A fé como atalho: a polarização e o impacto da religião na disputa eleitoral

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28 Setembro 2026

"A religião não é um elemento estranho nem à história política brasileira, nem à cultura brasileira, e, portanto, ela não pode ser singularizada como a responsável pela polarização, mas ela é, sim, um ingrediente desse processo, dessa crise de hegemonia que a gente vivencia na política brasileira." Eis a reportagem.

A reportagem é de Manuelle Dias, Jornal da Universidade – UFRGS, publicada por Sul21, 27-09-2026.

A fé é um discurso que tem aparecido cotidianamente nos perfis públicos em redes sociais dos candidatos à presidência. Entretanto, uma consulta aos planos de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra o oposto: enquanto os perfis e recortes de vídeos dos presidenciáveis nas redes sociais são recheados de referências religiosas, os textos oficiais praticamente não mencionam o tema.

Para essa reportagem, o Jornal da Universidade conferiu como os candidatos à Presidência da República nas Eleições 2026 tratam o tema da religião em seus respectivos planos de governo. A apuração foi embasada nos planos registrados no TSE, e as informações coletadas foram debatidas com pesquisadores da UFRGS e do Laboratório de Estudos de Religião e Política (Laberp), grupo de pesquisa vinculado à Diretoria de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj).

O fenômeno chamou a atenção do antropólogo Eduardo Dullo, vice-coordenador do Programa de Pós-graduação em Antropologia Social da UFRGS, ao ser questionado sobre a distância entre a fé exposta nas redes sociais e o silêncio dela nos planos de governo. Para ele, o problema não é exatamente religioso, mas revela algo mais amplo sobre o lugar que esses planos ocupam atualmente na política brasileira. "Talvez os planos de governo não estejam recebendo grande importância por parte dos próprios candidatos, pois o lugar em que as manifestações do que eles querem, pelo que eles lutam, o que eles estão buscando aparecem com mais força nas redes", diz. Ele lembra que quase nenhum plano de governo desta eleição dedica espaço à pauta ambiental, sinal, segundo ele, de que os documentos formais perderam peso como vitrine política, superados pelo Instagram, pelo TikTok e pelo WhatsApp.

Há, porém, uma exceção que passa quase despercebida. O plano de governo da chapa Romeu Zema e Eduardo Girão (Novo), batizado de "Plano Implacável", inclui, na seção sobre Educação Básica, a proposta de "promover a liberdade de escolha das famílias na Educação Básica, estimulando parcerias com o setor privado, comunitário, filantrópico e confessional". A palavra "confessional" é o único ponto de contato explícito entre religião e um plano de governo registrado no TSE nesta eleição, mas aparece revestida de linguagem técnica da política educacional, não como discurso de fé. É um indício de que a religião não está de fato ausente dos documentos formais: ela aparece disfarçada, codificada em termos que evitam o desgaste de um apelo religioso direto.

Uma disputa que não é nova

O uso da fé como estratégia eleitoral não nasceu em 2026. O sociólogo Joanildo Albuquerque Burity, coordenador do Laberp, situa essa presença como parte da própria formação política do país. "Isso acontece no Brasil há muito, não é novidade, desde os tempos em que isso era uma coisa mobilizada pela própria Igreja Católica, desde o início do século 20", explica. Burity cita a Liga Eleitoral Católica, organizada nos anos 1930 e 1940, como um marco antigo dessa articulação. Depois dela, segundo o pesquisador, foram os evangélicos que passaram a disputar esse espaço a partir dos anos 1980 e, já nas últimas décadas, grupos afro-brasileiros e espíritas também ocuparam lugar nesse debate público.

Mais recentemente, 2010 costuma ser apontado como o ano em que a disputa pelo voto religioso ganhou contornos explícitos, quando José Serra (PSDB) usou a fé como estratégia de diferenciação contra Dilma Rousseff (PT). Desde então, o tema se repete a cada ciclo eleitoral e, segundo levantamento do Datafolha, o eleitorado evangélico migrou de forma consistente para a direita ao longo da década seguinte, enquanto os católicos seguiram majoritariamente ligados à esquerda.

