01 Agosto 2026
"A paz 'desarmada' deve ser praticada pessoalmente por todo cristão e por todo ser humano responsável, começando por uma linguagem o mais distante possível do tom agressivo de muitos pacifistas que são tudo, menos pacíficos", escreve Vito Mancuso, ex-professor da Universidade San Raffaele, de Milão, e da Universidade de Pádua, em artigo publicado por La Stampa, 28-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Muitas reações duras se seguiram ao meu artigo da semana passada sobre o Papa e a paz, e algumas me atribuíram posições que não defendo, como a de justificar a guerra. Por isso, desejo esclarecer o ponto essencial com esta frase, que reflete plenamente minhas opiniões: "Uma guerra de agressão é intrinsecamente imoral. No trágico caso em que essa se desencadeie, os responsáveis por um Estado agredido têm o direito e o dever de organizar a defesa inclusive recorrendo à força das armas." Isso consta no número 500 do Compêndio da Doutrina Social da Igreja, elaborado pelo Pontifício Conselho Justiça e Paz. A mesma visão defendida pelo Catecismo (art. 2265 e 2310) e, sobretudo, pela tradição da teologia moral, de Agostinho e Tomás de Aquino ao Concílio Vaticano II, segundo a qual as forças armadas, ao defenderem a liberdade e a segurança dos povos, "contribuem para a manutenção da paz". Assim, segundo essa doutrina, aquele que exerce a profissão das armas com senso de dever contribui para a paz, pois a paz deve ser "mantida". Como?
As respostas podem ser resumidas nas seguintes três:
1) estabelecendo tréguas, pois a guerra é permanente e inevitável;
2) abolindo a guerra e proclamando o desarmamento;
3) não atacando ninguém, mas permanecendo prontos para se defender caso for injustamente atacado.
A primeira posição é simbolizada por Mordo Nahum, o judeu de Tessalônica que Primo Levi encontrou ao sair de Auschwitz, que, quando Levi lhe disse que a guerra havia terminado, respondeu: "Há sempre guerra". Entre os defensores dessa visão estão Maquiavel, Hobbes, Marx e Nietzsche, bem como os tiranos de todas as épocas.
A segunda posição declara "Nunca mais a guerra", condenando qualquer uso de armas em nome da não violência absoluta. Aqui, a paz torna-se não apenas o fim, mas também o meio para a alcançar. Justamente: paz "desarmada". As armas, assim como as forças armadas, são vistas como instrumentos de morte que devem ser abolidos o mais rápido possível. Entre os defensores dessa abordagem estão Don Milani, Capitini, Gino Strada e o Padre Zanotelli.
A terceira posição considera a guerra como uma doença, não como norma, uma doença que, no entanto, às vezes exige o uso de armas para ser curada. Uso até mesmo necessário, pois é imoral que um Estado não defenda seus cidadãos. Nessa visão, as forças armadas, longe de ameaçar a paz, são sua garantia. Aqui encontramos Sócrates, Platão e Aristóteles, bem como a maioria dos teólogos cristãos, entre os quais Agostinho, Tomás de Aquino, Mounier, Barth e Bonhoeffer, e filósofos como Kant, Mounier e Bobbio. Este último defendia a paz não por meio de um irresponsável desarmamento unilateral, mas de um complexo trabalho diplomático e jurídico.
Assim sendo, a primeira posição sustenta que a paz nunca existirá exceto como trégua. A segunda defende que a paz pode ser alcançada por meio do desarmamento como paz "desarmada". A terceira postula que, embora a paz e o desarmamento sejam objetivos a serem buscados por meio da diplomacia e do direito, nesse ínterim, até que "todos" tenham se desarmado, é preciso permanecer armados e, se necessário, usar as armas para se defender.
Alinhando-me a essa terceira posição, reitero que, a meu ver, a frase do Papa Leão sobre a paz "desarmada e desarmante" expressa um conceito problemático que, embora possa ser retoricamente eficaz, está muito distante do necessário realismo da ética (e também da tradição católica, primeiro entre todos Agostinho). Em vez disso, deveríamos considerar a paz como uma ideia "reguladora", como diria Kant, ou seja, um ideal que sirva para regular nossa interação com a realidade. O fato de não poder ser plenamente realizada não a torna inútil; pelo contrário, é a ausência desse ideal nas mentes que gera agressividade e violência. E essa ideia funciona porque, apesar de parecer o contrário, as guerras diminuíram em comparação com o passado. Vejamos o caso da Itália: a história registra inúmeros conflitos entre as cidades italianas, conflitos que hoje se transformaram em meras rivalidades locais pitorescas. O mesmo se aplica à Europa. Se, portanto, a paz universal no momento não é possível, isso não significa que não exista um caminho gradual em direção a ela.
Mas, esse caminho deve, justamente, ser gradual. A paz "desarmada" deve ser praticada pessoalmente por todo cristão e por todo ser humano responsável, começando por uma linguagem o mais distante possível do tom agressivo de muitos pacifistas que são tudo, menos pacíficos. Contudo, acreditar que essa deva ser a função do Estado significa cometer o erro lógico que Aristóteles denominava “metabasis eis allo ghenos”, isto é, uma transição indevida para outro domínio. Em outras palavras, trata-se de um erro contra o princípio da laicidade.
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