27 Agosto 2026
O livro Nietzsche (Siglo XXI Editores) reúne os manuscritos até agora inéditos de Michel Foucault sobre Friedrich Nietzsche, preservados nos arquivos do Fundo Foucault da Biblioteca Nacional da França. O volume compila quatro conjuntos de documentos: as notas para as aulas de um curso sobre Nietzsche ministrado por Foucault no Centro Universitário Experimental de Vincennes, em 1969-1970, os apontamentos para um curso que o filósofo francês ofereceu na State University of New York, em Buffalo, em 1970, as conferências que o autor proferiu sobre Nietzsche na McGill University, em Montreal, e numerosas fichas que Foucault redigiu sobre o filósofo alemão, desde os anos 1950.
A entrevista é de Luis Diego Fernández, publicada por Clarín-Revista Ñ, 15-08-2026.
Edgardo Castro, um dos maiores especialistas na filosofia foucaultiana na América espanhola e editor da obra de Foucault em espanhol, conversou com a revista Ñ sobre as particularidades desse novo lançamento, bem como sobre as relações de tensão entre as diferentes interpretações do pensador alemão, os diversos usos da filosofia nietzschiana e a recepção de Nietzsche em um presente atravessado por discursos reacionários.
Eis a entrevista.
O livro tem como subtítulo cursos, conferências e trabalhos sobre Nietzsche, mas reúne momentos muito diferentes de Foucault: a primeira metade dos anos 1950, 1969, 1970 e 1971. Como o volume foi organizado?
Há aqui duas etapas na organização do livro. Uma delas é a do editor francês, Bernard Harcourt. Ele tomou como base os cursos de Foucault e, depois, uma série de trabalhos que, na realidade, eram anteriores, pois remontam aos anos 1950. Então, o volume tem essa particularidade, diferente de outros inéditos de Foucault, que é cronologicamente transversal. Não aborda apenas um momento, mas um espectro que vai dos anos 1950 aos anos 1970. No total, são mais de vinte anos. O momento do “epicentro Nietzsche” em Foucault está nos anos 1970. Antes e depois, a situação é diferente.
Em geral, costuma-se dizer, hegemonicamente, que Foucault é um filósofo nietzschiano ou, ao menos, fortemente influenciado por Nietzsche. Até que ponto isso é verdade ou, em vez disso, Foucault utiliza Nietzsche para construir seu próprio programa intelectual?
Penso que é preciso fazer duas observações. A primeira é que Foucault teve um momento nietzschiano muito forte. Como acabei de mencionar, isso ocorre nos anos 1970. Mas, se concluirmos daí que a verdade de Foucault é Nietzsche, cometemos um grande erro. Antes desse período marcadamente nietzschiano, Foucault teve outras influências e outros percursos, e o mesmo acontece depois dele. A meu ver, Foucault inclusive termina em muitos pontos que são antinietzschianos. Por exemplo, toda a visão que ele tem da Antiguidade, algo importantíssimo e que define a filosofia antiga, como a ascese, da qual Nietzsche faz uma avaliação negativa, enquanto Foucault, ao contrário, a valoriza.
Além disso, há outro problema. Quando se diz Nietzsche, de qual Nietzsche estamos falando? O volume contém algo que pode levar a um equívoco. Foucault foi um dos editores da edição crítica de Nietzsche em francês, mas cita A vontade de poder, mesmo sabendo que esse texto não existe na edição crítica. Que Vontade de poder Foucault cita? Não é exatamente a mesma que Heidegger ou outros intelectuais ligados ao nazismo utilizavam. Por quê? Porque a edição com a qual esses autores trabalhavam continha pouco mais de mil fragmentos ou aforismos. E a que Foucault lê tem quase 2.400, organizados de maneira diferente. Ou seja, a A vontade de poder de Foucault é distinta ou ao menos parcialmente distinta.
Portanto, quando se fala de A vontade de poder e do uso que Foucault faz desse texto, tão importante neste volume, é preciso sublinhar, por exemplo, que não se trata exatamente da mesma obra lida por outros autores, ainda que tivesse o mesmo título. Caso contrário, cria-se uma confusão, pois não estamos falando da mesma coisa quando Heidegger fala de A vontade de poder.
O que Foucault resgata de Nietzsche? A dimensão histórica e a problematização da verdade. A partir daí, Foucault elabora desde o início um confronto entre Husserl e Nietzsche, que constitui uma de suas particularidades. É a essa época que remonta aquilo que Foucault, em seus últimos anos, traduziu como “veridicção”, o dizer verdadeiro, e que descobre em Nietzsche muito precocemente.
