01 Setembro 2026
Os primeiros estudos científicos sobre a relação entre as emissões de CO₂ e o aquecimento global remontam à década de 1820 e multiplicaram-se desde então. No entanto, ainda faltam respostas à altura do desafio.
A reportagem é de Léa Guedj, publicada por Reporterre, 31-08-2026. A tradução é do Cepat.
O verão escaldante que se abateu sobre a Europa, assim como o deslizamento de terra que devastou populações no Nepal, foram catastróficos. Mas será que foram realmente surpreendentes? As mudanças climáticas e o efeito estufa causado pela ação humana que as impulsiona são objeto de pesquisa científica há muito tempo. Durante dois séculos, os conhecimentos e os alertas se acumularam, sem uma resposta à altura dos desafios. O que estamos vivendo agora é a concretização daquilo que foi previsto tantas vezes e, com tanta frequência, ignorado.
Século XIX: a descoberta do efeito estufa
O efeito estufa, causado pelo acúmulo de CO₂, foi identificado já no início do século XIX. O físico francês Joseph Fourier, na década de 1820, e posteriormente a sufragista estadunidense Eunice Newton Foote, observaram que “uma atmosfera composta desse gás poderia dar à nossa Terra uma temperatura elevada”. Seus trabalhos foram posteriormente esquecidos.
Em 1861, o físico irlandês John Tyndall levantou a hipótese de que o “ácido carbônico” poderia ter “produzido todas as mudanças climáticas reveladas pelas pesquisas dos geólogos”. Mais de 30 anos depois, em 1896, o químico sueco Svante August Arrhenius criou o primeiro modelo prevendo o aquecimento global. Ele estimou que dobrar a quantidade de CO₂ na atmosfera levaria a um aumento da temperatura global de aproximadamente 5°C.
No entanto, ele acreditava na época que esse processo seria muito lento, levando milhares de anos. Ele não mencionou o efeito das atividades humanas, particularmente o efeito da queima de combustíveis fósseis. E saudou a perspectiva de “vivenciar séculos de climas mais amenos e favoráveis, especialmente nas regiões mais frias”.
1928: o alerta precoce de um autor sueco
As pesquisas de Arrhenius foram citadas como um alerta em um breve artigo publicado em 1902 no jornal estadunidense The News Herald, dirigido aos “consumidores de carvão”. Foram descritas como uma “teoria sobre a extinção da humanidade”: “Segundo ele, a queima de carvão pelo homem civilizado aquece gradualmente a atmosfera, de modo que, dentro de alguns ciclos de 10.000 anos, a Terra atingirá uma temperatura próxima ao seu ponto de ebulição”.
O assunto voltou à tona na imprensa em 1912. Uma breve notícia em um jornal diário da Nova Zelândia afirmava que a queima de “2 bilhões de toneladas de carvão por ano [...] libera quase 7 bilhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera”, o que contribui para “o aumento da temperatura da Terra”.
Em 1928, Ivar Lo-Johansson, um escritor sueco de literatura operária, por sua vez, soou o alarme em seu livro O carvão e a violência. “Provavelmente veríamos o mercúrio nos nossos termômetros subir a uma taxa alarmante”, alertou, referindo-se ao “desconforto que sofreríamos por conta das mudanças climáticas radicais”.
1938: os combustíveis fósseis na mira
Em 1938, Guy Stewart Callendar, engenheiro de máquinas a vapor e meteorologista amador, mediu um aquecimento global de aproximadamente 0,3°C nos 50 anos precedentes, que ele atribuiu em grande parte ao acúmulo de CO₂ na atmosfera, devido principalmente à queima de combustíveis fósseis. Ele concluiu que esse aumento de temperatura poderia “ser benéfico para a humanidade”, pois forneceria “calor e energia” e promoveria a agricultura no Norte.
