ou de tipo pragmático, por estar ciente de que contra a Rússia não pode haver Ucrânia que segure e, de fato, armando-a mais, incrementa-se o massacre. Mas eu também amo a paz, passei boa parte da minha vida servindo-a e fundando-a eticamente, e não por isso minhas conclusões são deixar de lado o apelo dos ucranianos e não os ajudar militarmente em sua defesa da agressão russa. Mas acabei de escrever agressão "russa" e meu coração se aperta: desde o colegial minha alma se alimenta de Dostoievski, Tolstói, Tchekhov, Pasternak; dediquei um livro à memória de Vasily Grossman, um judeu nascido na Ucrânia e de língua materna russa.

 

Quando conheci o pensamento teológico russo com Soloviev, Florensky, Sergej Bulgakov, Berdjaev, os grandes pensadores da sofiologia, para mim foi uma fulguração. Além disso, como esquecer os vinte milhões de mortos do Exército Vermelho graças aos quais o nazi-fascismo foi derrotado?

 

Então me encontro cheio de perplexidade e para desatar o nó procuro exercitar a inteligência estimulando-a a sua tarefa principal da qual tudo o mais depende: entender. Mas o que há para entender?

 

Guerra e paz: eis o que há para entender. Aproveito o título da obra-prima de Tolstoi (que, aliás, na segunda metade de sua vida foi um pacifista radical com posições políticas próximas da anarquia) para argumentar que a história às vezes não permite que se opte pela guerra ou pela paz, como hoje querem aqueles que, declarando-se a favor da paz, são contra o envio de armas aos ucranianos. Às vezes não há guerra "ou" paz, mas sim guerra "e" paz, com a conjunção "e" ligando intimamente os dois fenômenos. Como traduzir o título de Tolstoi para o latim? Eu me pergunto isso, porque o latim tem uma capacidade muito mais ampla do que o italiano para expressar a conjunção "e", que pode ser traduzida com "et", "ac", "atque" e com o "que" adicionado no final do segundo termo, para exemplo "senatus populusque", para indicar que os dois termos estão tão unidos que quase são uma só coisa: dois átomos que formam uma molécula. Que conjunção Cícero, Sêneca ou Tácito teriam escolhido para unir hoje "bellum" e "pax"?

 

A paz não é mera ausência de guerra, é antes uma atitude interior, penso que seja uma diferente vontade de poder e defino-a como "coragem" no sentido etimológico de "ação do coração". Mas o ensinamento quase unânime das tradições espirituais e filosóficas é que a paz não é apenas a mera ausência de guerra, mas, para ser verdadeiramente a serviço da vida e não imposição (como a "pax romana") ou ideologia disfarçada (como o ódio antiocidental de alguns), também pode ser a presença da guerra. Em que sentido? No sentido de que também deve conter em si a possibilidade da guerra como legítima defesa.

 

Neste caso temos a guerra "justa", contemplada unanimemente pelas principais tradições filosóficas e espirituais. Resumindo sabedoria grega e doutrina cristã, Tomás de Aquino se perguntava se é sempre um pecado fazer a guerra (utrum bellare semper sit peccatum, cf. Summa theologiae, II-II, q. 40) e respondia que não a três condições: legitimidade da autoridade que a conduz, justa causa, justa finalidade.

 

A guerra de Putin não é justa porque:

 

1) a autoridade que a conduz é democraticamente ilegítima por ser regime liberticida que nega a liberdade, censura a informação, aprisiona os oponentes (Navalny), às vezes os mata (Politkovskaja, Nemcov, Litvinenko); em suma, não é uma democracia, mas uma "democratura", como Massimo Giannini a definiu;

2) sua causa é claramente o ataque, não a defesa, como afirma uma declaração assinado por milhares de cientistas russos e apresentado neste jornal por Elena Cattaneo;

3) tem como finalidade o controle de um país soberano para reduzi-lo a seu vassalo.

 

Pelo contrário, a guerra travada pela Ucrânia é justa porque:

1) é conduzida por um governo democraticamente eleito;

2) é motivada pela vontade natural de defender o próprio país e a vida de seus cidadãos;

3) tem como finalidade a liberdade.