Dullo chega a uma leitura parecida por outro ângulo: para ele, essa mistura de política e moral não é uma particularidade religiosa, mas uma característica estrutural de qualquer disputa eleitoral. "Na medida em que toda participação eleitoral política, seja de candidatos, seja de eleitores, estiver marcada por determinados posicionamentos que nós podemos chamar de político-morais, que não dissociam a justificativa da posição política de uma justificativa que envolva um conjunto de normas e regras daquilo que é considerado o correto, o justo, o bom, aquilo que deve ser feito. Sempre vai ter isso, na forma como eu vejo a situação", afirma. Ou seja: mesmo sem menção explícita à fé, todo voto carrega uma justificativa moral, e a religião é apenas uma das fontes possíveis dessa moralidade, não a única.

Estratégia de marketing ou identidade política?

Burity propõe que essa presença da religião no discurso eleitoral pode ser lida de duas formas. A primeira é instrumental: equipes de campanha identificam um eleitorado sensível às mensagens religiosas e ativam esse registro de fala para se aproximar dele, "seja porque são 'marqueteiros' que estão desenhando a estratégia eleitoral de um candidato, seja porque o próprio candidato ou candidata não tem uma inserção religiosa reconhecível, mas quer alcançar um eleitorado que se sabe mobilizado". A segunda é identitária: para lideranças e candidatos que vêm do campo religioso, usar esse repertório é uma forma de "construir uma identificação religiosa, uma identificação política com pessoas religiosas, algo menos calculado e mais ligado à própria trajetória pessoal", explica ele.

Dullo chama atenção para uma mudança recente nesse repertório: a ascensão de um discurso que descreve o cristianismo não como filiação a uma igreja, mas como "estilo de vida". "Eu não preciso ser necessariamente alguém que frequenta, que é batizado na Assembleia de Deus, na Universal, na Quadrangular, porque eu sou cristão e o cristianismo é um estilo de vida que eu sigo", resume, ao explicar porque essa formulação mais fluída funciona bem nas redes sociais: ela permite marcar pertencimento sem carregar o desgaste de estar associado a uma denominação ou a uma liderança específica. É também esse discurso, segundo ele, que alimenta candidaturas que se apresentam como "nem de direita, nem de esquerda", capturando parte de um eleitorado cansado, depois de mais de uma década de polarização e de tanta briga política.

Para Dullo, é justamente aí que mora a eficácia eleitoral desse tipo de discurso; ele funciona como uma credencial moral que dispensa o debate sobre propostas concretas.

"Na medida em que você se coloca como alguém que é justo, que é bom, que é correto, que são as suas características ético-morais, você está dando para esse eleitor [a mensagem de que] eu posso te representar, porque eu sou justo, bom, correto, tal como você espera que as pessoas sejam dentro do seu padrão ético-moral, político-moral. Então eu estou me colocando como alguém que merece o seu voto", afirma.

Religião não causa a polarização, mas participa dela

Um ponto em que os dois pesquisadores convergem é a recusa em tratar a religião como origem da polarização brasileira. Para Burity, ela é um ingrediente de uma crise mais profunda, que ele situa a partir do período do impeachment de Dilma Rousseff: "O que a gente tem no contexto mais imediato do Brasil [...] é uma crescente mobilização de setores conservadores na sociedade brasileira, inclusive em conexão com processos internacionais".

Segundo ele, esse campo passou a atribuir à esquerda a responsabilidade por mudanças nos costumes (nas relações de gênero, na diversidade sexual, no reconhecimento de culturas de matriz africana e indígena) apresentadas como ameaça a uma suposta harmonia social. "A religião tem entrado nesse discurso todo como sendo a matriz da nação", diz, destacando que o cristianismo, sobretudo o catolicismo, é mobilizado como fundamento histórico e cultural do país, com os evangélicos "pegando carona" nesse reconhecimento simbólico mais antigo.

Burity resume essa mesma ideia de forma direta, ao ser questionado sobre o papel da religião no processo eleitoral, ao dizer que "a religião não é um elemento estranho nem à história política brasileira, nem à cultura brasileira, e, portanto, ela não pode ser singularizada como a responsável pela polarização, mas ela é, sim, um ingrediente desse processo, dessa crise de hegemonia que a gente vivencia na política brasileira, desde, pelo menos, o episódio do impeachment de Dilma Rousseff".

