Assim, o Papa Francisco nos lembrou que o comunismo pertence ao pensamento religioso

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12 Abril 2021

 

"No máximo é o comunismo marxista que divide os dois pensamentos, como se os marxistas tivessem imposto um cisma para dizer que os verdadeiros apóstolos, a verdadeira ala que marcha, ou os verdadeiros sacerdotes, eram eles", escreve Riccardo Cristiano, jornalista e escritor, em artigo publicado por Global List, 11-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Qual é o nome do momento mais importante de qualquer celebração cristã? Chama-se Eucaristia. É o sacramento central do Cristianismo, definido como extensão da Encarnação do Verbo, pois por um lado comemora e renova o sacrifício de Jesus Cristo, e, por outro, realiza a comunhão dos fiéis com o Redentor de forma que é chamado de “comunhão”.

Nunca na história desses dois mil o sacramento central do Cristianismo foi chamado de "divisão" ou "individualização" ou privatização.

Se alargarmos o nosso olhar, o dado comunitário ou, se queremos, comunista, é central também no Judaísmo como no Islã. Na verdade, encontramos escrito na Enciclopédia Treccani sobre o Judaísmo e o famoso jubileu que se origina no Judaísmo: "Entre os antigos hebreus, festividade que ocorria a cada cinquenta anos, santificada com o repouso da terra (para o que semear e colher eram proibidos ), com a restituição da terra ao dono original, caso um homem rico tivesse tomado sua posse, e com a libertação dos escravos”. No Islã, além disso, temos uma escolha muito clara: a comunidade dos fiéis substitui a velha ordem tribal criando uma mega tribo, que une todas as tribos superadas com um único chefe, o sucessor do Profeta Maomé, e um conselho de anciãos.

Acho que basta entender o que aconteceu hoje, o que o Papa Francisco disse. Neste domingo de grande importância por ser a festa, instituída por João Paulo II, da Divina Misericórdia, Francisco disse: “Depois da sua ressurreição, Jesus opera a ressurreição dos discípulos que, obtendo misericórdia, tornam-se misericordiosos. Vemo-lo na primeira leitura. Os Atos dos Apóstolos contam que ‘ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum’ (4, 32). Não é comunismo, mas cristianismo no seu estado puro. E o fato é ainda mais surpreendente, se pensarmos que aqueles mesmos discípulos, pouco tempo antes, litigavam entre si sobre prêmios e honras, sobre qual deles era o maior (cf. Mc 10, 37; Lc 22, 24). Agora partilham tudo, têm ‘um só coração e uma só alma’ (At 4, 32). Como conseguiram mudar assim? Viram no outro a mesma misericórdia que transformou a sua vida. Descobriram que tinham em comum a missão, o perdão e o Corpo de Jesus: a partilha dos bens terrenos aparecia-lhes como uma consequência natural. Depois o texto diz que, ‘entre eles, não havia ninguém necessitado’ (4, 34). Os seus medos dissolveram-se ao tocar as chagas do Senhor, agora não têm medo de curar as chagas dos necessitados, porque ali veem Jesus, porque ali está Jesus''.

Na homilia, Francisco recordou que os discípulos “são misericordiosos, através de três dons: primeiro Jesus lhes oferece a paz, depois o Espírito e por fim as chagas. Em primeiro lugar, “dá-lhes a paz. Os discípulos estavam angustiados. Fecharam-se em casa assustados, com medo de ser presos e acabar como o Mestre. Mas não estavam fechados só em casa; estavam fechados também nos seus remorsos: tinham abandonado e renegado Jesus; sentiam-se uns incapazes, inúteis, falhados. Chega Jesus e repete duas vezes: ‘A paz esteja convosco!’ Não traz uma paz que, de fora, elimina os problemas, mas uma paz que infunde confiança dentro. Não uma paz exterior, mas a paz do coração”. E os discípulos sentem que receberam misericórdia: sentem que Deus não os condena, não os humilha, mas acredita neles”. Para Deus "ninguém está errado, ninguém é inútil, ninguém está excluído".

