"Além do salário condigno, os(as) profissionais e trabalhadores(as) da educação necessitam ser concursados, colocando fim a um dos meios da precarização do trabalho docente através dos contratos temporários, os quais também são responsáveis pelo temor de se posicionar perante os abusos e injustiças, podendo perder o já frágil vínculo empregatício, mesmo que sem nenhum direito trabalhista, como também contribuem para fragmentar ainda mais o corpo docente no campo das lutas por melhores condições de salário e trabalho", escreve Iael de Souza.
Iael de Souza é professora adjunta da Universidade Federal do Ceará (UFC). Pesquisadora do Núcleo de Estudos Trabalho, Saúde e Subjetividade (NETSS), Unicamp/SP, Faculdade de Educação.
Sabemos que a sétima arte tem grande papel em influenciar a opinião dos indivíduos sociais. Na verdade, seus meios contribuem para a formação do senso comum da sociedade, preparando o terreno para a aceitação e legitimação de projetos, novas ideias, conceitos, valores que terminam sendo internalizados e reproduzidos pelas pessoas, influenciando e condicionando suas ações e modos de ser, agir, sentir, pensar nos diversos locais em que convivem.
As séries fazem parte desses meios de comunicação de massa. As coreanas, japonesas que tematizam a questão escolar e dos escolares, em sua maioria crianças e adolescentes, evidenciam as práticas de bullying entre estudantes, assédios variados entre estudantes e entre estudantes/professores, professores/estudantes, denunciando uma prática que aparentemente foi banalizada, “normalizada”, já que não há medidas efetivas de enfrentamento, apenas paliativos e lamentações pelas agressões, violências, suicídios, ocorridos na grande mídia.
No Brasil, por sua vez, as notícias de professores(as) esfaqueados(as) em escola de educação básica; de morte por infarto fulminante do miocárdio; de professores(as) ameaçados(as) por estudantes, etc. aparecem, com muita parcimônia, em jornais e nos sites virtuais. Apesar de “não chegar ao nível” – o problema é que muita coisa é abafada, não vira notícia – do que é retratado nas séries coreanas, japonesas, por aqui os casos vão se tornando cada vez mais aterradores e uma tendência se apresenta de piora no quadro geral, como exposto pelo Observatório Nacional da Violência contra Educadores, da Universidade Federal Fluminense (UFF), em pesquisa realizada em 2025.
A série Adolescência, uma produção britânica, causou grande comoção e repercussão, demonstrando que os fenômenos acima elencados estão se espalhando como contágio, incitando reflexões e debates, embora nada além disso. Uma convicção se coloca: é necessário perscrutar e identificar as causas que estão engendrando-os. Ademais, também é preciso indagar sobre as mensagens subliminares passadas pelas séries.
Sobre o primeiro ponto, a década de 1990 deve ser tomada como marco. É justamente a partir dela que o projeto político-econômico-moral (Brown, 2019) do capitalismo tardio, em seu estágio neoliberal, eleva a enésima potência os valores que fundamentam o liberalismo: o individualismo, o hedonismo, o imediatismo, utilitarismo, pragmatismo, a competitividade e concorrência extremada, a guerra de “todos contra todos”, o presenteísmo que apaga o passado e o futuro do vir a ser histórico-social.
Uma dessensibilização, um embrutecimento degenerador vão se apossando dos indivíduos sociais, de modo que as neuroses são sobrepujadas pelas psicoses (Safatle, 2021) e as relações sociais são afetadas por diferentes níveis e graus de “psicopatia”, produzindo uma “sociabilidade psicopata”. O problema é que o transtorno da personalidade antissocial (indivíduo psicopata) não tem cura, apenas tratamento. No entanto, ao atingir certo nível e grau, ou seja, casos de psicopatia clássica, severa, não há o que fazer, o comportamento não pode ser controlado, nem revertido de alguma forma. O filme Laranja Mecânica é um bom exemplo que problematiza a questão da psicopatia e seus níveis, o tratamento aplicado na tentativa de ressocialização, a pressão da opinião pública sobre seus resultados, a reversão realizada e o retorno aos atos perversos, bárbaros, desumanos, absurdos do personagem principal. Não há espaço aqui para sua análise apurada, mas fica a indicação para reflexão, que dá “pano pra manga”.
O triunfo do pessimismo e da sensação de “sem saída” poderia nos remeter ao Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens, de Jean Jacques Rousseau. O ser humano não nasce nem bom, nem mau. A sociedade política é que o degenera e corrompe, afinal, “o estado social, enquanto convivência interindividual e enquanto elemento coletivo introduzido no comportamento individual, não é responsável pela miséria do homem atual, que resulta do estado civil, da sociedade política” (Pinto; Bozola, 2025, p. 6). Na sociedade civil, o ser humano pode ser afetado por embrutecimento e degeneração, podendo chegar a um estágio irreversível, do qual não se tem como resgatar.
