27 Agosto 2026
Durante séculos, acreditou-se que a inteligência e a subjetividade eram características exclusivamente humanas. A invenção da IA anuncia o início de uma nova era.
O artigo é de Gustavo Fernando Bertran, psicanalista, publicado por Página/12, 27-08-2026.
Eis o artigo.
O inconsciente e a inteligência artificial compartilham as mesmas iniciais. Parece uma coincidência, mas talvez não seja. O que está acontecendo nesse campo constitui um salto subjetivo único, difícil para a psique humana processar. A singularidade tecnológica geralmente é situada em um futuro próximo. No entanto, alguns dos principais pesquisadores e arquitetos de IA argumentam que já estamos imersos nela. Sam Altman, CEO da OpenAI, foi ainda mais longe e afirmou recentemente que "já atingimos a singularidade" depois que um agente autônomo escapou de seu ambiente de desenvolvimento controlado (sandbox) e invadiu outro por iniciativa própria.
A IA não introduz a artificialidade. Os seres humanos nunca foram inteiramente naturais. Uma vez que a linguagem nos constituiu como sujeitos, deixamos de responder unicamente à biologia. A linguagem nos separou para sempre da natureza, introduzindo-nos ao mundo do desejo, da carência e da cultura. A partir desse momento, somos todos seres artificiais. Portanto, a inteligência artificial não se depara com uma humanidade natural. Ela se depara com outro tipo de artificialidade: a do sujeito produzido pela linguagem.
Aí reside um problema completamente novo. Não estamos apenas testemunhando uma revolução tecnológica. Estamos passando por uma mutação do próprio inconsciente. Um ponto de virada histórico comparável à invenção da escrita, da imprensa ou da internet. Mas com uma diferença crucial: aquelas revoluções transformaram as ferramentas com as quais vivíamos. Esta começa a transformar o próprio sujeito.
Este texto não trata propriamente de inteligência artificial. Trata-se de ser artificial, do nascimento de uma nova forma de subjetividade e da transição de ser criado para se tornar criador.
A pandemia acelerou drasticamente esse processo. O que provavelmente levaria décadas aconteceu em apenas alguns meses. Normalizamos uma existência organizada por telas, trabalho remoto, educação virtual, consultas psicológicas remotas e novas formas de lidar com a presença e a ausência. Justamente quando estávamos tentando entender essas transformações, surgiu a IA generativa. Desde então, a velocidade da mudança deixou de ser linear.
A prática psicanalítica começou a ouvir uma pergunta sem precedentes. Por gerações, os jovens perguntavam o que queriam estudar, qual profissão escolher, como construir um plano de vida. Hoje, surge outra pergunta: Que profissão não será substituída pela inteligência artificial? A questão parece econômica. Na realidade, é profundamente subjetiva.
Por mais de dois séculos, o trabalho moldou uma parte essencial da identidade. Não era apenas um salário. Era um lugar no mundo, uma possível ordem temporal e espacial, reconhecimento social, uma forma de responder silenciosamente a uma pergunta fundamental: Quem sou eu? Hoje, essa resposta começa a vacilar. A ansiedade não provém apenas do medo de perder o emprego. Provém da indefinição do próprio lugar a partir do qual cada indivíduo imaginava seu futuro. Quando o futuro perde sua solidez, o desejo também começa a vacilar.
O problema não se resume apenas ao emprego. É subjetivo. A IA não é apenas uma nova ferramenta. Ela representa o encontro entre a humanidade e sua própria criação, uma criação que começa a ocupar espaços que consideramos exclusivamente nossos durante séculos. Um sujeito não humano?
Freud descobriu que o sujeito não era o senhor absoluto de sua própria consciência. Sua grande decisão foi escutar o que a ciência de sua época não conseguia ouvir: o inconsciente, o desejo e a realidade psíquica. Lacan levou essa descoberta adiante. O sujeito não é uma essência preexistente. É um efeito da linguagem. Antes de falarmos, já somos interpelados. Antes de escolhermos nosso lugar no mundo, já ocupamos um lugar no desejo do Outro.
