“As relutâncias em relação à vacina contra a Covid são construídas socialmente”. Entrevista com Nathalie Bajos

Campanha de vacinação na França | Foto: Reprodução do Facebook do Emmanuel Macron

13 Julho 2021

 

Como todas as epidemias, a Covid possui uma forte dimensão social. O risco de ser exposto ao vírus, as consequências da epidemia nas condições de vida variam de acordo com o local de residência, habitação, situação laboral, status profissional, situação financeira, gênero, origem étnico-racial... As desigualdades sociais também são significativas em termos de prevenção e, de modo especial, de vacinação.

A entrevista é de Céline Mouzon, publicada por Alternatives Économiques, 10-07-2021. A tradução é de André Langer.

Em Seine-Saint-Denis, a taxa de vacinação era de 22% no final de junho contra 33% da média nacional. Isso não se deve apenas à idade: para os maiores de 75 anos, a taxa de vacinação é de 68% neste departamento contra 76% em escala nacional. As taxas de vacinação também não são as mesmas se consideramos as categorias profissionais. Entre os profissionais da saúde, as taxas de vacinação de auxiliares de enfermagem e enfermeiras são inferiores às dos médicos.

Até o final de maio, 40% dos auxiliares de enfermagem haviam recebido duas doses da vacina, ante 47% dos enfermeiros e 65% dos médicos. No final de junho, 47% dos profissionais de Ehpad [lares para idosos] ou USLD (unidade de longa permanência) estavam totalmente vacinados, contra 73% dos profissionais de saúde liberais. Nesse contexto – desaceleração da vacinação, avanço da variante delta, mais contagiosa, e antecipação de uma quarta onda no início do ano letivo, ou mesmo antes –, o governo planeja impor a vacinação obrigatória aos profissionais da saúde. Esta opção é defendida por alguns profissionais da saúde, enquanto outros denunciam a existência de “uma batalha sem sentido”.

Para esclarecer essas questões, nós recorremos à socióloga Nathalie Bajos. Diretora de pesquisa do Inserm (Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica), ela coordena com Josiane Warszawski, médica epidemiologista, a pesquisa EpiCov (“Epidemiologia e condições de vida”) que documenta as desigualdades sociais em tempos de Covid, seguindo uma coorte de 135.000 pessoas. Após a publicação dos resultados iniciais sobre as desigualdades ligadas à exposição ao vírus e os efeitos do confinamento nas condições de vida, Nathalie Bajos trabalha atualmente com Alexis Spire, sociólogo do CNRS, sobre as desigualdades vacinais.

 

Eis a entrevista.

 

As desigualdades sociais em relação à Covid dizem respeito às condições de vida, mas também ao acesso à prevenção, especialmente às vacinas. O que podemos dizer sobre isso?

As desigualdades sociais em matéria de práticas de vacinação cobrem duas dimensões: as atitudes em relação às vacinas – hostilidade, confiança, dúvida – e o efetivo acesso às vacinas. Como parte da pesquisa EpiCov, estamos atualmente trabalhando nessas duas questões. Agora dispomos dos resultados para o primeiro ponto, as atitudes em relação à vacina contra a Covid, e estamos em processo de explorar os dados para o segundo aspecto, as desigualdades no efetivo acesso à vacina. Um esclarecimento: os primeiros resultados vêm de entrevistas realizadas em novembro passado, num momento em que as vacinas ainda não estavam disponíveis.



Existe uma particularidade nas atitudes em relação à vacina contra a Covid em comparação com a vacinação em geral?

Estávamos efetivamente interessados na atitude em relação à vacina contra a Covid, procurando saber se havia uma especificidade em comparação com as atitudes da população francesa em relação às vacinas em geral. A desconfiança em relação às vacinas é alta na França desde o final da década de 1990. Em 2015, apenas 52% da população considerava a vacina contra a gripe segura, contra 85% dos britânicos e 80% dos espanhóis.

