06 Março 2026
O alerta, recebido na segunda-feira de um suboficial de uma unidade militar estadunidense, denunciou o discurso de um comandante que, dirigindo-se às tropas, definiu a guerra contra o Irã dos aiatolás como "parte do projeto divino" e acrescentou que o presidente Donald Trump "foi ungido pelo Senhor para acender o farol que sinaliza o início do retorno de Cristo à Terra".
A informação é de Luca Celada, publicada por Manifesto de 05-03-2026. A tradução de Luisa Rabolini.
Foi apenas um dos muitos alertas recebidos nos últimos dias pela Military Religious Freedom Foundation, uma associação que atua em prol da pluralidade religiosa nas forças armadas. Um porta-voz falou de "centenas" de mensagens semelhantes.
Para muitos quadros no exército subordinados ao ministro, que tem as palavras "Deus Vult" tatuadas no bíceps e o emblema dos cruzados no peito, a explosão no Oriente Médio desencadeada por Israel e pelos EUA representaria, portanto, a guerra profetizada pelo Antigo Testamento, por exemplo, em passagens como Ezequiel 38-39. O confronto final entre as forças do bem e do mal é retratado no livro do Apocalipse como um conflito entre povo escolhido e uma confederação de nações inimigas.
Enquanto continua o paradoxal balé dos mutáveis objetivos e metas, emerge, em última análise, não menos plausível como motivação, o fanatismo irracional que permeia o regime de Trump e a corrente fundamentalista religiosa de sua coalizão. A essa pertence o "ministro da guerra" Pete Hegseth, um seguidor de Douglas Wilson, teólogo e pregador "pós-milenarista" de Idaho. Hegseth, que estabeleceu sessões regulares de oração no Pentágono, além de militarista e intervencionista convicto, é defensor de doutrinas abertamente teocráticas inspiradas em seitas evangélicas.
A escatologia adventista evangélica concentra-se particularmente no Juízo Final. Nessa cosmologia, o confronto militar do Armagedom anuncia o "arrebatamento" (a ascensão) dos fiéis como recompensa divina. Um adventismo endêmico nos círculos do cristianismo fundamentalista estadunidense. A teologia evangélica, frequentemente caracterizada por uma obsessão com o "fim dos tempos", foi cooptada como elemento unificador pela extrema direita e como fundamento ideológico de "batalhas" culturais desde a revolução Reagan da década de 1980. Essa visão sombria e implacável, com raízes puritanas emprestadas dos revivals pentecostais e carismáticos, constitui desde então a matriz teológica e o centro motivador do movimento conservador. Ao longo dos anos, normalizou visões extremistas sobre o apocalipse iminente, prelúdio para a grande tribulação e a segunda vinda de Cristo à Terra.
A apoteose trumpista permitiu a inserção de expoentes fundamentalistas e nacionalistas cristãos (no sentido mais extremo e doutrinário) em todos os níveis do governo. Desde o presidente da Câmara, Mike Johnson, que fala abertamente sobre "possessão demoníaca" dos membros da oposição (e que ontem definiu como “defeituosa” a religião islâmica), até Russell Vought, o poderoso diretor do Departamento do Orçamento e um metódico destruidor do estado administrativo e assistencial. Essas figuras frequentemente têm ligações com a Heritage Foundation, um think tank que agrega pensamento neorreacionário e de viés fundamentalista.
O movimento também contém uma influente ala sionista cristã, que conta com figuras como Mike Huckabee, ex-tele-evangelista e governador do Arkansas, atualmente embaixador em Jerusalém (e forte defensor do movimento dos colonos na Cisjordânia). A convergência entre o extremismo religioso de extrema-direita israelense e estadunidense encontra um ponto comum de ligação na atual guerra e na compartilhada sintonia "profética". Da ideia de "Grande Israel" à profecia do Monte do Templo, que considera a reconstrução do retorno do Messias dos judeus.
Naturalmente, fica a ironia do alinhamento dessas correntes em torno de um apóstata antitético a qualquer conceito de piedade religiosa. Donald Trump, contudo, é elevado pela teoideologia a um "receptáculo imperfeito" do projeto divino, um compromisso aceitável. Enquanto isso, em ambientes sionistas, o presidente estadunidense é comparado ao benfeitor Rei Ciro, o soberano persa reverenciado por libertar os judeus do cativeiro babilônico
Hegseth é o principal defensor da força militar como instrumento de dominação e como substituto da política. Ele recorre à expressão "FAFO" (fuck around and find out - algo como "brinque com o fogo e vai ser queimado"). Ainda ontem, ele declarou que o Irã será "controlado à distância" pela supremacia militar dos EUA. Mas as expressões de força bruta nunca estão longe de sugestões apocalípticas e religiosas que consideram uma destruição iminente do mundo como uma realidade teológica desejável. Crenças que, com excepcionalismo e militarismo, unem as duas potências que acenderam o barril de pólvora iraniano.
Deixar o destino do mundo nas mãos de quem considera sua destruição predestinada e inevitável nunca foi sábio. Perseverar na ignávia e na aquiescência parece ser realmente suicida.
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