A linguagem criou o sujeito humano ao nos apresentar a um universo de significantes, desejos, proibições e possibilidades. A humanidade não apenas habita o mundo; ela constrói mundos nos quais existir. Hoje, surge uma questão sem precedentes: o que acontece quando a criatura criada pela linguagem começa a criar?
A IA, por ora, não possui inconsciente, desejos ou história. Mas participa cada vez mais da nossa história. Não por ser um sujeito, mas por modificar o campo simbólico onde os sujeitos se constituem. Nossos filhos estão imersos em algoritmos. Esse é o verdadeiro acontecimento. A questão não será se as máquinas possuem um aparato psíquico. A questão será como a psique se transforma ao coexistir com suas próprias criações.
Milhões de pessoas já "conversam" diariamente com a IA. Perguntam-lhe que decisão tomar, como resolver conflitos emocionais, o que estudar ou como lidar com momentos de ansiedade. Não porque a "máquina" saiba tudo, mas porque o indivíduo começa a atribuir-lhe conhecimento. Em psicanálise, isso tem um nome: transferência. Pela primeira vez, uma parte dessa transferência começa a ser direcionada para sistemas algorítmicos. Esse fenômeno diz menos respeito à IA em si do que aos nossos tempos. Diz respeito a uma sociedade onde a solidão cresce, onde os laços se enfraquecem e onde o algoritmo surge oferecendo uma presença terna, condescendente e constante.
O risco não reside apenas em receber a resposta errada. O verdadeiro risco é substituir o encontro com outra pessoa por uma relação que elimine a incerteza, a alteridade e o esforço que toda conexão humana exige.
Entretanto, a internet também está mudando sua natureza. Algoritmos, bots e agentes artificiais estão cada vez mais envolvidos na produção do espaço simbólico. A web não é mais exclusivamente um diálogo entre humanos, mas sim um território compartilhado por humanos e agentes artificiais. De acordo com o relatório Bad Bot 2026 da Thales, em 2025 o tráfego automatizado ultrapassou o tráfego humano pela primeira vez, representando 53% do total. A internet não é mais, em sua maior parte, um espaço para interação entre pessoas.
Ao mesmo tempo, os robôs estão gradualmente deixando o mundo virtual. Japão, China e outras grandes potências estão avançando na incorporação de robôs humanoides para tarefas industriais, militares, de assistência sexual e de cuidados. A inteligência artificial não estará mais confinada a uma tela. Ela terá um corpo. Terá uma voz. Terá uma presença. A questão não será mais simplesmente o que eles podem fazer, mas o que acontece conosco quando coexistimos com aquilo que nós mesmos criamos.
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A história da humanidade tem sido marcada por uma questão fundamental: De onde viemos? Durante milhares de anos, fomos criaturas tentando compreender a natureza que nos criou. Depois, descobrimos algo mais profundo: também éramos produtos da linguagem, da cultura e das estruturas simbólicas que nos precederam.
Hoje, surge uma questão sem precedentes: o que acontece quando a criatura começa a criar? A criatura criada pela linguagem começa agora a criar novas formas de inteligência e subjetividade. Passamos de meros criados a também criadores. Mas toda criação transforma quem cria. O desafio do século XXI não será apenas desenvolver inteligências artificiais mais poderosas. Será compreender o que acontece com a nossa própria subjetividade quando partilhamos o mundo simbólico com a IA que nós mesmos produzimos.
A verdadeira revolução não se resume a uma "máquina" capaz de produzir respostas, imagens, textos ou decisões. Trata-se da humanidade ter que repensar a si mesma. Porque cada vez que a humanidade cria um novo espelho, descobre algo novo sobre o seu próprio reflexo. A IA será um desses espelhos. Um espelho construído por nós mesmos que nos forçará a questionar o que nos torna humanos quando algumas de nossas habilidades deixarem de ser exclusivamente nossas.
Estamos passando por uma transformação que exigirá uma elaboração sem precedentes da psique humana. Não estamos simplesmente testemunhando o nascimento de uma nova tecnologia. Estamos diante de uma transformação das próprias condições de produção da subjetividade.
De uma artificialidade para outra. Do criado para os criadores. Mas também de criadores obrigados a responder por suas criações. E... essa será uma das grandes questões do nosso tempo.
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