Evangélicos no mundo. Trump, evangélicos brancos e posições de poder. Entrevista com Sébastien Fath

Foto: Daniel Torok | Wikimedia Commons

11 Março 2026

Corrente religiosa em plena expansão em todo o mundo, os evangélicos são frequentemente associados ao imaginário estadunidense e ao nacionalismo cristão, do qual são parte integrante nos Estados Unidos.

A entrevista é de Virginie Larousse, publicada por Le Monde, 22-02-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

No entanto, sua realidade é infinitamente mais variegada, como explica o pesquisador Sébastien Fath, um dos maiores especialistas no assunto, em seu livro "Le Nouveau Pouvoir évangélique" (O novo poder evangélico, em tradução livre, Grasset). Trata-se de uma impressionante síntese que desmonta muitos clichês sobre esses fiéis, destacando a profunda diversidade das Igrejas evangélicas em nível internacional, especialmente na África e na Ásia, que diferem profundamente de algumas Igrejas nacionalistas estadunidenses.

Eis a entrevista.

De onde vem o evangelicalismo?

Sua história está intrinsecamente ligada à do protestantismo e não pode ser compreendida sem considerar as diversas tendências da Reforma Protestante, que teve início no século XVI. Ao longo da história protestante, houve fases de "despertar", sem dúvida explicadas pelo fato de que, diferentemente da Igreja Católica, não existe uma centralidade institucional entre os protestantes, resultando disso uma certa fragilidade na transmissão. As fases de despertar, ou seja, de remobilização militante, abrangem três dimensões: uma dimensão pessoal, ou seja, a conversão, que é central para a identidade evangélica; uma forma de criatividade eclesial, com o surgimento de novas Igrejas que respondem a novas sensibilidades, como o metodismo e o pentecostalismo; e o impacto social, visto que esses despertares favoreceram a criação de obras como as capelanias prisionais ou a Cruz Vermelha. Esses despertares permitiram às franjas evangélicas, inicialmente minoritárias e discriminadas, se tornarem gradualmente majoritárias dentro do protestantismo.

No que o evangelicalismo difere do protestantismo tradicional, ou seja, luterano e reformado?

Diferencia-se principalmente na ênfase posta sobre a conversão. O evangelicalismo não é uma religião que se herda por nascimento, mas sim uma religião que se reivindica e que se testemunha publicamente. Consequentemente, as Igrejas evangélicas são geralmente Igrejas de crentes professos, compostas por associações de convertidos, o que não ocorre no luteranismo ou a Igreja Reformada. Além disso, há menos mediação na interpretação da Bíblia nas Igrejas evangélicas, que desenvolvem uma leitura mais direta e menos metafórica do que nos ambientes luteranos ou reformados.

Estes últimos dão menos importância ao sobrenatural, em favor de uma abordagem mais focada na ética. Para os evangélicos, a relação com o invisível, com um Deus poderoso que opera milagres, é essencial.

Quais são os principais polos evangélicos no mundo?

Em meu livro, tento desamericanizar o imaginário sobre o evangelicalismo: trata-se de um fenômeno multipolar que não deve ser limitado aos Estados Unidos. Esse clichê está ligado à extraordinária influência da cultura estadunidense na França após 1945, com a imagem do clergyman protestante de estilo anglo-saxão. Hoje, ao contrário, o padrão do evangélico é o de uma mulher nigeriana de classe média, que administra o aluguel de três apartamentos, dirige uma empresa de telefonia móvel e, à noite, vai orar e profetizar em uma Igreja do Despertar. Estamos longe do clichê do evangélico texano branco ultraconservador: este existe, sim, mas o evangelicalismo, mesmo nos Estados Unidos, é mais diversificado — e há oito vezes mais evangélicos no resto do planeta. Chefes de Estado evangélicos governam a República Democrática do Congo — o maior país francófono do mundo —, Etiópia, Gana, República Centro-Africana, Quênia... Embora os evangélicos brancos estadunidenses (white evangelicals) ocupem espaço, a realidade é que, no plano religioso, os Estados Unidos estão se secularizando, com um aumento significativo no número de "sem religião" na população estadunidense, como demonstram os dados do Public Religion Research Institute, um think tank independente.

