Quem governa o presente? A pergunta parece simples, mas talvez seja uma das mais difíceis do nosso tempo. Governam os Estados, os mercados, os algoritmos, as plataformas digitais, as emoções coletivas ou as formas invisíveis de racionalidade que orientam nossas escolhas antes mesmo que as percebamos como escolhas? Cem anos após o nascimento de Michel Foucault, sua filosofia permanece incontornável justamente porque desloca o olhar das instituições para os dispositivos, dos acontecimentos para as condições que os tornam possíveis e das respostas para as perguntas que insistimos em não formular. Em uma época em que a democracia convive com novas formas de autoritarismo, a liberdade é mobilizada como tecnologia de governo e a inteligência artificial redefine os modos de conhecer, decidir e agir, voltar a Foucault significa muito menos celebrar um clássico do que aceitar o desafio de pensar criticamente aquilo que parece mais evidente: o nosso próprio presente.
É precisamente esse exercício filosófico que orienta o Colóquio Internacional Michel Foucault 100 anos. Pensar o presente, redefinir a política, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, com apoio do Programa de Pós-graduação em Filosofia da Unisinos. Ao receber o filósofo italiano Sandro Chignola, um dos mais importantes intérpretes contemporâneos da obra foucaultiana, o encontro convida pesquisadores, estudantes e todos os interessados na filosofia política a refletirem sobre uma questão decisiva: como compreender as novas configurações do poder sem permanecer prisioneiro das categorias herdadas do século XX? Mais do que uma homenagem a Foucault, o colóquio propõe uma investigação sobre os impasses do presente e sobre as possibilidades de reinventar a política em um mundo atravessado por transformações tecnológicas, econômicas e sociais de alcance inédito.
A reflexão é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do IHU.
Os cem anos de nascimento de Michel Foucault oferecem mais do que uma oportunidade comemorativa: constituem um convite a interrogar criticamente as formas pelas quais o presente é produzido e governado. Em um contexto marcado pela crise das democracias liberais, pela reconfiguração das racionalidades políticas, pelo avanço das tecnologias algorítmicas de governo e pela emergência de novos autoritarismos, retornar a Foucault significa recuperar uma filosofia comprometida com a análise histórica das formas de poder e com a invenção de outras possibilidades de vida.
É nesse horizonte que se insere o Colóquio Internacional Michel Foucault 100 anos. A conferência "Para uma política da Filosofia a partir de Foucault", ministrada pelo filósofo italiano Sandro Chignola, professor da Università degli Studi di Padova (UNIPD), propõe uma reflexão sobre a atualidade da genealogia foucaultiana diante das profundas transformações que atravessam o século XXI.
Ao longo de diversas entrevistas concedidas ao IHU, Chignola tem insistido que Foucault permanece um interlocutor incontornável porque sua filosofia não oferece uma teoria normativa da política, mas instrumentos para compreender os dispositivos que organizam nossa experiência contemporânea. Trata-se de deslocar a pergunta clássica sobre quem exerce o poder para investigar como ele circula, produz subjetividades, administra populações e conforma modos de existência.
Essa perspectiva torna-se particularmente relevante diante da consolidação de formas de governo que ultrapassam os limites tradicionais da representação política. Para Chignola, assiste-se hoje à emergência de uma política "pós-representativa", na qual decisões estratégicas são cada vez mais mediadas por dispositivos administrativos, financeiros, tecnológicos e securitários. O problema da democracia, portanto, já não pode ser pensado apenas a partir das instituições representativas, mas exige compreender as novas formas de governamentalidade que atravessam Estados, mercados, plataformas digitais e organismos internacionais.
Nesse cenário, a crítica foucaultiana da governamentalidade revela toda sua potência analítica. O governo deixa de significar apenas a ação do Estado e passa a designar um conjunto de técnicas voltadas à condução das condutas. Como observa Chignola, a racionalidade neoliberal não atua primordialmente por meio da coerção, mas pela produção de sujeitos empreendedores de si mesmos, responsáveis por administrar permanentemente seus riscos, competências e desempenhos. A liberdade deixa de constituir um limite ao governo para converter-se em um de seus principais instrumentos.
Essa racionalidade ajuda igualmente a compreender o ressurgimento contemporâneo de movimentos autoritários e de novas configurações do fascismo. Distante de uma repetição histórica dos regimes totalitários do século XX, Chignola identifica a formação de dispositivos políticos capazes de combinar práticas democráticas formais com lideranças carismáticas, comunicação digital, produção permanente de inimigos internos e mobilização afetiva das massas. Mais do que uma exceção à democracia, esses fenômenos emergem das próprias contradições produzidas pelas transformações neoliberais do capitalismo e pela crise dos mecanismos tradicionais de representação.
O diagnóstico de Chignola afasta-se das interpretações que compreendem o fascismo contemporâneo apenas como um desvio institucional ou como resultado exclusivo da ascensão de determinados líderes políticos. Sua análise desloca a atenção para processos históricos mais profundos, nos quais as formas clássicas de mediação entre Estado, sociedade e cidadania vão sendo progressivamente corroídas. O problema deixa de ser apenas a fragilidade das instituições democráticas e passa a envolver a transformação das próprias condições de produção da experiência política, marcada por uma crescente fragmentação do espaço público e pela dificuldade de construção de projetos coletivos.
Nesse contexto, adquire especial relevância a centralidade dos afetos como elemento constitutivo da política. Recuperando uma intuição presente tanto em Espinosa quanto nas leituras contemporâneas de Foucault, Chignola observa que o governo das populações não opera exclusivamente por meio de normas jurídicas ou mecanismos repressivos, mas também pela administração dos medos, ressentimentos, inseguranças e expectativas que atravessam o corpo social. A política torna-se, cada vez mais, um campo de disputa pela produção de sensibilidades, no qual emoções coletivas são continuamente mobilizadas para consolidar consensos, fabricar antagonismos e orientar comportamentos.
