O retorno do colonialismo: a direita populista apaga a história crítica. Artigo de Sergio Labate

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14 Agosto 2026

"Há um fio condutor ligando Ceuta a Trump. Cuja insistência sobre a "ameaça dos comunistas", deve ser lida também sob a perspectiva da neocolonização. Afinal, quem são "os comunistas" para Trump? Entre as muitas declarações sobre o assunto, uma me parece tão inquietante quanto esclarecedora: "Quanto àqueles que espalham mentiras marxistas sobre nosso patrimônio, dizendo aos nossos filhos que vivemos em terras roubadas ou que os nossos heróis eram opressores, estão fazendo algo muito pior do que caluniar o nosso passado. Estão caluniando e atacando o nosso futuro", escreve Sergio Labate, professor de filosofia na Università di Macerata, Itália, em artigo publicado por Domani. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Não foi um simples episódio; é a confirmação de uma agenda precisa: aquela de conquistar e dominar mais uma vez o mundo dos "outros", sem escrúpulos ou limites. Desse ponto de vista - e pela enésima vez - fica evidente que Trump e Meloni perseguem a mesma agenda cultural. A história crítica do Ocidente sobre si mesmo: esse é o verdadeiro inimigo deles. É prudente não baixar a guarda em relação a Ceuta, por muitas boas razões.

E não apenas as de curto prazo: a enésima demonstração de como a UE se tornou "um projeto contra a Europa", que prefere seguir as direitas populistas em vez de defender sua própria tradição recente de acolhimento (a essa altura, talvez, apenas mitificada), ou o testemunho do uso desumano do fenômeno migratório para fins geopolíticos.

Tudo isso retornará em breve, pois faz parte de uma transformação sistêmica na lógica que norteia as políticas internacionais. Além dessas considerações necessárias, Ceuta também serve como um teste de bancada para reconhecer uma mudança de paradigmas culturais. De fato, nunca como nesse caso, estão claramente à obra formas de racionalidade política que pertencem à agenda neocolonial do Ocidente.

Regressão cultural

Por pura coincidência, justamente nas mesmas semanas em que Meloni destaca o perigo de uma "invasão" de migrantes em grande escala, eu estava viajando pela América Latina, onde a narrativa das invasões não é apenas um exercício retórico, mas uma memória sangrenta. A história de uma conquista violenta que aniquilou identidades culturais, matou milhões de seres humanos e explorou territórios com instinto predatório mascarado de superioridade moral.

Desse canto do mundo, parece não apenas irrealista, mas também desrespeitoso, ouvir que aqueles que construíram sua superioridade histórica com base na violência sistemática invoquem agora o perigo das invasões por parte dos migrantes que se deslocam não para aniquilar histórias sociais, identidades coletivas e pessoas, mas para assegurar um mínimo de dignidade para seus próprios projetos de vida.

Este é o ponto que gostaria de enfatizar: após décadas em que os conquistadores tomaram distância de suas próprias ações, reconhecendo a história de suas múltiplas colonizações como a história de seus próprios erros, testemunhamos hoje um retrocesso cultural. Não apenas invertemos os termos da questão - os conquistadores gritam indignados que estão querendo conquistá-los e, dessa forma, voltam a colonizar não apenas economicamente o mundo - mas também renegamos um capítulo da história crítica que dávamos como fechado.

A ilusão de Todorov

Fomos otimistas demais. Todorov, para citar o exemplo mais famoso, foi um desses otimistas; há mais de quarenta anos, ele encerrava seu A Conquista da América - um dos manifestos dessa história crítica que o Ocidente era capaz de escrever naqueles anos - com estas palavras: "Acredito que esse período da história europeia esteja chegando ao fim. Os representantes da civilização ocidental já não acreditam mais tão ingenuamente em sua superioridade, e o movimento de assimilação por parte da Europa está desaparecendo."

O otimismo neoiluminista que impulsionava sua previsão dissolveu-se completamente. Algo grave aconteceu diante de nossos olhos se os representantes da civilização ocidental se tornaram, hoje, figuras como Trump e Meloni, von der Leyen e Vannacci. Se retóricas antiquadas - a superioridade de nossa cultura, a legitimidade de sua agenda violenta e assimilacionista - não apenas voltam a ser readmitidas no discurso público, mas se tornaram dominantes e hegemônicas. Se o espectro das "invasões migratórias" é invocado para legitimar projetos de neocolonização talvez lhes dando o inquietante rótulo de "remigração".

Há um fio condutor ligando Ceuta a Trump. Cuja insistência sobre a "ameaça dos comunistas", deve ser lida também sob a perspectiva da neocolonização. Afinal, quem são "os comunistas" para Trump? Entre as muitas declarações sobre o assunto, uma me parece tão inquietante quanto esclarecedora: "Quanto àqueles que espalham mentiras marxistas sobre nosso patrimônio, dizendo aos nossos filhos que vivemos em terras roubadas ou que os nossos heróis eram opressores, estão fazendo algo muito pior do que caluniar o nosso passado. Estão caluniando e atacando o nosso futuro."

Por esse ponto de vista - e pela enésima vez - fica evidente que Trump e Meloni perseguem a mesma agenda cultural. A história crítica do Ocidente sobre si mesmo: esse é o seu verdadeiro inimigo.

Já não se trata apenas de defender um passado que parecíamos ter deixado para trás definitivamente - a doce ilusão de Todorov - mas de preparar um futuro que legitime uma nova violência, uma nova colonização.

Visto das margens do império, onde as cicatrizes do nosso passado violento continuam indeléveis, o caso de Ceuta é mais do que um simples episódio; é a confirmação de uma agenda precisa: conquistar e dominar novamente o mundo dos "outros", sem escrúpulos ou limites. Os conquistadores tornaram-se novamente os representantes da nossa civilização.

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