A contrademocracia religiosa: o tribunal da fé e a eleição do medo. Artigo de Nelson Lellis

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Contra a guerra injusta e injustificada com o Irã. Editorial da revista jesuíta America

    LER MAIS
  • RS registra 80 feminicídios em 2025; maioria das vítimas foi morta dentro de casa

    LER MAIS
  • Os resultados da guerra com o Irã "podem ser piores" do que os do Iraque, afirma Mary Ellen O'Connell, professora da Faculdade de Direito de Notre Dame - EUA

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

04 Março 2026

"Para sobreviver a essa hipermoralização em 2026, o PT tenta reconfigurar o que é moral. O discurso buscará traduzir o combate à fome e a justiça social como a verdadeira práxis cristã, tentando disputar o tribunal da opinião pública religiosa e provar que a sua gestão possui sensibilidade às dores reais (econômicas) do povo", escreve Nelson Lellis, doutor em Sociologia Política pela Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. Bolsista de pós-doutorado em Políticas Sociais (UENF).

Eis o artigo.

O Brasil caminha para 2026 sob a égide de um paradoxo que a ciência política tradicional custa a digerir: a consolidação do ideal democrático como horizonte único coexistindo com uma erosão da credibilidade institucional. Não estamos diante de uma simples fadiga de material ou da apatia cívica costumeira; o pleito que se avizinha representa o ápice da era da desconfiança. Para decifrar esse cenário, recorro à lente de Pierre Rosanvallon e sua teoria da contrademocracia - uma segunda dimensão do sistema político que opera não para destruir a democracia, mas para compensar a entropia das urnas por meio da desconfiança organizada.

Enquanto a legitimidade conferida pelo voto é de ordem puramente jurídica e processual, a confiança é o que o economista Kenneth Arrow define como a instituição invisível: o lubrificante moral que simplifica as relações entre representantes e representados. Na ausência desse capital moral, a soberania popular transmuta-se em um exercício permanente de crítica. Em 2026, essa desconfiança encontrará no vetor religioso não apenas um apoio, mas um motor estrutural decisivo, capaz de converter convicções de fé na gramática política que ditará o ritmo da soberania crítica. Busco organizar abaixo alguns pontos oferecidos por Rosanvallon para entender a desconfiança na gramática política.

Primeiramente, entendo ser relevante trazer os dados de três institutos de pesquisa (AtlasIntel, Paraná e Quaest) que informam o declínio da vantagem de Lula. Os institutos apontam cenário de polarização acirrada nos dois turnos entre o atual presidente e Flávio Bolsonaro. Esse movimento de transferência de capital político de Jair Messias Bolsonaro para o filho foi rápido e assimilado pelas bases conservadoras (importante destacar que a percepção de “erro” nessa escolha caiu 12 pontos em dois meses na Quaest).

Por outro lado, a eleição de 2026 parece que não será decidida pelo teto de aprovação, mas pelo piso de rejeição. Com índices de rejeição superando os 50% (Quaest: Flávio 55%; Lula 54%) e o medo atuando como principal vetor de mobilização (AtlasIntel: 47,5% temem reeleição; 44,9% temem eleição de Flávio), a eleição se consolida como um exercício puramente negativo. O eleitor vota para interditar a ameaça representada pelo adversário. Por isso, certamente, candidatos que tentam escapar da polarização moral e focar em projetos de gestão ou na “dimensão cognitiva”, estão asfixiados na casa dos 7 a 8% no 1º turno (como Ratinho Jr.). A distância de mais de 20 pontos para os líderes comprova que o eleitorado não está engajado na construção de um futuro comum, mas no bloqueio do inimigo imediato.

Pensando nisso, a contrademocracia apresenta algumas características que nos ajudam a interpretar o cenário brasileiro atual. A primeira característica é o de “povo-vigia”, onde a vigilância social atua como um corretor ininterrupto das distorções da representação. Em 2026, as lideranças e bases religiosas – possivelmente – assumirão o papel de guardiãs desse “Estado-vigia”, operando sob a lógica que os cientistas políticos McCubbins e Schwartz batizaram de “alarme de incêndio”: uma supervisão descentralizada e difusa, pronta para soar ao menor sinal de fumaça em pautas axiológicas. Essa atuação se desdobrará em três modalidades fundamentais, refinadas pela vigilância contrademocrática. A primeira delas é a vigilância/fiscalização. Inspirada na não batalha, esta modalidade não busca o confronto direto imediato, mas molda o comportamento dos candidatos através da observação minuciosa de pautas de costumes e alianças. O político é forçado à retidão pela consciência de estar sob um panóptico social constante. A segunda, a denúncia. A utilização do escândalo e da publicidade como instrumentos de regeneração moral. Aqui, o eleitor religioso emula o papel histórico dos muckrakers americanos, utilizando a “literatura de exposição” para higienizar o campo político e expor o que as congregações identificam como desvios éticos inaceitáveis. Por fim, a notação. A aplicação de provas de reputação. Assim como agências de rating testam a saúde financeira, as bases religiosas aplicarão auditorias morais. Uma nota baixa diante das congregações (a percepção de que o candidato não é “um dos nossos” em valores) será um estigma eleitoral mais letal do que qualquer propaganda adversária.