Em 1956, o pesquisador canadense Gilbert Plass fez referência ao trabalho de Callendar. Mas ele não ficou satisfeito. Identificou “um sério problema para as gerações futuras”. “Os cálculos mais recentes mostram que, se o teor de dióxido de carbono na atmosfera dobrasse, a temperatura na superfície da Terra aumentaria 3,6°C”, explicou.
Outros cientistas também abordaram o assunto, como o oceanógrafo Roger Revelle. Ele expressou preocupação perante o Congresso dos EUA em 1957 de que a Califórnia e o Texas acabariam se tornando “verdadeiros desertos” devido à queima de petróleo, gás e carvão.
1958: as primeiras medições de CO₂ em Mauna Loa
Naquele mesmo ano, o geoquímico estadunidense Charles David Keeling fundou o Observatório Mauna Loa na ilha havaiana – ameaçado por cortes orçamentários de Donald Trump em 2025 –, cujas medições de CO₂ atmosférico permanecem uma referência até hoje. Ele modelou uma curva demonstrando que a terra e os oceanos do planeta não são capazes de absorver gás suficiente para compensar as emissões humanas.
De formação científica, o diretor Frank Capra certamente estava ciente dessa pesquisa. Em 1958, ele dirigiu o filme A Deusa Desacorrentada para explicar os efeitos previstos do aquecimento global. Nesse longa-metragem, uma figura conhecida da televisão estadunidense, o professor Frank C. Baxter pinta um quadro catastrófico das convulsões que os humanos poderiam causar devido à “liberação anual de mais de 6 bilhões de toneladas de dióxido de carbono emitidos pelas nossas fábricas e automóveis”. “Foi calculado que um aumento de apenas alguns graus na temperatura da Terra seria suficiente para derreter as calotas polares”, alerta.
1965: um relatório dirigido à Casa Branca
Diante do crescente número de dados científicos, o presidente dos EUA, Lyndon Johnson, incumbiu seu comitê consultivo científico, presidido por Roger Revelle, de elaborar um relatório sobre o assunto em 1965. O documento fazia um alerta ao governo: “Até o ano 2000, o aumento do CO₂ atmosférico será de cerca de 25% [em comparação com o observado no século XIX]. Isso poderia ser suficiente para causar mudanças climáticas mensuráveis, até mesmo significativas”. Na realidade, desde então, a concentração de CO₂ aumentou mais de 30%.
A lista de efeitos esperados já foi elaborada: aumento da temperatura da superfície da Terra, derretimento acelerado da camada de gelo da Antártida, acidificação e elevação do nível do mar. Os cientistas têm defendido “incentivos econômicos”, como a implementação de “impostos específicos direcionados aos poluidores”.
Desta vez, a publicação não caiu em ouvidos moucos. A principal associação comercial da indústria petrolífera, o American Petroleum Institute, chegou a transmitir este alerta aos seus membros. O presidente Johnson, por sua vez, enviou uma carta ao Congresso sobre a “conservação da natureza”, na qual exortava os seus contemporâneos a não serem “indiferentes ao julgamento da história”, enquanto “a tempestade da mudança moderna ameaça devastar e obliterar, em apenas algumas décadas, aquilo que foi prezado e protegido durante gerações”.
1972: o Relatório Meadows
Em 1972, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano foi realizada em Estocolmo. A questão climática entrou na arena internacional. As recomendações do plano de ação dirigido aos governos exigiam mais pesquisas e vigilância em relação ao impacto das atividades humanas sobre o clima. Poucos meses antes, o famoso Relatório Meadows, intitulado Limites do crescimento, havia sido publicado; desde então, tornou-se um best-seller internacional.
Escrito a pedido do Clube de Roma, que reunia cientistas, economistas e industriais, o relatório, no entanto, deu pouco espaço ao conhecimento emergente sobre as mudanças climáticas. Naquela época, o foco era principalmente o esgotamento dos recursos e a poluição em áreas naturais.
No entanto, a nossa compreensão sobre as mudanças climáticas está aumentando. Em uma síntese de O Impacto do Homem no Meio Ambiente Global, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), publicada em 1970, os autores projetaram que “uma duplicação do CO₂ poderia aumentar as temperaturas médias anuais da superfície em 2°C”. Eles permaneceram cautelosos, referindo-se a essas estimativas como “incertas”.
