Edgard de Assis Carvalho: “O espírito do tempo, hoje, é o da religação”

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Por: Jonas Jorge da Silva | 27 Abril 2021

 

A atual globalização é propulsora da uniformidade, não da universalidade. Para Edgard de Assis Carvalho, uma das referências no pensamento complexo, tradutor de importantes obras de Edgar Morin, urge a conformação de uma fraternidade aberta, de religação, capaz de apontar vias para o futuro pautadas na pluralidade, na liberdade, na tolerância, na ética e na constituição de uma comunidade moral.

Edgard de Assis Carvalho fez uma contundente reflexão acerca do tema Desafios da globalização em tempos de incerteza, pelo segundo encontro da série de debates [online] Crise sistêmica, complexidade e desafios planetários, promovida pelo CEPAT com a parceria e o apoio de diversas instituições: Instituto Humanitas Unisinos - IHU, Núcleo de Direitos Humanos da PUCPR, Conselho Nacional do Laicato do Brasil - CNLB, Comunidades de Vida Cristã - CVX, Observatório Nacional Luciano Mendes de Almeida - OLMA e Departamento de Ciências Sociais, da Universidade Estadual de Maringá.

Pautado no pensamento complexo, chão de onde olha e analisa o mundo, Carvalho reconheceu a transitoriedade e incompletude dos conceitos utilizados na interpretação da realidade. Citando a obra A aventura de O Método, de Edgar Morin, citou a figueira baniana, da Ásia Tropical, que com seus ramos e galhos caídos na terra produzem novos troncos inseparáveis do primeiro. Trata-se de uma boa imagem para descrever a dinâmica do pensamento complexo, traduzida na trajetória centenária do pensador francês, muito bem expressa no poema de Antonio Machado: “Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar”.

 

Edgard de Assis Carvalho, no debate "Desafios da globalização em tempos de incerteza"

 

Carvalho salientou que o pensamento selvagem é a célula-tronco do pensamento complexo e que, portanto, não deve ser contraposto ao pensamento domesticado, pois mito e razão são dimensões constitutivas do humano. Nesse sentido, diante das policrises que assolam o sistema-mundo, é preciso assumir uma racionalidade aberta.

Fazendo referência a uma afirmação do importante antropólogo Claude Lévi-Strauss, quando disse que “um humanismo bem ordenado não começa por si mesmo. Coloca o mundo antes da vida, a vida antes do homem, o respeito pelos outros seres antes do amor-próprio” (A origem dos modos à mesa), Carvalho ressaltou a necessidade de uma renovação do humanismo. É preciso resistir à akrasia, a fraqueza da vontade, e buscar a restauração do oikos, percebendo todas as espécies dentro de um sistema mais amplo.

Nessa direção, citou uma passagem da obra Rumo ao abismo? Ensaio sobre o destino da humanidade, de Edgar Morin, ao constatar que “imersa no caos, a humanidade tem diante de si uma oportunidade inédita: metamorfosear-se em um metassistema rico em possibilidades ou sucumbir no abismo da insignificância generalizada”. Essa via aberta é uma marca na trajetória de Morin, em seu modo insurgente e militante em favor de novos futuros possíveis.

Edgard de Assis Carvalho também citou o cinema como um operador cognitivo para traçar alternativas. Em alusão ao filme Crônicas de um verão, dirigido por Jean Rouch e Edgar Morin, no qual perguntam às pessoas se eram felizes, disse que, nos dias atuais, seria o caso de interrogá-las, em uma espécie de crônicas de uma pandemia, da seguinte forma: Você é feliz nesse ano de 2021 pandêmico e não suficientemente imunizado?. Segundo Carvalho, as estatísticas demonstram que não somos felizes e que o futuro permanece uma incógnita para muitos de nós.

Em nosso ato de insurgência, “o único recurso que temos é a palavra, é um vídeo, é uma aula e uma conferência. Nós não fazemos parte do poder”, avaliou Edgard de Assis Carvalho. E citou Heráclito, um filósofo muito influente na trajetória de Edgar Morin: “se você não espera, não encontrará o inesperado”. Nesse sentido, enxerga potencialidades, vias para o futuro, em nossas ilhas e oásis de fraternidade, ética, subjetividade, sexualidade, sabedoria, benevolência e reconhecimento.

 

Igor Borck, do CEPAT e André Langer, do CEPAT, no debate "Desafios da globalização em tempos de incerteza"

 

A tarefa desafiadora é a de nos constituirmos como comunidade moral, na qual a convivência intersocietária seja pautada pelo pluralismo, pela liberdade, pela tolerância, pela ética, com autonomia, sem a tutela de ninguém. Nos sonhos de uma via para o futuro está o sepultamento definitivo de todas as formas de totalitarismos e degradações.

Mais do que apenas uma imunização sanitária, Carvalho alerta que em tempos de incertezas, de desafios da globalização, a humanidade precisa de uma imunologia geral. Para esta abordagem, cita o livro Tornar a terra habitável, escrito por Edgar Morin e o filósofo alemão Peter Sloterdijk, no qual traçam possibilidades de uma imunologia geral. Para eles, existem três sistemas imunológicos superpostos, entrelaçados e em circuito:

1) o sistema da imunidade biológica, ou seja, da imunidade do corpo, que revolucionou nossas ideias sobre a saúde e o seu sentido;

2) o sistema da imunidade jurídica e solidária, transfraternal;

3) o sistema da imunidade simbólica, formado pelas mitologias, as religiões, as artes e as filosofias, sempre empenhadas em decifrar nosso ser no mundo.

