25 Agosto 2026
O primeiro-ministro canadense entra em uma disputa de poder com Washington e contesta os planos de Trump de transformar seus antigos aliados em vassalos.
A reportagem é de Juan Gabriel García, publicada por El Diario, 24-08-2026.
Depois do Irã, o Canadá pode ser o próximo a mostrar a Donald Trump onde estão os limites do seu poder. A guerra comercial entre Washington e Ottawa se intensificou neste fim de semana, depois que o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, abandonou as negociações diante das exigências de última hora dos EUA. "Não estávamos preparados para comprometer a soberania do Canadá", disse Carney em um pronunciamento televisionado à nação no sábado.
O primeiro-ministro denunciou o fato de ter abandonado a mesa de negociações porque o lado americano havia imposto novas condições que eram “injustas, antieconômicas e colocavam em dúvida a confiabilidade de qualquer acordo”. “Quando você é atacado, você está em guerra”, afirmou Carney em um discurso comovente, no qual decidiu traçar uma linha muito clara na estratégia do presidente americano de transformar seus antigos aliados em vassalos.
“Na primavera passada, apontei que os Estados Unidos estão tentando nos enfraquecer para poderem nos dominar. E prometi a eles que isso jamais aconteceria. Estamos cumprindo essa promessa. O Canadá está se fortalecendo e se tornando menos dependente dos Estados Unidos. Já oferecemos mais do que eles podem nos tirar. E isso é só o começo”, declarou o canadense, em tom desafiador. “Traçamos nosso próprio rumo. Forjamos nosso próprio destino. No Canadá, somos donos do nosso lar, de um oceano ao outro”, acrescentou, em clara alusão à Revolução Tranquila em Quebec, na segunda metade do século XX.
Em seu estilo habitual, a resposta de Trump foi impor novas tarifas de 50% sobre o Canadá, além da tarifa de 10% que já havia aplicado a Ottawa no mês passado, sob a retomada das antigas "tarifas universais". Diante do desafio de Carney, que prometeu tarifas retaliatórias até 8 de setembro, o republicano anunciou na segunda-feira outra rodada de tarifas de 50% sobre as importações canadenses, que entrarão em vigor em 1º de janeiro de 2027, caso nenhum acordo seja alcançado. Essa perspectiva distante parece mais um blefe do que uma ameaça real.
As tarifas de 50% já em vigor terão um impacto de US$ 20 bilhões sobre os produtos de um dos principais parceiros comerciais dos EUA. A grande maioria das exportações de Ottawa destina-se ao mercado americano (72% no ano passado), o que significa que a vulnerabilidade é mútua: para o Canadá, por ser seu principal comprador, e para os Estados Unidos, porque seus cidadãos serão os mais afetados.
Uma das principais razões para a popularidade de Trump estar atualmente em baixa é o aumento do custo de vida. O presidente americano prometeu que os preços cairiam quando retornasse ao Salão Oval, mas o custo de vida só aumentou para as famílias. Isso se deve à guerra no Irã, com o bloqueio do Estreito de Ormuz elevando os preços do petróleo, e à guerra comercial afetando as prateleiras dos supermercados.
O Canadá está ciente disso, e é por isso que decidiu se envolver em uma luta pelo poder com Trump, algo incomum entre outros países ocidentais. É um teste para ver quem consegue suportar os danos por mais tempo. Carney decidiu entrar na disputa justamente quando Washington parece finalmente estar se deparando com a realidade.
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Na sexta-feira, após insistir por mais de um ano que as tarifas não estavam afetando os preços ao consumidor, o presidente dos EUA eliminou as taxas de importação de carne bovina. Trump anunciou a medida como uma ação para aliviar a pressão financeira sobre os americanos.
Essa ação ocorre poucos meses depois de a Suprema Corte ter derrubado um dos pilares da política econômica do magnata: as tarifas universais. O governo Trump teve que encontrar outro mecanismo para restabelecê-las recentemente, na forma de impostos sobre países que não fazem o suficiente para combater o trabalho forçado. Essa medida também já foi contestada na justiça.
Na segunda-feira, Carney lembrou Washington de que “um acordo mutuamente benéfico com os EUA é possível”. Mas, para que isso aconteça, a Casa Branca precisa abandonar suas táticas de chantagem: “O Canadá retornará à mesa de negociações quando os Estados Unidos retornarem à mesa de negociações com a atitude correta em relação à nossa indústria”.
A defesa da indústria nacional vai além de uma simples questão comercial. No sábado, Carney classificou os ataques econômicos que Trump está promovendo contra o país como parte de uma estratégia em sua busca para tornar o Canadá o 51º estado dos EUA. "As exigências dos EUA não são compatíveis com a relação entre dois estados independentes, mas sim visam a um dos objetivos declarados de Donald Trump: tornar o Canadá o 51º estado", explicou o líder canadense.
Segundo Carney, a equipe de negociação dos EUA introduziu novas condições de última hora que interferiram diretamente na capacidade de Ottawa de negociar com terceiros países. Washington procurou restringir o direito do Canadá de assinar acordos comerciais com outros países, um elemento-chave da estratégia de Carney para reduzir a dependência de seu vizinho do sul, cada vez mais instável.
Os EUA estão fazendo com o Chile algo do que tentaram com o Canadá: interferir na liberdade chilena de fazer negócios com terceiros (China). Isso porque o Chile, assim como o Canadá, é aliado, alinhado ideológico e tem tratados comerciais preferenciais. Imagina quem não tem … https://t.co/dkndsQz8k8
— João Paulo Charleaux (@jpcharleaux) August 24, 2026
“Desde o início, reconhecemos que os Estados Unidos mudaram”, afirmou Carney, observando também como Washington chegou a impor outras condições vinculativas ao uso do francês. “Não estávamos dispostos a comprometer nossa soberania, a proteção da língua francesa ou nossa cultura. Aos nossos colegas americanos, queremos deixar claro: para o meu governo e para o Canadá, essas questões nunca estiveram em discussão, apesar das tentativas dos Estados Unidos de fazê-lo até o último minuto”, disse ele.
Além disso, os EUA também teriam tentado excluir caminhões pesados fabricados em Ontário, como o Ford F-350 e o F-450, e o GM Silverado, das reduções tarifárias. Segundo Carney, isso teria, em última análise, tornado menos lucrativo para as montadoras continuarem produzindo esses veículos no Canadá.
Embora a Casa Branca não tenha confirmado oficialmente nenhuma das alegações de Carney, nem comentado a sugestão de que a agressão comercial faça parte de uma tentativa de enfraquecer o país e anexá-lo, a reação inicial de Trump à afronta foi bastante reveladora: "Ele quer os benefícios de ser um estado, sem ser um!"
Carney parece determinado a manter a pressão e a avaliar os limites da guerra comercial de Trump. Essa movimentação está sendo acompanhada de perto por outros países que também assinaram acordos bilaterais com os EUA, como a União Europeia.
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