“As energias renováveis resolverão algumas crises, mas provocarão outras”. Entrevista com Amitav Ghosh

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17 Setembro 2026

Não é a primeira vez que o escritor indiano Amitav Ghosh se preocupa com a crise ecológica. Há mais de duas décadas, publicou A maré faminta, um romance ambientado nos Sundarbans, a imensa floresta de manguezais compartilhada pela Índia e Bangladesh, onde já explorava a fragilidade dos ecossistemas e o desaparecimento progressivo da biodiversidade.

A entrevista é de David Valiente, publicada por Librújula, 08-09-2026.

No entanto, a realidade acabou superando a ficção. Uma sucessão de fenômenos meteorológicos extremos, como ciclones, inundações e tempestades cada vez mais devastadoras, despertou nele a necessidade de compreender por que as crises climáticas avançam com intensidade crescente e por que as sociedades contemporâneas parecem incapazes de responder a elas com a urgência que exigem.

Dessa inquietação nasceu O grande desatino. O autor pergunta por que a literatura, a política e as ciências sociais foram incapazes de incorporar o aquecimento global ao centro de suas narrativas e reflete sobre as limitações de um modelo econômico baseado no crescimento permanente, na extração de recursos e na ilusão de que a natureza pode ser dominada indefinidamente.

Eis a entrevista.

O senhor testemunhou em primeira pessoa a catástrofe gerada pelo tsunami do oceano Índico, em 2004. Como se recorda desse acontecimento, vinte e dois anos depois?

Acordei numa manhã de dezembro com a notícia de que um tsunami de proporções descomunais havia atingido o litoral de vários países banhados pelo Oceano Índico. A catástrofe me causou profunda inquietação porque, embora eu já tivesse vivido ciclones em minha Bengala natal, jamais poderia imaginar um desastre de tal magnitude. Senti a necessidade de viajar até a região e verificar com meus próprios olhos o grau de destruição.

Visitei as Ilhas Andamão, próximas ao epicentro, que também sofreram os estragos da grande onda. Fiquei impressionado ao constatar o nível de devastação: os sobreviventes sofriam pela perda de seus familiares. Diferentemente de um ciclone ou de um terremoto, os tsunamis quase não dão tempo para reagir. Os sobreviventes perderam até mesmo coisas muito básicas e essenciais, como seus documentos de identidade. Muitas pessoas ficaram sem os direitos oferecidos pelos Estados e se tornaram refugiadas dentro de seu próprio país.

Mesmo vinte anos depois, uma parcela significativa dessas pessoas continua estabelecida no norte da ilha e vive em campos de refugiados. Os governos não apenas deixaram de ampará-las, mas também aproveitaram a destruição para erguer, sobre os escombros, complexos hoteleiros, aeroportos, bases militares e outras infraestruturas.

Os seres humanos deixaram de compreender a linguagem da natureza?

Não acredito. Se fizermos uma comparação demográfica entre aqueles que vivem nas cidades e os que vivem nas zonas rurais, estes últimos ainda são a maioria. Eles desenvolvem atividades econômicas que os mantêm em contato com os ecossistemas e ainda são capazes de compreender sua linguagem.

Na Índia, por exemplo, o trabalho agrícola ainda é muito difundido. Na realidade, as pessoas desvinculadas do meio natural são uma minoria, e boa parte delas vive no Ocidente, embora também haja, no Sul Global, quem viva em grandes cidades.

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O senhor afirma em seu ensaio: “A experiência histórica da Ásia demonstra que nosso planeta não permitirá que todos os seres humanos adotem esse modelo (capitalista de consumo). Não é possível que todas as famílias do mundo tenham dois carros, uma máquina de lavar e uma geladeira”.

Na Índia, uma boa parte da população não tem acesso a essas coisas, mas sonha em possuir uma geladeira ou uma televisão. As redes sociais alimentaram esses desejos, e hoje quase ninguém está imune a eles.

Em minhas viagens pela Índia e por outros países do Sul Global, frequentemente pergunto às pessoas se estariam dispostas a reduzir sua pegada de carbono. Sua resposta costuma ser outra pergunta: “Por que somos nós que deveríamos fazer isso? Que façam no Ocidente. Eles já enriqueceram e, nesse processo, contribuíram para gerar a atual situação de instabilidade climática e ambiental”.

Há um século, Mahatma Gandhi advertiu os indianos de que, se o país adotasse o modelo de crescimento ocidental, o mundo acabaria se transformando em um campo de trigo devorado por uma praga de gafanhotos.

Se aceitarmos que o atraso no desenvolvimento de muitos países foi imposto e que a mobilização de suas economias para alcançar as antigas potências coloniais contribuiu para intensificar a crise climática, como deveria ser repensada a noção de responsabilidade climática entre o Norte e o Sul Global?

A justiça climática é uma das questões centrais desse problema. Nem todo mundo possui o mesmo grau de responsabilidade. Sem dúvida, os países ricos são os principais responsáveis e, se alguém deve pagar reparações, deveriam ser eles. Não estou dizendo nada que já não seja conhecido.

No entanto, assim como ocorre com tantas outras formas de justiça, deixaram claro que não estão dispostos a reparar os danos causados. Os Estados Unidos expressaram claramente sua recusa, e os países europeus, embora com um tom mais moderado, alinharam-se à posição estadunidense. Também não parecem dispostos a apoiar uma verdadeira justiça climática.

A que se deve essa recusa?

As elites dos países ricos acreditam que os efeitos da crise climática nunca as afetarão ou, pelo menos, não tanto quanto as sociedades do Sul Global. Evidentemente, estão equivocadas. Elas também sofrerão as consequências, talvez de maneira mais intensa do que imaginam.

