A democracia pode sobreviver sem cidadãos capazes de governar a si mesmos? A pergunta parece estranha em um tempo que costuma reduzir a política às disputas eleitorais, às instituições ou às estratégias de poder. No entanto, foi justamente ao deslocar o olhar para a formação ética dos sujeitos que Michel Foucault encontrou uma das contribuições mais originais de sua filosofia tardia. Nos cursos ministrados no Collège de France, o filósofo francês passou a investigar como o domínio de si (enkrateia) e a coragem de dizer a verdade (parresia) constituem práticas inseparáveis da experiência da liberdade. A política, nessa perspectiva, deixa de ser compreendida apenas como organização do Estado para tornar-se uma questão que atravessa a própria existência: a maneira como cada sujeito se constitui, resiste às formas de assujeitamento e assume a responsabilidade de sua palavra. É nesse horizonte que Foucault recoloca uma antiga intuição da filosofia: talvez não haja democracia sem um trabalho ético sobre si mesmo.
É a partir dessa problemática que o Prof. Dr. Castor Mari Martín Bartolomé Ruiz, um dos principais intérpretes brasileiros da obra foucaultiana, ministrará a conferência "Enkrateia e parresia em Foucault: repensando a política e a democracia", no dia 22 de julho, das 10h às 11h30, com transmissão ao vivo pelo Instituto Humanitas Unisinos, como parte do Colóquio Internacional Michel Foucault 100 anos: pensar o presente, redefinir a política. Em suas pesquisas sobre biopolítica, governamentalidade, ética e processos de subjetivação, Castor tem demonstrado que a atualidade de Foucault não reside apenas em sua crítica aos dispositivos de poder, mas na elaboração de uma filosofia capaz de interrogar as condições éticas da liberdade em sociedades cada vez mais administradas por regimes de verdade, tecnologias de controle e formas sutis de condução das condutas. Sua conferência convida, assim, a pensar se o futuro da democracia depende menos da multiplicação de mecanismos institucionais e mais da formação de sujeitos capazes de fazer da própria vida um exercício crítico de liberdade.
A reflexão é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do IHU.
Há um paradoxo que atravessa o presente. Nunca se falou tanto em liberdade de expressão, participação política e transparência, e, ao mesmo tempo, nunca as formas de condução das condutas pareceram tão sofisticadas. Entre algoritmos, dispositivos de vigilância, polarizações afetivas e a produção incessante de verdades, a política desloca-se para o terreno da formação das subjetividades. Nesse cenário, talvez a pergunta decisiva não seja apenas quem governa, mas como somos governados e, sobretudo, como aprendemos a governar a nós mesmos. É precisamente nesse cruzamento entre ética e política que Michel Foucault encontra, em seus últimos cursos, duas antigas noções gregas que voltam a adquirir extraordinária atualidade: enkrateia, o domínio de si, e parresia, a coragem de dizer a verdade.
É nesse horizonte que se insere a conferência "Enkrateia e parresia em Foucault: repensando a política e a democracia", ministrada pelo Prof. Dr. Castor Mari Martín Bartolomé Ruiz, no âmbito do Colóquio Internacional Michel Foucault 100 anos: pensar o presente, redefinir a política. Ao longo de décadas de pesquisa sobre Foucault, biopolítica, governamentalidade e modos de subjetivação, Castor tem mostrado que a filosofia foucaultiana não conduz a uma teoria abstrata do poder, mas a uma investigação das práticas concretas pelas quais os sujeitos são constituídos e, simultaneamente, podem tornar-se capazes de resistir às formas de governo que pretendem capturar sua existência.
Nas inúmeras intervenções publicadas pelo Instituto Humanitas Unisinos e pela Revista IHU On-Line, bem como em dezenas de artigos e eventos acadêmicos, bem como nas aulas que ministra na Unisinos, Castor insiste que o poder, para Foucault, não deve ser compreendido como uma substância ou um atributo possuído por alguém, mas como um conjunto de práticas historicamente situadas que atravessam instituições, discursos e modos de vida. É justamente por isso que a genealogia foucaultiana desloca o problema filosófico da verdade: não se trata apenas de perguntar o que é verdadeiro, mas de investigar como determinadas verdades adquirem validade, quais relações de poder as sustentam e quais formas de subjetivação elas produzem. A verdade deixa de aparecer como um dado neutro para revelar-se inseparável das práticas que a tornam eficaz na condução das condutas.
É nesse percurso que a noção de enkrateia assume centralidade. Longe de significar uma moral ascética fundada na renúncia, ela designa, na leitura desenvolvida por Castor a partir de Foucault, a capacidade de governo de si como condição para uma existência livre. O cuidado de si não constitui um gesto individualista nem um refúgio privado diante da política. Ao contrário, trata-se de uma prática eminentemente ético-política, pois somente quem aprende a governar a própria vida pode escapar da sujeição dócil produzida pelos dispositivos contemporâneos de poder. A autonomia, nessa perspectiva, não é um estado alcançado definitivamente, mas uma prática permanente de resistência às formas históricas de governamentalização da vida.