A homilia de Francisco de hoje nos faz entender que a história do Cristianismo foi invertida desde o tempo do Imperador Constantino por eventos contingentes, levando a uma aliança com as potências terrenas. Mas essa era a cifra real. E a leitura dos Evangelhos como os textos dos padres da Igreja emerge com clareza. A teoria da eterna esquerda, que se afunda na identidade religiosa do pensamento definido de esquerda, não é uma teoria elaborada por pensadores da esquerda religiosa, a relatam e compartilham também intelectuais que não são da esquerda, como Ernst Nolte, por exemplo.

Esta simples verdade factual, ou seja, que o comunismo pertence ao pensamento religioso, foi apagada por séculos de história de lutas de poder e para o poder, que nada têm a ver com o pensamento religioso judaico, cristão e islâmico.

O que Francisco disse em sua recente mensagem ao Fundo Monetário Internacional e ao Banco Mundial confirma esse elemento objetivo, como nos confirma que essa visão era a visão de João Paulo II, por exemplo, que um grande historiador do cristianismo, o professor Massimo Borghesi, disse que visava "uma teologia da libertação sem marxismo". Assim como Francisco. É o comunismo marxista que divide os dois pensamentos, como se os marxistas tivessem imposto um cisma para dizer que os verdadeiros apóstolos, a verdadeira ala que marcha, ou os verdadeiros sacerdotes, eram eles.

Mas por que, o que Francisco disse ao FMI e ao Banco Mundial algumas horas atrás? Francisco agradeceu a oportunidade de poder participar dos trabalhos com sua mensagem e disse claramente que sua esperança diz respeito à retomada, mas precisamos entender qual retomada: “A noção de retomada não pode se contentar com um retorno a um modelo desigual e insustentável de vida econômica e social, onde uma minúscula minoria da população mundial possui metade de sua riqueza".

Portanto, a pandemia nos obriga a escolher agora: queremos sair da crise pandêmica melhores ou piores? Se queremos sair melhores para Francisco, “precisamos conceber formas novas e criativas de participação social, política e econômica, sensíveis à voz dos pobres e empenhadas em incluí-los na construção de nosso futuro comum”. Bergoglio, portanto, pede explicitamente que também as nações mais pobres participem dos processos de tomada de decisão e que seja reduzida a dívida internacional que a pandemia agravou ainda mais.

Para Francisco, porém, tudo isso não basta. E de fato indica no texto outra figura, “a dívida ecológica”! Uma dívida que corre entre o norte e o sul do mundo. Trata-se da degradação ecológica causada pelo ser humano e pela perda de biodiversidade. Essa dívida deve ser saldada: “Acredito que a indústria financeira, que se destaca por sua grande criatividade, se mostrará capaz de desenvolver mecanismos ágeis de cálculo dessa dívida ecológica, para que os países desenvolvidos possam pagá-la, não só limitando significativamente o seu consumo de energia não renovável ou ajudando os países mais pobres a implementar políticas e programas de desenvolvimento sustentável, mas também cobrindo os custos da inovação necessária para tal finalidade”.

Para Francisco, a história se faz com solidariedade, com a qual se eliminam as causas estruturais da pobreza, da negação dos direitos sociais e do trabalho. Portanto, é hora de arregaçar as mangas, pois o ponto de partida para essa saída melhorados e não piorados pela pandemia diz respeito ao hoje: é "trabalhar juntos para fornecer vacinas para todos, especialmente para os mais vulneráveis e necessitados". Mais do que uma mensagem, poderíamos falar de um roteiro para o futuro, aquele que começa amanhã.

Abandonar categorias já obsoletas, como aquelas do materialismo histórico, materialismo dialético, ateísmo de Estado, partido único, luta de classes, ditadura do proletariado, coletivismo, entender que a indicação tem um valor cultural, espiritual, tendencial, não quer impor "uma ditadura de nenhuma espécie", permitiria à esquerda reencontrar um sentido nas sociedades contemporâneas, recuperando e não deformando um pensamento que bem conhece, pois é aquele que deu vida à eterna esquerda.

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