27 Agosto 2026
"A Bíblia jamais deve ser usada para justificar ações que contradigam a vida, o exemplo e os ensinamentos de Jesus. Opomo-nos a qualquer movimento político que exija lealdade absoluta, ponha em causa os mecanismos de pesos e contrapesos (checks and balances) do Estado democrático, desrespeite o direito internacional ou humanitário, ou trate qualquer ser humano, incluindo migrantes, prisioneiros, civis de nações 'inimigas' ou grupos minoritários, como alguém que não possui plena humanidade."
A reportagem é de Jorge Wemans, publicada por 7Margens, 25-08-2026.
Distinguir "o evangelismo europeu da retórica cristã altamente politizada proveniente dos Estados Unidos" e contrariar os estereótipos que classificam os evangélicos como "perigosos radicais", de "extrema-direita", ou "alinhados com determinados partidos" são os principais objetivos do documento Evangélicos europeus na vida pública: a nossa identidade e a nossa contribuição, afirmou ao 7Margens, Connie Main Duarte, secretária-geral da Aliança Evangélica Europeia (AEE).
Publicado em julho deste ano pela AEE, o documento não pretende encaminhar os membros das várias congregações e igrejas evangélicas para um qualquer partido, ou para uma prática política unitária. Pelo contrário, vê na diversidade um bem: "Os evangélicos possuem uma ampla gama de opiniões políticas. Evangélicos, a título individual, votam em diversos partidos políticos e participam deles. (…) Como quaisquer outros cidadãos, podemos, individual ou coletivamente, querer promover políticas públicas concretas."
A razão de ser de Evangélicos europeus na vida pública: a nossa identidade e a nossa contribuição é repudiar a identificação dos cristãos evangélicos europeus com "qualquer 'nacionalismo cristão' que remeta para domínio, coerção, imposição, intolerância e exclusão", alinhando "o cristianismo com uma única ideologia política ou sob a lógica de que 'os fins justificam os meios', ou, pior ainda quando a fé é capturada por agendas nacionalistas, xenófobas ou militaristas".
Connie Duarte: "a AEE quis proporcionar às 35 alianças nacionais que a constituem uma forma clara, positiva e verdadeira de explicar quem somos, em que acreditamos e como nos relacionamos com a política e a sociedade."
No diálogo mantido por escrito com o 7Margens, Connie Duarte nunca refere explicitamente, como razão principal para essa tomada de posição pública, as correntes evangélicas americanas identificadas com a mega theology mais próxima da 'teologia da prosperidade' (ou 'evangelho da prosperidade'), que aponta a acumulação individual de riqueza e a saúde física como recompensa de Deus aos que são firmes na fé. Contudo, reconhece que o objetivo do documento é "substituir a caricatura pelo diálogo".
Duarte, que é pastora da Meeting Point, uma igreja batista no Estoril, e presidente da Crescer com Amigos, uma associação que trabalha com crianças em situação de vulnerabilidade, adianta: "a AEE quis proporcionar às 35 alianças nacionais que a constituem uma forma clara, positiva e verdadeira de explicar quem somos, em que acreditamos e como nos relacionamos com a política e a sociedade." E fez isso com a intenção de "abrir portas" e de exprimir um convite: "Venham conhecer-nos. Falem conosco. Vejam aquilo em que realmente acreditamos e como servimos efetivamente as nossas comunidades."
Respostas positivas nos EUA
A elaboração do documento foi demorada. Pretendia-se, refere ao 7Margens a secretária-geral da AEE, "produzir algo que fosse em simultâneo autenticamente evangélico e compreensível para pessoas fora da comunidade evangélica", o que envolveu consultar "as alianças nacionais europeias, líderes de outras alianças regionais no âmbito da Aliança Evangélica Mundial e o seu secretário-geral, além de diálogo com líderes da Evangelical Fellowship of Canada e da National Association of Evangelicals nos EUA".
Dessa extensa reflexão colaborativa nasceu um documento em que se pode ler uma clara rejeição das posições extremistas da mega theology: "A Bíblia jamais deve ser usada para justificar ações que contradigam a vida, o exemplo e os ensinamentos de Jesus. Opomo-nos a qualquer movimento político que exija lealdade absoluta, ponha em causa os mecanismos de pesos e contrapesos (checks and balances) do Estado democrático, desrespeite o direito internacional ou humanitário, ou trate qualquer ser humano, incluindo migrantes, prisioneiros, civis de nações 'inimigas' ou grupos minoritários, como alguém que não possui plena humanidade."
Para Connie Duarte, "a resposta das alianças nacionais tem sido muito encorajadora", pois tem indicação de que "as igrejas estão a descobrir o documento" e a reportam que este "lhes proporciona uma forma útil de explicar quem são os evangélicos e como contribuem para a sociedade".
Ao contrário do que seria expectável de um texto que afirma "não deverem ser desculpadas nem ocultadas as falhas de alguns evangélicos" que, através da sua ação política provocaram "abuso, manipulação, mau uso do poder, desonestidade, racismo ou ódio ao 'outro'", Duarte diz "ter havido uma resposta positiva nos Estados Unidos, onde vários escritores e organizações evangélicas têm destacado o documento como uma alternativa útil aos estereótipos que muitas vezes dominam o debate público naquele país".
A realidade dos evangélicos na Europa é descrita no texto, reconhecendo que "há cristãos evangélicos em todas as denominações protestantes e alguns fora delas", tendo "o sentido de unidade evangélica como expressão mais visível entre as denominações surgido em 1846, com a criação da Aliança Evangélica" e "hoje, existem entre 20 e 25 milhões de evangélicos em toda a Europa". Por outro lado, "as condutas reprováveis [de alguns evangélicos] não devem obscurecer o serviço fiel de milhões de evangélicos cuja contribuição para o bem da sociedade é significativa".
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