No outono passado, apenas 44% dos franceses disseram que gostariam de ser imunizados contra a Covid, em comparação com 65% na Alemanha, 70% na Itália e 81% no Reino Unido. A França é um dos países com o nível de confiança mais baixo nos soros. Notamos que a relutância em relação à vacina contra a Covid é estruturada pelas atitudes em relação às vacinas em geral, sem que esta se sobreponha completamente. Essas atitudes são muito estruturadas socialmente.

 

 

Quais são os principais determinantes sociais que explicam as atitudes em relação à vacina Covid?

Um dos efeitos marcantes é um efeito de gênero: as mulheres parecem ser quase duas vezes mais relutantes em ser vacinadas do que os homens. É o caso da vacinação em geral, mas é ainda mais acentuado para a Covid. Atenção: isso não significa que serão metade dos vacinados. Existem ligações entre relutâncias e práticas, sem que sejam automáticas.

Como explicar isso? Essa ênfase exagerada pode estar relacionada à própria rapidez da descoberta dessa vacina, embora as técnicas de RNA mensageiro já existam há mais de vinte anos. As mulheres hesitam mais em relação à inovação médica em geral e aos riscos que acarreta. Também pode haver suspeitas sobre os supostos efeitos da vacina na fertilidade a curto prazo – na verdade, a relutância das mulheres diminui com a idade. Mas, de maneira mais geral, há uma aversão mais forte do que entre os homens aos riscos induzidos pelas tecnologias.

Também existe um efeito de idade. Os mais idosos são menos hostis às vacinas em geral e são ainda menos hostis à vacina contra a Covid. Faz sentido: eles são mais afetados pela doença.

Por outro lado, o efeito de instrução é menos acentuado para a Covid do que para as vacinas em geral. Os mais instruídos são os menos hostis à vacinação. Para a Covid, esse efeito de instrução perdura, mas é menos acentuado.

Quanto ao nível de renda, age de forma semelhante em relação à vacina contra a Covid do que em relação às vacinas em geral. Os 10% mais ricos são menos hostis à vacina do que os 50% mais pobres. O que importa, provavelmente, não é tanto o nível de renda, mas a participação em redes sociais que informam crenças e práticas.



Também existe um fator étnico-racial. Como ele age?

O status etno-racial também é um determinante muito importante. A hostilidade às vacinas em geral é mais acentuada entre as populações racializadas, embora seja menos acentuada para a Covid. Isso se explica, sem dúvida, pelo fato de serem mais afetadas pela doença, sendo as taxas de contaminação mais elevadas entre os imigrantes de origem extra-europeia do que entre os demais, o que está relacionado com as condições de vida, trabalho e habitação. Essa superexposição é um reflexo das políticas sociais e econômicas implementadas há décadas.

Essa hostilidade geral à vacinação está enraizada em experiências de discriminação em relação ao sistema de saúde, que nós mesmos experimentamos ou que nossos entes queridos experimentaram. A vacinação implica um contato com o corpo médico. No entanto, esse está no centro da maior desconfiança.

A isso provavelmente se acrescenta o fato de que as pessoas de cor costumam ter laços sociais ou de proximidade familiar em países do Sul, onde há dificuldades muito concretas de acesso às vacinas e onde a vacina contra a Covid é percebida como um produto feito por brancos e preferencialmente para os brancos – o que de fato é verdade.

Essa maior relutância em relação à vacina contra a Covid não é uma negação da doença. As minorias racializadas se protegem tanto quanto as outras, recorrem tanto, senão mais, aos testes e se sentem igualmente em risco com condições de vida equivalentes.

Por fim, o último determinante, desta vez de cunho político: a desconfiança em relação ao governo é a dimensão mais fortemente ligada ao fato de claramente se recusar a se vacinar, em um contexto em que é o governo que montou a estratégia de vacinação.

Compreender a construção social da relutância em relação à vacina é necessário para projetar e implantar uma estratégia de vacinação que alcance o maior número de pessoas possível.

 

 

Como a estratégia de vacinação pode integrar esses elementos?