Se o governo de si constitui uma condição para a liberdade, isso significa que a política deixa de ser pensada exclusivamente no plano das instituições para deslocar-se ao terreno da constituição ética do sujeito. Castor tem insistido que esse movimento representa uma inflexão decisiva na filosofia de Foucault. Não porque o filósofo francês abandone sua investigação sobre o poder, mas porque passa a mostrar que toda relação de governo pressupõe determinadas formas pelas quais os indivíduos são levados a relacionar-se consigo mesmos. O exercício da liberdade, assim, não emerge da ausência de poder, mas da capacidade de transformar a própria relação com os regimes de verdade que modelam a existência. A pergunta filosófica já não se limita a saber quem governa ou quais mecanismos legitimam o governo, mas alcança uma dimensão mais radical: de que modo nos tornamos sujeitos daquilo que pensamos, desejamos e fazemos?
Essa mudança de perspectiva impede que a crítica se reduza à simples denúncia das estruturas de dominação. Para Castor, acompanhando Foucault, resistir não consiste em posicionar-se exteriormente ao poder, como se houvesse um lugar puro e incontaminado a partir do qual fosse possível julgá-lo. O poder atravessa a própria constituição dos sujeitos, organiza saberes, produz sensibilidades e estabelece horizontes de normalidade. É justamente por isso que a resistência assume um caráter inventivo: ela exige a criação de outros modos de viver, de pensar e de constituir-se. A liberdade deixa de ser concebida como um direito abstrato para tornar-se uma prática cotidiana de elaboração de si, capaz de interromper a naturalização das formas pelas quais somos governados.
Nessa direção, a enkrateia também modifica o próprio significado da ética. Em vez de um conjunto de normas universais destinadas a regular comportamentos, a ética aparece como uma experiência de formação, um trabalho permanente pelo qual o sujeito experimenta diferentes maneiras de habitar sua própria existência. Trata-se de uma estética da existência, para utilizar uma expressão recorrente nos últimos escritos de Foucault, em que a liberdade não se confunde com espontaneidade, mas implica disciplina, vigilância crítica sobre si e abertura para transformar os próprios modos de ser. Castor evidencia que essa dimensão ética não representa um retorno ao individualismo clássico; ao contrário, ela restitui à política sua condição mais originária, pois somente sujeitos capazes de exercer uma relação crítica consigo mesmos podem impedir que a obediência se converta em servidão.
É precisamente nesse ponto que a atualidade de Foucault se torna mais incisiva. Em sociedades marcadas pela gestão algorítmica das condutas, pela circulação incessante de informações e pela produção contínua de identidades, o governo dos indivíduos opera cada vez menos por meio da coerção direta e cada vez mais pela interiorização de formas de conduzir a própria vida. A reflexão de Castor convida, então, a compreender que o cuidado de si não constitui um gesto de retraimento diante do mundo, mas uma condição para que a democracia permaneça um espaço efetivo de liberdade. Afinal, quando os processos de subjetivação tornam-se objeto da crítica filosófica, a questão política desloca-se da mera administração das instituições para a formação de sujeitos capazes de não apenas participar da vida pública, mas de reinventar continuamente as formas de convivência, responsabilidade e liberdade que tornam uma comunidade verdadeiramente democrática.
Essa elaboração encontra sua continuidade na parresia, tema que ocupa os últimos cursos de Foucault no Collège de France. Se a enkrateia diz respeito ao trabalho de constituição de si, a parresia introduz a dimensão pública da coragem filosófica. Dizer a verdade deixa de ser um simples exercício retórico para tornar-se um risco ético assumido por quem aceita expor-se em nome daquilo que considera verdadeiro. A democracia, sob esse prisma, não se sustenta apenas em instituições, procedimentos jurídicos ou mecanismos representativos, mas depende também da formação de sujeitos capazes de exercer uma palavra livre, crítica e responsável.
A parresia torna-se particularmente relevante porque desloca a verdade do plano da adequação teórica para o âmbito da experiência vivida. O parresiasta não é aquele que detém um saber privilegiado ou ocupa uma posição de autoridade reconhecida, mas aquele cuja palavra adquire credibilidade porque está comprometida com uma forma de vida. Como Castor frequentemente destaca em suas leituras de Foucault, a verdade não aparece aqui como um conteúdo a ser transmitido, mas como uma prática que implica o sujeito inteiro. Entre o que se diz e o modo como se vive deve existir uma coerência capaz de sustentar o risco inerente ao ato de falar. A coragem da verdade, portanto, não deriva da força do argumento apenas, mas da disposição de assumir as consequências éticas e políticas daquilo que é enunciado.