Ao mesmo tempo, a expansão das tecnologias digitais introduz uma mutação qualitativa na circulação do discurso político. As plataformas de comunicação não funcionam apenas como canais neutros de informação, mas como dispositivos que reorganizam a formação da opinião pública segundo lógicas algorítmicas de visibilidade, aceleração e polarização. A circulação incessante de imagens, narrativas e informações produz uma temporalidade política marcada pela urgência permanente, dificultando processos de deliberação e favorecendo a consolidação de respostas imediatas para problemas cuja complexidade exige reflexão e mediação institucional.

É precisamente nesse cenário que a crítica foucaultiana dos dispositivos revela sua fecundidade. Em vez de localizar o poder em centros soberanos claramente identificáveis, ela permite compreender as múltiplas articulações entre saberes, tecnologias, instituições e práticas sociais que tornam possível o funcionamento dessas novas formas de autoridade. A questão já não consiste apenas em identificar quem governa, mas em investigar os mecanismos que produzem adesão, orientam condutas e tornam determinadas formas de exercício do poder socialmente aceitáveis, mesmo quando implicam a restrição de direitos, a naturalização das desigualdades ou a exclusão de grupos inteiros da esfera do reconhecimento político.
Por essa razão, a reflexão de Chignola não conduz a uma leitura fatalista da conjuntura, mas recoloca o desafio da reinvenção democrática em novas bases. Se as transformações do capitalismo contemporâneo alteraram profundamente os modos de subjetivação e de participação política, torna-se igualmente necessário imaginar práticas capazes de reconstruir vínculos de solidariedade, ampliar os espaços do comum e recuperar a dimensão propriamente conflitiva da democracia. A resistência, nessa perspectiva, não consiste apenas em opor-se às formas emergentes de autoritarismo, mas em criar condições para que outras formas de vida política possam efetivamente emergir, ampliando o campo das possibilidades democráticas para além dos limites impostos pela racionalidade neoliberal.
A filosofia política desenvolvida por Chignola não se limita ao diagnóstico das formas contemporâneas de dominação. Inspirado tanto por Foucault quanto por tradições que incluem Espinosa, Marx e o pensamento pós-operário italiano, o filósofo defende a necessidade de pensar uma antropologia processual, capaz de compreender os sujeitos não como identidades fixas, mas como processos históricos permanentemente atravessados por relações de poder, conflitos e possibilidades de transformação. O sujeito deixa de ser uma essência para tornar-se um campo de práticas, relações e experimentações.
É justamente nesse deslocamento que ganha centralidade a categoria do comum. Em contraposição às formas individualizantes produzidas pela racionalidade neoliberal, Chignola propõe recuperar experiências coletivas que permitam reinventar práticas democráticas para além da lógica estatal e mercantil. O comum não designa um patrimônio previamente dado, mas uma prática política continuamente construída por meio da cooperação, do conflito e da produção compartilhada de novas formas de vida.
Assim, pensar Foucault cem anos depois significa reconhecer que sua obra permanece aberta, oferecendo ferramentas para analisar problemas que extrapolam seu próprio tempo. Inteligência artificial, plataformas digitais, capitalismo de dados, biopolítica, securitização, crises ambientais e reconfiguração das democracias constituem desafios que exigem uma renovação permanente da crítica filosófica. Mais do que interpretar o presente, a proposta de Chignola aponta para uma tarefa eminentemente filosófica e política: redefinir as condições da própria ação coletiva. Se, para Foucault, a crítica consiste em tornar difíceis os gestos demasiadamente fáceis, a política da filosofia hoje talvez consista precisamente em interromper as evidências que naturalizam as formas atuais de governo, abrindo espaço para imaginar outros modos de convivência, outras instituições e outras experiências da liberdade.
Sandro Chignola é professor de Filosofia Política no Departamento de Filosofia, Sociologia, Pedagogia e Psicologia Aplicada na Università degli Studi di Padova (FISPPA), Itália. É autor, entre outras obras, de Historia de los conceptos y filosofía política (Madri: Biblioteca Nueva, 2010), Whitehead, Homes, Bergson (Macerata: Quodlibet Studio, 2026) e Diritto vivente. Ravaisson, Tarde, Hauriou (Macerata: Quodlibet Studio, 2020). O artigo "Sobre o dispositivo. Foucault, Agamben, Deleuze", de sua autoria, foi publicado por Cadernos IHU Ideias, nº 214, como também o artigo "A vida, o trabalho, a linguagem. Biopolítica e biocapitalismo", Cadernos IHU Ideias, nº 228. Em novembro de 2025, Chignola ministrou a conferência "O fascismo que se reinventa e se transfigura" dentro da programação do XXII Simpósio Internacional "A extrema-direita e os novos autoritarismos. Ameaças à democracia liberal", promovido em parceria pelo IHU e pelo Programa de Pós-graduação em Filosofia da Unisinos.
Colóquio Internacional Michel Foucault 100 anos. Pensar o presente, redefinir a política
Para uma política da Filosofia a partir de Foucault
Prof. Dr. Sandro Chignola – Università di Padova – Itália
01/07 | 10h às 11h30min
Transmissão ao vivo:
YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=uqm9LXoRGOE
Facebook: https://www.facebook.com/InstitutoHumanitasUnisinos/events
A atividade é gratuita. Será fornecido certificado a quem se inscrever e, no dia do evento, assinar a presença por meio do formulário disponibilizado durante a transmissão. O evento ficará gravado no YouTube e Facebook e pode ser acessado a qualquer momento.
Inscrições e mais informações: https://www.ihu.unisinos.br/evento/michel-foucault