Eu falei de relutâncias socialmente construídas para as quais temos os dados da pesquisa EpiCov. Mas também sabemos que há dificuldades de acesso à vacinação. A estratégia de vacinação deve levar em consideração essas duas dimensões. Deve implantar soluções para chegar até as pessoas relutantes e as pessoas que podem ter dificuldades para acessar as informações e/ou os postos de vacinação.

Isso requer, de modo especial, uma ênfase na pedagogia direcionada e ir além dos spots de comunicação dizendo “vacine-se”. Há um importante trabalho de explicação a ser fornecido, mas também de acesso. Para isso, podem ser utilizadas diferentes técnicas: disponibilizar um número de discagem gratuita para responder a todas as perguntas que as pessoas com razão se fazem sobre o princípio da vacina, bem como os meios de encontrar um posto de vacinação, porque nem todos têm acesso ou não se sentem confortáveis com os Doctolib, os ônibus de vacinação, contando com o tecido associativo local... Enfim, é imprescindível fazer uma verdadeira política pró-vacinação junto aos grupos mais distantes da vacinação em termos de representações e de acesso.

Mesmo que as ações sejam tomadas de tempos em tempos, a estratégia de vacinação foi inicialmente baseada nos critérios médicos chamados objetivos: a idade e as comorbidades. Essa sequência mostra mais uma vez a necessidade de se afastar de um modelo biomédico que não leva em consideração os determinantes sociais da saúde e do acesso aos cuidados.

 

 

O que pensa da obrigação da vacinação para os profissionais da saúde?

O fato de a prática da vacinação ser menos importante entre os auxiliares de enfermagem do que entre os enfermeiros, e menos importante entre estes últimos do que entre os médicos, reflete o gradiente social que também se observa no restante da população. Deve-se observar também que outras vacinações já são obrigatórias para os profissionais da saúde, como a hepatite B.

Sabemos que os profissionais da saúde estão expostos a um risco maior de pegar a Covid do que os outros. Eles foram muito afetados pela primeira onda, em um momento em que não havia máscara disponível, e quando os momentos de sociabilidade profissional ou de intervalos aconteceram e ainda acontecem em condições materiais que não necessariamente permitem respeitar o distanciamento físico. Sem dúvida, há contaminações entre os profissionais da saúde nesses momentos.

Vários estudos mostram que existem contaminações que ocorrem nos locais sanitários. Não se trata de questionar as competências profissionais dos profissionais da saúde em suas práticas de prevenção, mas não existe risco zero e, de fato, a prevalência da epidemia é maior nos ambientes de cuidados sanitários.

No entanto, no contexto atual, não podemos perder de vista o fato de que o sistema hospitalar está indo muito mal e que o sistema de lares para idosos é eminentemente problemático em muitos aspectos. O debate sobre a obrigação de vacinar os profissionais da saúde concentra a atenção em determinadas categorias de pessoal, os auxiliares e enfermeiros, e suscita dúvidas sobre sua capacidade de adotar as ações corretas para evitar a transmissão, questionando o seu profissionalismo. A obrigação de vacinar os profissionais da saúde merece um debate informado e parece dificilmente audível sem que as condições de trabalho sejam levadas em consideração.

Além disso, falar em vacinação obrigatória para os profissionais da saúde sem falar de tudo o que poderia ser feito para melhorar a cobertura vacinal das populações mais vulneráveis também levanta dúvidas. Sabemos que as pessoas precárias estão entre as mais expostas, que os riscos de contaminação variam de acordo com os grupos sociais: os grupos de maior risco são também os mais afastados do sistema de saúde. É muito bom abrir postos de vacinação em Saint-Denis ou no Halle Freyssinet. Mas isso não é suficiente para atingir as pessoas mais distantes do sistema de saúde.

Ou seja, a vacinação dos profissionais da saúde é absolutamente necessária, mas eles não devem ser responsabilizados pelos limites da estratégia de vacinação posta em prática pelos poderes públicos.

 

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