Essa perspectiva permite compreender por que Foucault encontra na parresia uma figura decisiva para repensar a política. A tradição ocidental frequentemente vinculou a legitimidade do discurso à posição institucional de quem fala: o governante, o especialista, o jurista, o representante autorizado. A prática parresiástica, ao contrário, introduz uma tensão permanente entre verdade e poder. Ela emerge precisamente quando a palavra crítica interrompe a segurança dos consensos estabelecidos e questiona aquilo que se tornou evidente demais para continuar sendo interrogado. Não se trata de uma fala destinada a confirmar a ordem existente, mas de uma intervenção que reabre o campo do pensamento, tornando novamente problemático aquilo que parecia definitivamente resolvido.
Sob esse aspecto, a parresia revela uma dimensão profundamente filosófica da democracia. Não porque ofereça um modelo institucional alternativo, mas porque impede que a vida democrática se reduza à mera gestão administrativa dos conflitos. Castor tem mostrado que uma democracia incapaz de acolher a palavra crítica corre o risco de transformar-se em simples mecanismo de reprodução de verdades dominantes. O espaço público deixa então de ser o lugar da deliberação e converte-se em ambiente de administração de opiniões previamente moldadas. A coragem da verdade funciona, nesse contexto, como um princípio de inquietação permanente, preservando a possibilidade de que novas experiências, novos sujeitos e novas formas de justiça possam emergir no interior da comunidade política.
Por essa razão, a parresia não diz respeito apenas à liberdade de expressão, compreendida em sentido jurídico, mas à constituição de uma cultura ética capaz de sustentar a crítica. A questão decisiva não é apenas garantir que alguém possa falar, mas compreender quais condições tornam possível uma palavra que não seja capturada pelo cálculo da conveniência, pelo medo da exclusão ou pela busca de reconhecimento. Em uma época marcada pela aceleração comunicacional, pela circulação instantânea de discursos e pela multiplicação de dispositivos de visibilidade, a reflexão de Foucault retomada por Castor adquire uma atualidade singular. O desafio democrático talvez resida menos na abundância de vozes do que na formação de sujeitos capazes de assumir a responsabilidade da verdade, fazendo da palavra não um instrumento de adesão ou manipulação, mas uma prática de liberdade compartilhada.
A conferência de Castor Mari Martín Bartolomé Ruiz nos convida, assim, a recolocarmos uma questão decisiva para o século XXI: seria possível pensar uma renovação da democracia sem uma transformação das formas pelas quais os indivíduos se relacionam consigo mesmos? Em tempos marcados pela fabricação industrial de consensos, pela gestão biopolítica das populações e pela produção estratégica de regimes de verdade, Foucault continua a sugerir que a liberdade não é um ponto de partida, mas uma prática. Talvez seja precisamente nesse difícil exercício — governar-se para poder dizer a verdade e dizer a verdade para transformar a política — que resida uma das tarefas filosóficas mais urgentes do nosso tempo.
Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Unisinos, graduado em Filosofia pela Universidade de Comillas, na Espanha, mestre em História pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e doutor em Filosofia pela Universidade de Deusto, Bilbao. É pós-doutor pelo Conselho Superior de Investigações Científicas. Membro da diretoria da Associação Ibero Americana de Filosofia Política (AIFP), coordena o Grupo de Pesquisa CNPq, "Ética, biopolítica e alteridade" e a Cátedra Unesco-Unisinos de Direitos Humanos e violência, governo e governança. É um dos membros fundadores do GT Filosofia Política Contemporânea da ANPOF. Escreveu inúmeras obras, das quais destacamos: Os labirintos do poder: o poder (do) simbólico e os modos de subjetivação (Escritos, 2004), As encruzilhadas do humanismo: a subjetividade e alteridade ante os dilemas do poder ético (Vozes, 2006), Direito à justiça, memória e reparação (Casa Leiria, 2010), La mímesis humana: la condición paradójica de la acción imitativa (OmniScriptum Management GmbH – EAE, 2016), Os paradoxos do imaginário (Unisinos, 2015) e A violência, o poder e o outro: crítica ética da violência biopolítica (Fênix, 2025).
Colóquio Internacional Michel Foucault 100 anos. Pensar o presente, redefinir a política
Enkrateia e parresia em Foucault. Repensando a política e a democracia
📍 Prof. Dr. Castor M. M. Bartolomé Ruiz – Unisinos
⏰ 22/07 | 10h às 11h30min
🎥 Transmissão ao vivo:
📌 A atividade é gratuita. Será fornecido certificado a quem se inscrever e, no dia do evento, assinar a presença por meio do formulário disponibilizado durante a transmissão.
📌 O evento ficará gravado no YouTube e Facebook e pode ser acessado a qualquer momento.
Inscrições e mais informações: https://www.ihu.unisinos.br/evento/michel-foucault