Dullo chega a uma conclusão parecida por outro caminho: para ele, o que se intensificou nos últimos anos foi um processo de moralização crescente da política, em que "as pautas morais se tornam cada vez mais importantes", enquanto discussões sobre economia e políticas de Estado perdem espaço no debate público. Nesse cenário, as religiões funcionam como uma fonte privilegiada de justificativas morais, não porque sejam a causa do antagonismo, mas porque oferecem, para uma parte significativa da população, uma interpretação de mundo e uma norma ética prontas para justificar posições políticas. Ele cita o ex-presidente Jair Bolsonaro como exemplo: só passou a adotar pautas morais de forma central por volta de 2014/2016, depois de duas décadas como deputado sem tocar no tema, e foi esse deslocamento estratégico que impulsionou sua ascensão política a partir de 2018.

Dullo é ainda mais direto sobre o que essa mudança deslocou do centro do debate público: "O que a gente sempre chamou de política – política educacional, política econômica, política de Estado – foi perdendo espaço à medida que as pautas morais foram ganhando espaço. Então, nesse sentido, o que a gente tem observado de 2013 para cá é um processo de crescente moralização da política. E, nesse processo, as religiões são uma fonte privilegiada de oferecimento de justificativas morais e de prescrições morais. Então elas acabam tendo uma grande importância para parte significativa da população".

O limite da laicidade

Questionados sobre como garantir a laicidade do Estado em um cenário em que a validação religiosa se tornou quase indispensável para os candidatos, Dullo e Burity discordam já na formulação do problema. Dullo contesta a própria pergunta: para ele, é preciso separar dois fenômenos distintos: a criação de vínculos institucionais formais entre o Estado e uma religião específica, que de fato fere a laicidade, e a simples influência de valores religiosos na decisão de voto de eleitores ou no discurso de candidatos, que ele não trata como o mesmo problema.

O antropólogo nota, além disso, um viés na forma como o debate público enquadra a questão: a atuação política da Igreja Católica nunca foi tratada como ameaça à laicidade ao longo do século XX, e o "problema" só passou a ser nomeado quando evangélicos (e mais recentemente católicos conservadores) começaram a ocupar esse espaço. "Dizer que essas pessoas, que um quarto da população vota – obviamente os evangélicos não votam todos do mesmo jeito –, mas vamos dizer que um quarto da população, por ser evangélica, é uma ameaça à laicidade, é um problema muito grande", argumenta, defendendo que o que está em jogo, no fundo, é uma disputa entre posições político-morais antagônicas, e não entre religião e ausência de religião.

Burity, por sua vez, aponta um episódio concreto como sinal de que um limite já foi ultrapassado: a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que autorizou o ensino confessional em escolas públicas. Para ele, há uma diferença clara entre ensinar religiões (como conteúdo histórico, sociológico ou filosófico) e permitir um ensino conduzido por representantes de uma fé com o objetivo de converter alunos. "Aí a gente cruzou um limite em que a laicidade foi violada", afirma.

É justamente esse o território em que se movimenta a proposta de parcerias com instituições "confessionais" na Educação Básica presente em um dos planos de governo analisados: uma zona cinzenta entre a liberdade de escolha das famílias e o risco de o Estado passar a financiar, ainda que indiretamente, a educação religiosa. Ao mesmo tempo, o pesquisador defende que a presença de discurso religioso no espaço público não é, em si, ilegítimo, mas o limite está em usar o poder do Estado para impor a posição de um grupo religioso, ainda que majoritário, sobre o restante da sociedade.

O que fica para 2026

Enquanto o país segue dividido nas pesquisas, com margens apertadas entre os principais candidatos desde pelo menos 2014, a religião continua sendo tratada como atalho de confiança diante do eleitorado. Mas, como sugerem os dois pesquisadores, ela não decide sozinha uma eleição presidencial.

Essa disputa convive com renda, região, memória política e, cada vez mais, com um debate moral que atravessa também o campo religioso, colocando conservadores e progressistas em lados opostos. O que muda, talvez, é o palco: enquanto os planos de governo formais evitam o tema, é nas redes sociais (onde circula boa parte do eleitorado brasileiro) que essa disputa pela fé e pelo voto continua sendo travada todos os dias.

Uso de IA e coleta de dados

A construção dessa reportagem tomou como ponto de partida a coleta dos planos de governo registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Isso garantiu a igualdade e preservou a isonomia de informações prestadas pelos candidatos. A pesquisa e a análise inicial desses dados contaram com o auxílio da inteligência artificial (IA), sendo utilizado o software Claude no modelo Sonnet 5. Foram pesquisados os termos "religião", "fé", "confessional" a fim de mapear e categorizar as propostas relacionadas à religião e à fé, temática discutida neste material jornalístico.

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