Entrelaçados, esses sistemas da imunidade podem ativar circuitos entre razão e sensibilidade, entre o real e o imaginário. Tais circuitos expressam os sentidos e os sentimentos de sobrevivência que incidem sobre todos nós e que circundam todas as culturas humanas, sempre aptas a desencadear inesperadas bifurcações.

Carvalho também foi até a obra Psicologia das massas e análise do eu, de 1921, para fisgar o que Freud caracterizou como “amor unânime das massas a um dirigente que os hipnotizam sem concessões”, uma marca do nazi-fascismo da primeira metade do século passado. Em comparação àquele momento, denunciou que “o hipnotismo hipermoderno nos dias correntes, no Brasil isso é claríssimo, precisa ser destronado para que a política de civilização se dissemine pela sociedade mundial, para que o sofrimento psíquico de todos nós e o mal-estar sejam superados”.

Em tempos de incertezas, com desafios ecológicos, armamentistas, da pilotagem do desenvolvimento, de consolidações democráticas, entre outros, todos planetários, conforme enfatizou Carvalho, requer-se um humanismo radical frente à crueldade do mundo.

Aproveitando-se da riqueza do texto O jardim das veredas que se bifurcam, de Jorge Luis Borges, publicado em 1944, Carvalho disse estar cada vez mais convencido de que o pensamento complexo pode ser comparado a um jardim no qual cuidamos das flores, das plantas e de nós mesmos, sendo composto por variadas veredas. Nesse sentido, a mundialização contém veredas que se bifurcam o tempo todo, mas, alerta, “essas bifurcações não vêm gerando reorganizações, nem emergências que apontem uma via para o futuro, para um mundo melhor e transfraternal para todos.

Para Carvalho, o futuro nunca está dado de presente para nós. É preciso lutar por ele. Mencionando Ilya Prigogine, lembrou que o futuro está sempre aberto à nossa inconstante espera. “Nós é que estamos empenhados em modelar a matéria incoerente, inconstante, de nossos desejos, de nossas utopias em prol de mundo melhor para todos”, apontou, advertindo sobre a necessidade atual de se criar uma nova sociedade sem a presença, uma vez por todas, dos tiranos.

Durante a intervenção dos participantes, Carvalho voltou a lembrar que o paradigma é o maior inimigo da racionalidade aberta, pois fecha as ideias. Em sua opinião, a constatação de que a unidade e a diversidade caminham juntas jamais poderá se tornar um paradigma. “É bom que o pensamento complexo não se converta em um paradigma”, reconheceu.

Além disso, frisou que para Edgar Morin existe uma sutil distinção entre globalização e mundialização. A globalização, fruto da ascensão do neoliberalismo, ampliou intensamente as desigualdades, já a mundialização almeja a fraternização. Essa é a verdadeira mundialização. O mundo anda muito desfraternizado.

 

Edgard de Assis Carvalho, e Geovanio Edervaldo Rossato, da UEM, no debate "Desafios da globalização em tempos de incerteza"

 

Edgard de Assis Carvalho afirmou que temos duas grandes forças na crise: a da discórdia e a da concórdia. “Nós optamos pela concórdia, pela transfraternização”, afirmou, mas existem os que optam pela discórdia, que são a direita. E como exemplo, mencionou que a direita bolsonarista investe na discórdia. “Há muitas discórdias e nós estamos empenhados pelas forças das concórdias”, ressaltou.

Em sua avaliação, as polarizações atuais não são superficiais, são constitutivas e contingenciais. “As democracias são o solo preferencial das discussões, das diferenças, das diversidades. A diversidade democrática está submissa a uma unidade da democracia”, afirmou, alertando que “enquanto mantivermos as oposições entre as discórdias e as concórdias democráticas, enquanto mantivermos essas oposições, elas correm o risco de se tornar estruturais”.

Em toda a sua fala, Edgard de Assis Carvalho demonstrou ser um exímio defensor das liberdades, das diversidades, mas também não deixou de alertar sobre o risco de as reivindicações identitárias atuais se transformarem em intolerâncias, caso trabalhem contra a concórdia, concentrando-se apenas no acirramento das polaridades.

Também fez uma crítica ao modo como as universidades se tornaram espaços da fragmentação, da especialização e da quantofrenia. Para ele, a cultura científica e a cultura humanística precisam ser religadas. A sabedoria provém da concórdia entre as duas culturas. Nesse sentido, permanecer como ilhas de concórdias dentro dessa discórdia geral que é a fragmentação é uma forma de resistência.

Por fim, ao relembrar das aulas de Darcy Ribeiro, já que foi seu aluno, disse que o pensador brasileiro dizia que a universidade precisa estar de acordo com o espírito do tempo. E disto Carvalho inferiu brilhantemente: “O espírito do tempo, hoje, em 2021, é o espírito da religação”.

 

Eis a íntegra da exposição e do debate.

 

 

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