 

Segue-se que esta guerra é injusta e justa, dependendo da posição, e não é inteiramente verdade o que Gino Strada pensava segundo o qual "a guerra justa não existe: nove em cada dez vítimas são civis": é verdade para a guerra de Putin, é verdade para a guerra dos EUA que pretendiam exportar a democracia construindo mentiras, é verdade para todas as outras guerras de agressão. Isso não é verdade, no entanto, para a guerra dos ucranianos e para toda outra guerra de defesa.

 

O fenômeno História é complexo, requer uma inteligência delicada e desprovida de certezas a priori: basta pensar na Segunda Guerra Mundial que foi ao mesmo tempo agressão nazifascista e luta contra o nazi-fascismo e resistência, e antes mesmo pensar em todas as guerras de independência que permitiram aos povos oprimidos alcançar a liberdade. O que atesta que às vezes na história não há possibilidade de escolher guerra ou paz, mas se mantém as duas juntas: e guerra e paz. Querer a paz significa: a) preparar a paz de todas as maneiras; b) também estar pronto para uma guerra de defesa contra o injusto agressor.

 

A paz e a guerra estão, portanto, no mesmo plano? Não, a paz é infinitamente superior, mas, justamente por isso, contém a possibilidade (extrema, mas real) da guerra. Não é o contrário da guerra, é a superação dela, “Aufhebung” teria dito Hegel apontando para o processo que também é capaz de guardar as razões da antítese.

 

A lição a ser aprendida é que as opções de guerra não devem ser excluídas a priori e que, infelizmente, às vezes é necessário recorrer a elas. Gandhi, o mais famoso pai da não-violência, escreveu sobre isso: "Vamos supor que um homem seja tomado por uma loucura assassina e comece a circular com uma espada na mão, matando qualquer um que apareça à sua frente, e que ninguém tenha a coragem de capturá-lo vivo. Quem matar o louco ganhará a gratidão da comunidade e será considerado um homem caridoso” (Teoria e Prática da Não-Violência, p. 69).

 

Esta é a resposta à objecção daqueles que são sempre e em qualquer caso contrários à guerra e ao uso de armas, permanece a segunda de tipo pragmático segundo o qual o envio de armas aos ucranianos contra os russos de nada serve devido à desproporcionalidade das forças. No entanto, trata-se de um argumento que supõe competências militares não em minha posse, posso me limitar a dizer que se uma criança é espancada por um energúmeno enlouquecido não devo deixar de intervir para que ele não fique ainda mais irritado.

 

Temos que construir a paz. É um dever político e moral. Talvez, a partir de 24 de fevereiro, esta tenha se tornado a missão de nossa vida. Há um nível militar nesse sentido: os ucranianos lutam por sua liberdade e precisam ser ajudados militarmente. Há um nível humanitário: os ucranianos precisam de assistência e devem receber alimentos, roupas, remédios e acolher atenciosamente todos aqueles que se põem a salvo. Existe um nível diplomático e todas as negociações devem ser buscadas e incentivadas. Deve-se também ter em mente que a guerra também afetará cada vez mais o povo russo, entregue por seu ditador a um futuro negro: se quiserem a paz, os russos também devem ser ajudados ouvindo suas razões, honrando sua majestosa cultura, não os marginalizando como párias.

 

Acima de tudo, deveríamos monitorar cuidadosamente nossa consciência para garantir que o veneno do ódio não entre nela, mesmo diante das imagens mais revoltantes da guerra injustamente conduzia por Putin. De fato, os russos, embora agora obrigados a obedecê-lo, não são Putin, assim como os alemães não eram redutíveis a Hitler, os italianos a Mussolini, os sérvios a Miloševic, a humanidade a Caim. Na Amsterdã ocupada pelos nazistas, uma jovem judia, Etty Hillesum, mais tarde morta em Auschwitz, escreveu em uma carta datada de dezembro de 1942: "Sei que quem odeia tem bons motivos para isso. Mas por que deveríamos escolher sempre o caminho mais curto e barato? Pude ver pessoalmente como cada átomo de ódio que é adicionado ao mundo o torna ainda mais inóspito".

 

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