O que diferencia a interpretação que Foucault faz de Nietzsche de outras duas leituras potentes, como a de Heidegger, que o lê como o último filósofo metafísico, e a de Deleuze, que o toma como um filósofo vitalista e da diferença?
Eu acredito que Foucault propõe uma interpretação distinta. Em primeiro lugar, diferentemente de Heidegger, para ele Nietzsche representa uma ruptura com a tradição metafísica. Está mais próximo da interpretação de Deleuze porque faz uma leitura de Nietzsche relacionada à vida, mas acrescenta uma nuance interessante: a ideia da vida como invenção. Um bom subtítulo para este volume poderia ser: “Nietzsche: como inventamos aquilo que somos?”. Ou seja: “Como nos inventamos?”. Em Foucault, a vida não é simplesmente uma força ou um fluxo, tal como Deleuze lê Nietzsche, mas aquilo que fazemos com o viver.
Mencionou a questão da verdade e da história. Existe, do seu ponto de vista, alguma diferença entre a genealogia nietzschiana e a foucaultiana?
Para mim, sim. Por várias razões, existem diferenças e coincidências. Uma coincidência é justamente a verdade como invenção. Isso não quer dizer que não exista verdade ou que Foucault prescinda da verdade. Porque a afirmação “não existe verdade”, como Aristóteles já demonstrou, é autorrefutante. Ou seja, a formulação “há verdade” é verdadeira ou não? A verdade não é algo absoluto, mas isso não constitui problema algum, porque mesmo nos autores clássicos a verdade pode ser universal sem ser absoluta.
Além disso, a verdade é sempre uma relação. E uma relação absoluta é algo contraditório. Alguém poderia dizer que existem verdades universais. Foucault não concordaria com isso, mas daí afirmar que não existem verdades é um problema diferente. Ao contrário, penso que Foucault é profundamente marcado pelo problema da verdade e que sua filosofia é uma filosofia da verdade, aspecto frequentemente negligenciado quando se exagera a herança nietzschiana.
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Há um conceito central em Foucault, o de diagnóstico, que aparece no livro que era inédito recentemente publicado com o título ‘O discurso filosófico’, no qual Nietzsche desempenha um papel muito importante. Na ideia de filosofia como diagnóstico do presente, que Foucault formula como uma ontologia da atualidade, assim como no papel do jornalismo que ele também destaca, Nietzsche é determinante?
Aqui é preciso fazer alguns esclarecimentos. Em determinado momento, Foucault fala de um diagnóstico sem terapia. Por exemplo, em O discurso filosófico, onde aquilo que diferencia a filosofia do discurso médico e do discurso teológico é que a filosofia realiza um diagnóstico sem propor uma terapia. Trata-se de um trabalho de 1966. Mas acredito que não se pode ignorar o fato de que os últimos trabalhos de Foucault se inscrevem na dimensão da terapia, ou seja, do cuidado.
E aí se vê novamente como Nietzsche o conduz a algo diferente, porque a preocupação dos últimos anos de Foucault, precisamente em relação à verdade, é o problema do cuidado de si. Não se trata de uma terapia médica, nem teológica, mas de uma terapia atravessada pela questão da historicidade. O que quero dizer? Que não existe um modelo imperativo a ser seguido. Existe a necessidade de abordar a questão do cuidado. Então, o diagnóstico depende de como o assumo. Se eu separo completamente o diagnóstico do cuidado, me parece que se deixa de lado uma leitura integral de Foucault.
Parece interessante pensar, ao contrário, nos momentos da ausência de Nietzsche em Foucault. Isso fica evidente quando ele aborda o liberalismo entre 1977 e 1980, período em que não há nenhuma menção a Nietzsche. Por que isso acontece quando ele pensa o problema liberal? Nietzsche já não é mais uma ferramenta. A que isso se deve?
Aqui também são necessários outros esclarecimentos. Houve um momento em que Foucault, como outros autores, renovou a teoria política contemporânea recorrendo ao problema da luta e da guerra. Aqui, seria possível traçar um paralelo com Carl Schmitt. Ambos colocam em discussão, de algum modo, o aparato conceitual hobbesiano. Ou seja, que a política é a superação da guerra. E aí Foucault recorre a Nietzsche. Depois, porém, ele percebe que é preciso pensar a questão do governo. Nesse ponto, Nietzsche já não lhe é útil. Isso ocorre quando passa a se interessar pelo liberalismo.