A ideia de que um PIB elevado protege contra desastres é uma forma equivocada de compreender a realidade climática. Vivemos numa época em que depositamos enorme confiança nos números, mas os números, por si só, não são mágicos.

Quando a pandemia de coronavírus irrompeu, a Organização Mundial da Saúde elaborou uma lista dos países que supostamente estavam mais bem preparados para enfrentar uma crise daquelas características. No entanto, a realidade mostrou que os Estados Unidos e vários países europeus foram mais vulneráveis do que muitos esperavam, enquanto alguns países africanos resistiram melhor ao impacto.

Isso demonstra que as sociedades ocidentais não estão isoladas do desastre. Não faz muito tempo, eu estava numa aldeia do interior da França, onde quase não havia comércio. Para adquirir os produtos mais básicos, seus habitantes precisavam se deslocar de carro. O que acontecerá se, devido a uma crise energética ou ao encarecimento do petróleo, o preço dos combustíveis atingir níveis insustentáveis para seus orçamentos?

O senhor mostra que as tradições filosóficas e culturais asiáticas atribuem maior importância ao papel da natureza na condição humana. Pelo que posso entender, isso não mudou a consciência das sociedades asiáticas atuais.

No Japão, na Coreia e na China, o pensamento tradicional estabelece uma estreita identificação entre a natureza e a humanidade. Esses países desenvolveram modelos econômicos nos quais os processos extrativistas ocupavam um lugar mais secundário. No entanto, nos anos 1990, esse modelo entrou em declínio e, atualmente, a extração de recursos também ocupa um lugar central em suas políticas econômicas.

Contudo, isso não aconteceu apenas na Ásia. A África e a América Latina também adotaram o modelo globalizador. Após o fim da Guerra Fria, a potência vencedora, os Estados Unidos, difundiu seus princípios por meio do Consenso de Washington. Na prática, isso implicava que todos os cidadãos do mundo almejassem viver como um estadunidense.

Historicamente, energias como o carvão ou o petróleo não apenas impulsionaram a economia, mas também determinadas formas de poder. O senhor acredita que estamos entrando numa nova fase em que outras matérias-primas ou tecnologias, por exemplo, minerais críticos ou energias renováveis, irão reconfigurar esse mapa de poder?

A guerra com o Irã está fazendo com que muitas sociedades tomem consciência do perigo de depender exclusivamente dos combustíveis fósseis. Antes mesmo do início do conflito, já existiam movimentos que promoviam uma maior conscientização sobre a necessidade de fomentar energias renováveis.

Agora, cada vez mais países desejam alcançar a independência energética por meio delas, sem estarem plenamente conscientes de que a China demonstrou habilidade especial para garantir uma posição dominante em praticamente todos os elos da cadeia global de abastecimento das energias renováveis. Isso significa que, mesmo por essa via, a independência energética jamais será completa.

Por outro lado, muitas vezes esquecemos que a fabricação dos dispositivos necessários para gerar energia limpa requer materiais cuja extração depende de atividades de mineração muito prejudiciais ao meio ambiente. Portanto, as energias renováveis provavelmente ajudarão a resolver algumas crises, mas também provocarão outras.

Os desafios climáticos exigem unidade para serem enfrentados. Nem um Estado nem uma sociedade, isoladamente, serão capazes de atenuar as crises ambientais. O que poderíamos fazer para construir uma consciência comum?

Nossas sociedades mergulharam em um processo crescente de automatização. São cada vez mais individualistas e mais afetadas pela polarização. Hoje, as pessoas se relacionam com o mundo ao seu redor de maneira muito diferente daquela de apenas algumas décadas atrás.

Os jovens, por exemplo, desenvolveram uma forte dependência das tecnologias digitais. É difícil encontrar um que acredite que exista vida além de seu telefone celular. Nesse contexto, fica complicado estabelecer um roteiro para restaurar uma consciência coletiva.

Talvez as redes sociais possam ajudar nessa tarefa.

Sim, talvez. Os ativistas as utilizam para denunciar problemas, organizar campanhas e divulgar avanços. No entanto, em termos gerais, as redes sociais também são um poderoso amplificador da desinformação e do negacionismo climático.

Penso que seu impacto tende a ser mais disruptivo do que agregador. Além disso, as plataformas mais influentes são administradas por bilionários que possuem uma visão muito específica do mundo e da direção que ele deveria tomar.

O que escritores e intelectuais comprometidos podem fazer para mudar essa situação?

Os escritores têm pouco poder numa sociedade que venera a ciência. Mas nem mesmo os cientistas, que há décadas investigam essa questão e assessoram governos de todo o mundo, têm a capacidade de influenciar de maneira decisiva ou de gerar um grande impacto.

No entanto, acredito que podemos imaginar algo diferente: outra forma de habitar o mundo e de enfrentar seus problemas. É isso que espero alcançar com meu trabalho literário.

Terá algum efeito? Não posso lhe dar uma resposta definitiva. O que posso dizer é que conheci jovens ativistas que começaram a se mobilizar diante da crise climática, depois de lerem meus livros.

Passaram-se nove anos desde a publicação do livro. Ainda nos resta espaço para o otimismo, sem cair no delírio? O senhor se considera hoje mais ou menos otimista?

Gostaria de ser mais otimista, embora seja complicado. Todos os sinais indicam que o modelo está se tornando cada vez mais destrutivo. Além disso, agora incorporamos uma nova variável: a guerra, provavelmente a atividade humana com maior impacto em termos de emissões de carbono.

Nos países europeus, o discurso climático perdeu força nos últimos cinco anos. Antes se falava abertamente em construir uma legislação climática ambiciosa; agora discutimos de que maneira os Estados vão se rearmar.

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