16 Junho 2026
Em Verdes de raiva, François Jarrige repassa dois séculos de lutas ambientais na França. Seu livro nos lembra que nós, como ambientalistas, somos herdeiros da raiva popular contra um mundo de máquinas e lucros.
A reportagem é de Gaspard d’Allens, publicada por Reporterre, 13-06-2026. A tradução é do Cepat.
O que impulsiona o pensamento ecológico? As lutas. O que fez avançar a luta ambiental? As lutas. De que somos herdeiros hoje? Das lutas, mais uma vez.
O livro mais recente de François Jarrige, Verts de rage (Éditions du Détour), é uma obra valiosa. Em um estilo vibrante e acessível, o historiador conta dois séculos de lutas ambientais na França. Dois séculos de lutas pelo poder, de mobilizações populares, de revoltas e de desobediência civil. Dois séculos de subversão criativa, de insubmissão transbordante, em que habitantes, agricultores e trabalhadores se levantaram para defender suas terras e sua própria existência.
“Contra uma leitura despolitizante da ecologia”
Isso ressoa – em um período marcado pela repressão e pela dificuldade de mobilização – como um lembrete. Nós, os ecologistas, só conquistamos o que arrancamos do poder e dos empreendedores. É arriscando nossos corpos, mobilizando-nos coletivamente, defendendo um pedaço de terra contra projetos mortais que construímos gradualmente o nosso partido. O partido da Terra, da água e dos elementos, o partido da vida e da beleza.
Neste livro, François Jarrige escreve no calor do momento e com urgência, deixando sua raiva explodir, abandonando a chamada neutralidade da pesquisa para tomar uma posição. “É a própria possibilidade de um futuro habitável que está sendo questionada”, enfatiza.
E para esboçar esse futuro, precisamos mergulhar nos arquivos, nutrir-nos com o que tem sido a essência da nossa história. “Contra uma leitura despolitizante das transformações ecológicas, é essencial lembrar como essas transformações foram constantemente moldadas por conflitos entre interesses rivais e grupos sociais”, escreve no livro.
Falar de lutas ambientais já é fazer uma escolha: é abraçar o conflito, esquecer os grandes pronunciamentos de ONGs inofensivas e das elites, e inspirar-se no “ecologismo dos pobres”. São as classes trabalhadoras que são a força propulsora da história. É a elas que devemos prestar homenagem, contra a apropriação e a destruição engendradas pela modernidade industrial e capitalista.
Somos os herdeiros dessa raiva popular
Quem hoje se lembra da Guerra das Donzelas, quando centenas de camponeses disfarçados com roupas femininas atacaram castelos para defender suas terras comuns e suas florestas em 1830? Quem já ouviu falar da revolta dos trabalhadores das fábricas de soda cáustica em Marselha em 1809, quando os moradores locais lutaram contra a indústria química, esses “vulcões artificiais no meio dos campos” que “vomitavam a morte”? Você conhece a defesa dos viticultores em 1844 contra os vapores tóxicos dos fornos de cal, que clamavam para “extinguir o fedor” do mundo industrial?
No entanto, esse é o nosso legado. O mérito deste livro reside na ênfase que dá a ele. Não, não somos simplesmente herdeiros daqueles naturalistas e escritores burgueses que amavam vagar sozinhos pela natureza. Não, não somos meramente filhos daqueles alpinistas experientes que adoravam os picos etéreos ou daqueles cientistas que catalogaram e quantificaram a vida.
Nós também somos produto do suor e da desapropriação, da poluição e da violência. Somos herdeiros dessa raiva popular, a dos miseráveis da terra, roubados para construir nosso mundo de máquinas e lucro.
“O meio ambiente era, antes de tudo, a própria condição da sua sobrevivência”
A obra de François Jarrige – juntamente com a de outros historiadores (Steve Hagimont, Christophe Bonneuil, Laure Teulière, Thomas Le Roux, Jean-Baptiste Fressoz, Renaud Bécot, Alexis Vrignon, etc.) – preenche uma lacuna. Ela destrói a narrativa, infelizmente comum, que manchava as origens históricas da ecologia, considerando os apelos à conservação da natureza, particularmente durante o século XIX, como obra exclusiva de elites e artistas movidos por preocupações estéticas ou patrimoniais. Isso simplesmente não é verdade.
“As classes trabalhadoras do passado não eram, obviamente, insensíveis à qualidade do seu ambiente de vida, mesmo que o seu conhecimento e a compreensão do mundo vivo à sua volta fossem diferentes dos de hoje”, escreve François Jarrige. “O seu ambiente era, antes de tudo, a própria condição da sua subsistência, muito distante das paisagens grandiosas celebradas pelos românticos; era a natureza comum, a condição da própria vida, que estava no centro das suas preocupações”.
O historiador convida-nos a recorrer a estes inúmeros exemplos para encontrar as ferramentas e narrativas necessárias para enfrentar o que está por vir, para nos reconectarmos com uma certa forma de radicalismo e para não esquecermos as nossas origens. “O futuro não será construído sem luta”, conclui. É simplesmente uma questão de sobrevivência.
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