A família Bolsonaro e seus aliados no Legislativo atuam como os operadores centrais dessa vigilância. Eles utilizam as redes sociais como essa “literatura de exposição”. O objetivo é acionar o alarme de incêndio religioso ao pinçar falas de ministros de Lula, projetos de lei ou resoluções governamentais (sobre aborto, linguagem neutra, regulação de mídia) para provar às congregações que o governo atual falha na prova de reputação moral. Enquanto isso, o governo tenta governar no “Estado-vigia” esquivando-se da não batalha moral. A estratégia seria tentar deslocar a fiscalização do eleitor para a entrega econômica (austeridade, emprego, renda). No entanto, a notação religiosa é implacável: mesmo com indicadores econômicos positivos, se o governo receber uma nota baixa no escrutínio moral descentralizado das bases religiosas, o estigma eleitoral se sobrepõe à aprovação técnica.

A segunda característica é o “povo-veto”. A política brasileira mergulhou na crise da democracia de projeto. Diante da dificuldade estrutural de forjar maiorias em torno de propostas afirmativas de futuro, o poder desloca-se para a democracia de rejeição. Em 2026, o voto religioso funcionará como o principal mecanismo de interdição. Diferente da faculdade de impedir aristocrática de Montesquieu, o veto popular atual é disseminado e unívoco. O eleitor religioso assume a postura do dissidente, na linhagem de um Thoreau ou Soljenítsin, enxergando em seu voto negativo a proteção do corpo social contra ameaças dogmáticas.

Nesse quadro, a campanha da direita não deverá focar primariamente em um plano de governo tecnocrático, mas na mobilização do veto contra o que consideram a degradação moral e ideológica promovida pela esquerda. O eleitor vota na família Bolsonaro (ou em seu candidato ungido) para interditar o avanço progressista, assumindo a postura do corpo social que se protege de uma ameaça existencial. Curiosamente, Lula também se apoia na democracia de rejeição. Sua vitória em 2022 e sua provável plataforma para 2026 dependem de mobilizar o “povo-veto” contra o retorno da extrema-direita e as ameaças às instituições (com o 8 de janeiro como pano de fundo). A eleição corre o risco de ser um choque de vetos, onde a abstenção ou o voto útil são ditados puramente pela recusa ao inimigo comum.

Em terceiro, o “povo-juiz”. A sensação de que o sistema representativo é surdo às expectativas populares faz emergir a democracia de imputação. Nela, o cidadão assume a toga de juiz para exigir punição ética e resultados tangíveis. O campo religioso é magistral em traduzir conflitos administrativos complexos para a linguagem binária do tribunal moral: a disputa entre o “puro” e o “corrupto”, o pecado e a redenção. Nesse cenário, o conceito de Responsiveness (sensibilidade às expectativas morais) atropela a Accountability (justificativa técnica). Para o eleitorado religioso, a sensibilidade do político aos seus valores não é apenas uma preferência, mas um mandato divino. A eleição de 2026 será, portanto, um ritual de “purificação ética”. O candidato não será apenas testado em sua competência, mas submetido a um interrogatório constante diante do tribunal da opinião pública e das congregações, onde a absolvição exige a prova de uma retidão que transcende a esfera pública.

Trazendo essa leitura para os dois principais candidatos... não seria exagero afirmar que a família Bolsonaro domina a linguagem da Responsiveness religiosa. Mesmo diante de questionamentos jurídicos formais (inelegibilidade, inquéritos no STF), eles mantêm a lealdade da base porque respondem às expectativas morais (orações públicas, alianças com pastores, retórica pró-família). No tribunal binário do “puro x corrupto”, eles se autodeclaram perseguidos pelo sistema, e a congregação frequentemente concede a absolvição porque a retidão axiológica transcende as falhas administrativas ou legais. Já do lado petista, o atual presidente carrega as cicatrizes do “povo-juiz exacerbado” (que é a sombra da Lava-Jato). Para sobreviver a essa hipermoralização em 2026, o PT tenta reconfigurar o que é moral. O discurso buscará traduzir o combate à fome e a justiça social como a verdadeira práxis cristã, tentando disputar o tribunal da opinião pública religiosa e provar que a sua gestão possui sensibilidade às dores reais (econômicas) do povo.

Enfim...

Se em 2026 o discurso religioso for instrumentalizado para ignorar a prestação de contas técnica em favor de uma sensibilidade moral absoluta, corremos o risco de converter a desconfiança saudável em veneno sistêmico através de três degenerações:

a) a conversão da vigilância em estigmatização compulsiva, tratando governantes como inimigos ontológicos do povo;

b) a mutação do impedimento em violência resignada, uma força cega que busca apenas o bloqueio total da governabilidade;

c) a transformação do “povo-juiz” em um teatro de crueldade, onde a sanha punitiva absorve toda a atividade política, buscando a criminalização da própria política.

Leia mais