Após esse estudo, o MIT reuniu 30 especialistas internacionais em Estocolmo, durante o verão de 1971, para elaborar o Relatório sobre o Estudo do Impacto do Homem no Clima. “Agora sabemos o suficiente [...] para reconhecer a possibilidade de mudanças climáticas induzidas pelo homem e para ter alguma confiança em nossa capacidade de calcular sua magnitude”, escreveram. Enfatizaram “a crescente urgência de agir antes que forças devastadoras sejam desencadeadas”.
1975: a curva do aquecimento
“Estamos à beira de um aquecimento global acentuado?”, questionou o geoquímico estadunidense Wallace S. Broecker em um estudo de 1975. Nele, ele estabeleceu uma curva da “evolução global da temperatura devido ao CO₂”. Suas previsões se revelaram bem precisas: ele superestimou o aumento da temperatura em 2010 em apenas 0,2°C. “Enquanto o consumo de combustíveis fósseis não for significativamente reduzido, as temperaturas globais continuarão a subir”, concluiu.
Na época, porém, a mídia falava mais sobre um “resfriamento global” ou até mesmo uma iminente “nova era glacial”. De fato, as temperaturas diminuíram ligeiramente no Hemisfério Norte em meados do século XX. Mas, posteriormente, os cientistas associaram esse fenômeno à poluição por aerossóis, bem como a um período de intensa atividade vulcânica.
1979: a primeira conferência internacional sobre o clima
1979 foi um ano crucial na história climática, com a primeira Conferência Mundial do Clima em Genebra, reunindo especialistas de 53 países. Os cientistas concordaram com uma declaração que instava os Estados a desenvolverem urgentemente pesquisas sobre as mudanças climáticas. Quatro meses depois, os líderes do G7 assinaram uma declaração em Tóquio, reconhecendo a necessidade de “desenvolver fontes alternativas de energia”.
O consenso científico está agora firmemente estabelecido: o aumento das emissões de CO₂ levará ao aquecimento global. As simulações dos autores preveem que a duplicação da concentração de CO₂ na atmosfera causaria um aumento geral da temperatura entre 1,5 e 4,5 °C. “Uma política marcada pela passividade pode significar esperar até que seja tarde demais”, escreveram os autores do Relatório Charney, um estudo encomendado pela Casa Branca à Academia Nacional de Ciências dos EUA.
Por volta da mesma época, começou o processo de descrédito daqueles que alertavam sobre o problema. “É tudo um absurdo!”, retorquiu asperamente o Comandante Cousteau ao vulcanólogo Haroun Tazieff no programa de televisão Les dossiers de l'écran, em 1979, quando Tazieff discutia a ligação entre a poluição industrial, o derretimento do gelo e as inundações costeiras. Até mesmo o glaciologista Claude Lorius, figura histórica do alarmismo climático, respondeu com muita cautela no programa. O apresentador, por sua vez, não queria “causar pânico no público”.
1982: a Exxon cria modelos para o aquecimento global
A multinacional petrolífera estadunidense Exxon recebeu alertas sobre os efeitos da queima de combustíveis fósseis no clima já no final da década de 1970, vindos de um especialista técnico sênior da divisão de pesquisa e engenharia da empresa. Em 1982, a multinacional criou um modelo interno de mudanças climáticas que indicava que um aumento nas emissões de CO₂ inevitavelmente causaria o aquecimento global.
A Exxon, assim como outras empresas de combustíveis fósseis, sabia que suas atividades contribuíam para esse fenômeno. Isso era especialmente verdadeiro dada a proliferação de estudos na época, como aponta o resumo de um relatório de 1983 da Academia Nacional de Ciências dos EUA intitulado Mudanças Climáticas. No entanto, a empresa optou por manter a dúvida na tentativa de adiar as medidas de mitigação.
