“No Haiti, esperamos a hora de ir para o exílio ou de levar uma bala”. Entrevista com Jean D’Amérique

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21 Julho 2021

 

Convidado do Festival Oh les beaux jours!, em Marselha, o poeta e romancista Jean D’Amérique, 26 anos, autor de Soleil à coudre (Actes Sud, 2021), analisa a caótica situação do Haiti.

A entrevista é de Marie Chaudey, publicada por La Vie, 16-07-2021. A tradução é de André Langer.

 

Eis a entrevista.

 

Como você reagiu ao assassinato do presidente haitiano Jovenel Moïse em 7 de julho passado?

No primeiro momento, fiquei chocado. É assustador dar-se conta de que um presidente, ou seja, o primeiro cidadão de um país, pode ser assassinado em sua casa. Já antes deste evento traumático, as pessoas estavam em perigo no Haiti, dada a insegurança geral que continua a aumentar. Se o presidente, por mais ilegítimo que seja, pôde ser eliminado dessa forma, o que dizer dos demais habitantes? Ninguém está a salvo.

Naquele momento, eu temia por todos os haitianos (incluindo minha família e amigos militantes) e preocupado com o futuro. O país já estava sob o controle de gangues, há uma gritante ausência do Estado e da autoridade pública em todos os aspectos da vida haitiana. Mas desta vez, o que vai acontecer?

É evidente que existe uma espécie de propaganda do primeiro-ministro que afirma querer governar o país: estão tentando apresentar o assassinato como obra de alguns mercenários colombianos. A gravação de voz da primeira-dama que vai nessa direção inundou amplamente as redes sociais e a mídia convencional. Fiquei com raiva de ver meu país em uma situação tão extrema.

Uma raiva dirigida contra quem?

Eu cresci no Haiti em bairros muito pobres, onde nunca consegui viver de verdade: fomos privados de tudo; os serviços do Estado sempre faltaram. O povo constantemente teve que sobreviver por conta própria. E de governo em governo, os mesmos erros se repetem. Na última década e com eleições fraudulentas, a população vem dizendo não a tudo isso. Apesar de tudo, a comunidade internacional apoia políticos inescrupulosos, que vão enterrando o povo haitiano.

Devemos lembrar que, desde seu início, o presidente assassinado não foi aceito pela maioria dos haitianos. Sem contar que seu mandato constitucional terminou em fevereiro e ele não queria deixar o poder.

Também não devemos esquecer que, poucos dias antes da sua morte, cerca de quinze ativistas anticorrupção foram mortos a tiros. Entre eles estava a feminista, ativista e jornalista Antoinette Duclaire, uma jovem que estava ganhando destaque na política e que reclamava por justiça para todas as vítimas da repressão desde os protestos anticorrupção de 2018.

Seu romance, Soleil à coudre, conta a história da gangsterização do país, vista de uma favela de Porto Príncipe.

Prova de que a situação não é nova, uma vez que comecei a escrever o romance em 2016... Parti de todas essas situações violentas que conheço, pois passei a minha adolescência nas favelas. E tentei mostrar a complexidade da situação, sem tentar apontar o que é bom ou ruim. Essas pessoas que usam a violência, que agem por ela ou que a sofrem, não são elas que a criaram: dependem dela para sobreviver. Como você cresce em ambientes tão caóticos? Minha heroína, Tête Fêllée, às vezes usa a violência para sobreviver, mas também encontra outras maneiras, como escrever e namorar. Eu queria mostrar essas duas facetas.

Nas favelas, os jovens das gangues admitem que nunca teriam dinheiro para comprar armas. São os políticos que os armam, manipulando-os, para manter o poder. Agora sabemos que os políticos perderam o controle: agora, as gangues são muito mais poderosas do que a polícia no país. É o mundo de cabeça para baixo. Não fazemos mais distinção entre as gangues e as autoridades oficiais: o famoso chefe de gangue chamado Barbecue está se exibindo nas ruas e na televisão; ele faz todos pagarem bem caro.

No seu romance, um personagem tem como nome o “político cuja bunda é feita para todas as cadeiras”...

A corrupção está a todo vapor: os políticos são, acima de tudo, empresários que buscam manter o poder para encher os bolsos. O que está acontecendo desde o assassinato do presidente é mais uma prova desse estado de coisas. Claude Joseph era um primeiro-ministro em fim de mandato, que se autoproclamou o novo líder do país. Isso não faz sentido.

Eu parti da urgência de fazer ouvir as vozes dos marginalizados e desprezados. A literatura me abriu um caminho a partir da biblioteca do bairro de Paloma que ficava a dois passos do meu colégio. Meus professores de inspiração foram Jacques Stephen Alexis, Kateb Yacine e Mahmoud Darwich, grandes lutadores da resistência através da palavra. Eu acredito no poder da literatura para transformar as coisas. Assim como todos os corpos precisam comer para permanecer em pé, a mente também precisa permanecer viva por meio desse alimento que são as palavras e a poesia.

Você não está procurando todas as maneiras possíveis de dizer a violência extrema para combatê-la: através da poesia, do teatro e agora do romance?

Moro na França há dois anos, mas Porto Príncipe está impressa em mim com sua violência. É como se eu transpirasse as palavras que são os salpicos desta cidade em que durante muito tempo estive mergulhado. Mesmo a milhares de quilômetros de distância, não consigo escrever sem essa presença. E quero que as coisas mudem, que as crianças que crescem no Haiti encontrem um país para morar, sem estar eternamente em trânsito, para esperar a hora de ir para o exílio ou de levar um tiro.

Desde os protestos de 2018, sinto que a nova geração tem aguçado sua consciência política, está buscando entender melhor os acontecimentos e se engajar mais. Isso dá esperança, essa resistência dos jovens que procuram criar meios para viver e que sabem se levantar e dizer não. Acredito nessa esperança, apesar de tudo, e me recuso a formular previsões caóticas para aumentar ainda mais o caos...

Meu romance também é uma busca de luz, não simplesmente um meio de relembrar as violências e jogá-las na cara do mundo. Para Tête Fêlée, imaginar um sol para costurar é buscar um pouco de luz e esperança além da própria situação. São os governos haitianos corruptos que criam a imagem devastadora da violência endêmica, não o povo haitiano que há muito tempo luta para sobreviver à repressão e que tem coisas a dizer ao mundo.

Em que área meu país oferece sua melhor face? Na literatura, nas artes e na cultura. Ali onde o Haiti brilha, o poder político está ausente.

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