Milhões de pessoas se converteram ao evangelicalismo a partir da década de 1960 na América Latina e, 30 anos depois, na África francófona. Trata-se, na maioria das vezes, de novas Igrejas pós-coloniais, criadas por africanos para africanos, e não fundadas por europeus. Hoje, dos 48 milhões de evangélicos francófonos, 40 milhões são africanos. Alguns deles vieram viver na Europa, o que explica em parte o crescimento das Igrejas evangélicas no continente. No entanto, esse crescimento não é massivo: na França, 1,6% da população é evangélica, uma porcentagem muito maior do que no período pós-Segunda Guerra Mundial, mas ainda assim modesta.

Na França, as Igrejas evangélicas são percebidas como correntes novas, importadas de países anglo-saxões. É isso?

O século XIX propiciou uma espécie de reinvenção do protestantismo na França, onde muitas comunidades haviam sido desenraizadas. Comunidades suíças, alemãs e britânicas ajudaram os protestantes franceses a reevangelizar. Os estadunidenses chegaram mais tarde, especialmente após 1945, em um contexto de Guerra Fria, no qual temiam que a França se inclinasse para o comunismo. No entanto, desde a queda da Cortina de Ferro, a França deixou de ser uma prioridade para os Estados Unidos. E, há 30 anos, a influência mais significativa entre os evangélicos franceses é claramente aquela vinda da África. Uma influência trumpista pode estar presente em algumas redes, mas não é a linha dominante dentro do Conselho Nacional de Evangélicos Franceses, uma rede que reúne de 60% a 70% deles. Nunca houve uma Igreja evangélica nacionalista na França, e o que está acontecendo nos Estados Unidos é uma exceção.

Como se explica essa exceção estadunidense?

A sociedade estadunidense foi construída pelos puritanos, protestantes extremistas que a Europa não queria. Ao chegarem à Nova Inglaterra, implementaram modelos radicais que moldaram a identidade protestante estadunidense, com uma conotação de viés teocrático. Contudo, já existia um debate interno, com pensadores discordando dessa linha. Foi assim que o pastor Roger Williams (1603-1683) fundou Providence, em Rhode Island, onde introduziu a liberdade de consciência. De qualquer forma, o aspecto excepcional estadunidense persiste até hoje. Com a crescente secularização da sociedade estadunidense, muitos evangélicos sentem-se como uma cidadela sitiada. Esse pânico moral afeta particularmente os evangélicos brancos, convencidos de que os Estados Unidos perderam sua identidade cristã. Esses neopuritanos querem construir uma barreira contra a secularização, o que é motivo de preocupação para todos os defensores da democracia liberal. No entanto, as mesmas ênfases não são encontradas entre os evangélicos estadunidenses de origem africana, asiática ou latina. O quadro é completamente diferente na Europa. As minorias protestantes na França defendem a ideia de uma sociedade republicana que oferece igualdade para todos, pois a memória das perseguições sofridas ainda está muito viva. O que acontece nos Estados Unidos não pode ser transposto para a França.

Por outro lado, mesmo nos Estados Unidos, o evangelicalismo não pode ser reduzido ao nacionalismo cristão. Durante a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, os revoltosos queriam enforcar o vice-presidente Mike Pence, um evangélico fervoroso, mas defensor da democracia e contrário ao golpe de estado. E a principal revista mensal dos evangélicos do país, Christianity Today, fundada pelo pregador Billy Graham (1918-2018) e hoje dirigida por um afro-estadunidense, é anti-Trump.

As Igrejas evangélicas são consideradas muito conservadoras, senão francamente reacionárias. Essa é a realidade?

É verdade que os evangélicos são bastante conservadores em matéria de sexualidade e se alinham um pouco mais à direita do que a média da população francesa. Mas eles também expressam um forte apelo pela solidariedade e valorizam o acolhimento do estrangeiro. Uma pesquisa quantitativa realizada na megaigreja Martin Luther King (MLK) de Créteil, em 2025, revelou que mais de 16% das opiniões políticas declaradas se inclinavam para La France insoumise [extrema esquerda] e menos de 4% para o Rassemblement National [RN – extrema direita].