Penso que aqui há duas ou três coisas que precisam ser ditas. A primeira é que os cursos de Foucault sobre o liberalismo são, estritamente, de 1978 e 1979. O último deles, Nascimento da Biopolítica, termina em março de 1979, e Margaret Thatcher assume o governo em maio daquele ano, depois de Foucault ter encerrado o curso. E Reagan é de 1981. Foucault nunca se refere, nesses cursos sobre o neoliberalismo, a Thatcher nem a Reagan.
Foucault não está falando daquilo que veio cronologicamente depois. Está falando de outro tema. De que está falando? Do problema do liberalismo e do neoliberalismo como formas de racionalidade crítica do exercício do poder, no marco da soberania. Para esse presente, Nietzsche já não lhe serve. Por quê? Porque o problema da luta foi deslocado pelo problema da liberdade como núcleo da questão política.
Agora, pergunto-me se o liberalismo e o neoliberalismo ainda definem o nosso presente. Sei que isso ocorre no nível dos meios de comunicação, mas não estou tão convencido disso. Acredito que vivemos em uma época de pós-liberalismo. Refiro-me, entre outras coisas, à administração de Donald Trump. E aí, mais do que liberalismo e neoliberalismo, vejo um retorno das posições reacionárias.
É possível mencionar um personagem que agora está na moda: Peter Thiel, que sustenta que liberdade e capitalismo são incompatíveis. Então, de que liberalismo estamos falando? Ou posições como a de Curtis Yarvin, que sustentam que seria melhor deixar a democracia de lado e avançar para formas autocráticas, até mesmo monárquicas. O curioso é que essas posições retomam Nietzsche. Foucault, ao contrário, faz um uso moderno de Nietzsche, que podemos confrontar com um uso atual antimoderno de Nietzsche. Essas coisas coexistem em Nietzsche. Não tenho nenhuma dúvida; não é a primeira vez que isso acontece.
Quando Foucault afirma que renuncia à hipótese Nietzsche para pensar o liberalismo, ou seja, que ela já não lhe serve para pensar o problema do governo, isso não significa também que ele modifica seu conceito de poder?
Eu acredito que a categoria de liberalismo, de certo modo, deve ser deixada de lado. Exceto quando utilizada analiticamente, ela gera mais confusão do que outra coisa, porque liberalismo pode significar muitas coisas. A problemática de Foucault está em como faço a vinculação entre liberdade e verdade. Eu penso que há duas histórias do liberalismo. Há um liberalismo econômico e um liberalismo político. Então, a história do liberalismo é escrita de acordo com o que eu enfatizar desses liberalismos.
O constitucionalismo moderno é uma herança do liberalismo político. Ou seja, a afirmação da liberdade e da igualdade. Depois, existe um liberalismo econômico. Se eu reduzo o liberalismo à economia, transformo-o em um sistema de administração que pode associar-se a todas as ideologias, inclusive ao fascismo. Isso não é uma invenção minha. Tive por acaso a oportunidade de encontrar um texto de alguém chamado Massimo Rocca, escrito em 1922. Ele era amigo de Mussolini e fundador, junto com ele, do Partido Fascista. A proposta de Rocca era que o fascismo fizesse, economicamente, uma política liberal.
Eu acredito que há um momento em que o liberalismo econômico e o político se separaram, e esse é o grande problema do neoliberalismo. Penso que a reinterpretação austríaca da história do liberalismo busca desvincular-se do liberalismo político ou reduzir o liberalismo ao máximo à dimensão econômica. Um liberalismo apenas econômico não é um liberalismo completo; é um liberalismo reduzido, que pode camuflar a intencionalidade de efetivar uma política de caráter autocrático.
Sua leitura de Foucault nos anos 1990 foi muito original porque tinha um viés filo-kantiano, algo que praticamente ninguém fazia na Argentina e na América Latina. Acredita que é possível ler a filosofia de Foucault em uma tensão permanente entre Kant e Nietzsche?
Acredito que a tensão Kant-Nietzsche é, de certo modo, constitutiva da filosofia de Foucault. Desde sua tese complementar de doutorado, Foucault interpreta Kant em relação a Nietzsche. As perguntas são sempre as mesmas: de qual Kant estamos falando? De qual Nietzsche estamos falando?
Quais são os textos de Kant que fascinam Foucault? Um deles é o artigo sobre o que é o Iluminismo, texto que, para mim, no contexto das atuais tendências neorreacionárias, adquire ainda mais valor. Assim como é importante delimitar o que Foucault faz com Nietzsche, podemos dizer o mesmo em relação a Kant.
Os últimos trabalhos de Foucault sobre Kant são sobre a questão do Iluminismo. É uma pergunta atual. É a pergunta sobre o que é a modernidade, como nos constituímos como modernos e o que está em jogo nisso: mais uma vez, os problemas da liberdade e da verdade.
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