Como demonstrou o pesquisador Christophe Bonneuil, a empresa francesa Total seguiu a mesma trajetória. Já em 1971, a Total Information, sua revista interna, publicou um artigo intitulado “A poluição do ar e o clima”, no qual a queima de combustíveis fósseis é diretamente relacionada ao aquecimento global via emissões de carbono.
Mas, durante as décadas de 1980 e 1990, as principais empresas de combustíveis fósseis concordaram em adotar estratégias contrárias às políticas de regulamentação climática, com o apoio de organizações como o Instituto Americano do Petróleo e a Coalizão Global do Clima.
1990: o primeiro relatório do IPCC
A década de 1980 marcou um ponto de inflexão na conscientização sobre as mudanças climáticas. Em 1985, o astrônomo Carl Sagan alertou o Congresso dos EUA: “Se vocês não cuidarem disso agora, será tarde demais. Estamos deixando problemas extremamente sérios para nossos filhos”. Ele, no entanto, acreditava que “a ideia de que deveríamos parar imediatamente de queimar combustíveis fósseis tem consequências econômicas tão graves que ninguém a levará a sério”. Em 1986, a revista alemã Der Spiegel estampou na capa a seguinte manchete: Catástrofe Climática.
Em 1987, os cientistas franceses Jean Jouzel e Claude Lorius publicaram seu trabalho sobre as perfurações na Antártida, que confirmou formalmente a ligação entre a concentração de CO₂ na atmosfera e a temperatura global. Em uma reportagem da France 3 Paris, em 1989, Jean Jouzel fez sua primeira aparição na televisão francesa. Ele falou sobre o “efeito estufa”, que, segundo ele, “deveria levar a um aquecimento de cerca de 1°C a 1,5°C” no século XXI. “Na minha opinião, ainda não vimos o fim dos verões quentes”, concluiu o jornalista.
A descoberta de Jouzel e Lorius contribuiu para a criação, pela ONU, do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) em 1988. Na primeira página do New York Times, um especialista anunciou que “o aquecimento global começou”. Em seu primeiro relatório, publicado em 1990, o IPCC previu um aquecimento de aproximadamente 2°C a mais até 2025, em comparação com os níveis pré-industriais, caso as tendências atuais continuassem.
“O aquecimento global é inevitável”, estampou o jornal Le Monde. Enquanto isso, o ciclo de compromissos não cumpridos teve início. Da Cúpula do Rio em 1992 ao Protocolo de Kyoto em 1997, passando pela Conferência das Partes (COP) de 1995.
“Desde que os registros meteorológicos começaram, há 150 anos, 1995 foi o ano mais quente já registrado na França”, anunciou o apresentador do telejornal noturno da France 2. Em seguida, foram exibidas imagens de parisienses nadando nas fontes da capital, o anúncio “do Médoc à Bretanha” e explicações sobre o efeito estufa. Esse recorde foi quebrado em quase dois de cada três anos desde então.
2002: “Nossa casa está pegando fogo”
O presidente da República Francesa, Jacques Chirac, proferiu uma frase que entrou para a história na abertura de seu discurso na assembleia plenária da quarta Cúpula da Terra, em Joanesburgo, em setembro de 2002: “Nossa casa está pegando fogo e estamos olhando para o outro lado; não poderemos dizer que não sabíamos”, começou o chefe de Estado, antes de acrescentar: “Cuidado para que o século XXI não se torne, para as futuras gerações, o século de um crime contra a vida”.
Desde então, a temperatura continuou a subir e a janela de oportunidade para agir diminuiu. As marchas climáticas continuaram, os cientistas persistiram em seus alertas e, em 2024, ultrapassamos o limite de aquecimento de 1,5°C.
Quanto a 2026, com suas ondas de calor, secas e incêndios, isso nos lembra que tudo isso já tinha sido previsto. “Quem poderia ter previsto [...] a crise climática?”, Emmanuel Macron ainda se perguntava em 2022, dois séculos depois das primeiras reflexões sobre o assunto.
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