Na França, muitos locais de culto evangélicos são Igrejas "crioulizadas", com uma porcentagem significativa de casamentos mistos, um público que mal suporta o discurso do RN. Isso é bem diferente da situação nas Igrejas dos Estados Unidos, onde a mistura é rara e muitas vezes reina uma forma de segregação implícita.

Poderíamos dizer que Donald Trump realizou uma espécie de OPA (tomada de poder) sobre o evangelicalismo nos Estados Unidos?

Certamente, ele o usou cinicamente para chega ao poder, instrumentalizando os ambientes evangélicos brancos. Sem dúvida, comprou em parte seu apoio, com uma troca de favores à qual muitos evangélicos, dependentes das doações, responderam favoravelmente. No entanto, não se pode falar propriamente de OPA, porque isso sugeriria um controle total, que não existe.

O que o evangelicalismo nos conta com seu sucesso, diante o declínio do catolicismo e do protestantismo tradicional?

É verdade que pode parecer surpreendente. Quando entrei para o CNRS em 1999, ouvia meus colegas falar sobre o colapso do catolicismo. Para a corrente evangélica, porém, é o oposto. Um dos elementos que explica esse dinamismo é que o protestantismo evangélico se adapta muito bem a uma sociedade democrática, consumista e individualista, enquanto o catolicismo está mais em sintonia com uma sociedade tradicional, baseada na transmissão geracional e na autoridade vertical.

Além disso, as Igrejas evangélicas são mais abertas do que a instituição católica no que diz respeito ao papel das mulheres, inclusive na pregação. E muitos católicos não querem mais um cristianismo em que toda palavra de autoridade venha de um homem.

Finalmente, os jovens recebem responsabilidades durante o culto e são envolvidos em atividades comunitárias, um aspecto positivo em uma sociedade onde os jovens lutam para encontrar seu espaço. Eles também são muito ativos nas redes sociais.

O crescimento dessa corrente religiosa faz parte de uma história global marcada, há 40 anos, pelo triunfo do capitalismo financeiro em detrimento do capitalismo industrial. Isso levou ao enriquecimento da oligarquia financeira, em detrimento das classes médias empobrecidas. A atomização dos laços sociais desestabilizou muitas sociedades, que, portanto, estão em busca de relações. E as Igrejas evangélicas, assim como outras ofertas religiosas — particularmente o islamismo — são lugares de solidariedade. O evangelicalismo e o islamismo constituem hoje as principais ofertas religiosas que atendem as mudanças das sociedades contemporâneas.

Como vê o futuro do evangelicalismo?

O crescimento do evangelicalismo não é inexorável. Nos Estados Unidos, a Convenção Batista do Sul perdeu 2 milhões de membros desde o início do século XXI, enquanto havia triplicado o número de membros após a Segunda Guerra Mundial. Acredito também que a união artificial entre Trump e os evangélicos brancos esteja lhes custando caro, mesmo que tenha lhes permitido conquistar posições de poder. Quanto ao Reino Unido, o evangelicalismo continua a perder terreno. Na Coreia do Sul, está se registrando um ligeiro declínio. Em nível mundial, por outro lado, está em crescimento, particularmente na África, China e Sudeste Asiático.

O evangelicalismo ainda tem várias décadas de crescimento pela frente, especialmente na França. Isso dependerá, contudo, da capacidade do catolicismo de se reformar. Se este último conseguir acelerar sua renovação, o evangelicalismo poderá perder força. No entanto, os evangélicos são capazes de atrair tanto ex-católicos quanto pessoas não religiosas (2 em cada 10, em média). Na França, observa-se uma forma de aculturação do evangelicalismo, por meio de figuras como o cantor Kendji Girac e o jogador de futebol Olivier Giroud. Contudo, como no caso do Islamismo, os evangélicos são muitas vezes difamados. Deve-se admitir que, ainda que modestamente, alguns crentes radicais têm potencial para causar danos, mas, na realidade, a vasta maioria desses cidadãos é pacífica. É preciso deixar claro que as minorias religiosas — judaicas, muçulmanas, evangélicas, budistas — onde têm seu espaço, contribuem para construir a França de hoje.

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