Ainda por esse prisma do “pessimismo da razão”, A Metamoforse, de Franz Kafka, também pode ser trazida à baila, uma vez que o personagem principal, ao longo da história, vai se transformando num monstruoso inseto e vai se sentindo muito mais a vontade e melhor com essa mutação, interrogando-nos, de forma inquietante, sobre o perigo de nos acostumar, de normalizar nossa própria coisificação.
Enquanto educadora e trabalhadora/profissional da educação, procuro acompanhar e assistir séries, documentários e filmes que versam sobre escola, estudantes, professores, sistema de ensino, políticas educacionais, relação aluno/professor, e assim sucessivamente. Dentre elas, a mais recente que chamou minha atenção foi “Aprendendo a Lição”, uma produção coreana. A série contém dez episódios. Problematiza as formas de agressões, assédios, perseguições, violências físicas e mentais – dentre outras – sofridas por estudantes e professores(as) nas suas relações.
Como sinopse, pode-se dizer que é a tentativa de um político, no caso, um ex-deputado que se torna Ministro da Educação, de dar uma resposta efetiva à situação insustentável e lamentável vivida por muitas das escolas públicas-estatais, onde os(as) professores(as) e os(as) estudantes estão reféns de outros(as) estudantes (gangues, delinquentes, “psicopatas”), vivendo com medo, estresse permanente, ansiosos, em pânico, manifestos nos comportamentos e no adoecimento mental e físico, levando alguns deles(as) a tirar a própria vida.
Para enfrentar esses problemas, esse Ministro cria o Departamento de Supervisão Educacional, com leis próprias, distintas da regulação constitucional (um Estado de exceção), já que são necessárias outras medidas para lidar com as situações absurdas e perversas experimentadas pelos ocupantes das escolas.
Inicialmente, a equipe é formada pelo Ministro e por um inspetor. Este é um ex-oficial das forças especiais. No decorrer dos episódios, mais dois indivíduos passam a integrar a equipe: um especialista genial em computação (hacker) e uma outra ex-oficial, convocada pelo primeiro, que foi seu superior. A atuação dos inspetores e do Departamento recém-criado, embora tenha sido o resultado de um planejamento de dois anos, gera polêmicas e divide a opinião pública.
Quando assisti ao primeiro episódio, um sinal de alerta acendeu: um ex-oficial das forças especiais é o inspetor?! Seria uma forma de apelação nem tanto sutil à militarização das escolas?!!! Um perigo, já em curso no Brasil. Um apelo à revisão da menoridade penal dos considerados(as) “jovens infratores”? Outra resposta que não ataca a raiz do problema.
Também chama a atenção as ações e medidas tomadas pelo inspetor principal. Como dito, o Departamento tem seus próprios princípios e métodos, é um verdadeiro Estado de Exceção. Logo no primeiro episódio, ao aparecer na escola após denúncia recebida, o inspetor separa um estudante, que estava agredindo fisicamente outro no corredor, com um tapa, enquanto os demais colegas passavam ou assistiam e, por medo, faziam de conta que nada estava acontecendo.
O estudante agressor dá tapas e socos no outro estudante e o esbofeteia e, em seguida, pede que o agredido também lhe dê um tapa. Nesse meio tempo, ele leva um bofetão do inspetor. Ele fica meio aturdido com o tapa por ter se desiquilibrado e afastado. Recobrando-se, caminha até o inspetor. O restante dos estudantes já começa a se aglomerar para acompanhar o que está ocorrendo, celulares começam a aparecer para gravar o show. Ele pergunta se o inspetor é um professor. Este lhe dá outro bofete dizendo que deve se reportar as pessoas mais velhas pelo tratamento de senhor. Novamente, o estudante agressor é afastado com o impacto e cai. Se levanta, começa a se empolgar, e parte para cima do inspetor. Este se desvia dos golpes e dá outra bofetada. O estudante agressor é afastado e cai novamente. Levanta-se, avança novamente sobre o inspetor, leva outra bofetada e cai.
Estando caído, aparece o líder do grupelho e pergunta ao adulto quem ele é. Como a resposta do inspetor não é clara, deduz que seja um professor recém contratado e avisa que sendo professor não pode bater nos alunos e pede para os demais gravarem com seus celulares, sendo prontamente obedecido. O aluno que está no chão encara o inspetor e o provoca, dizendo que duvida que ele continue a bater nele com todos gravando. Ele ajuda o agressor a se levantar e diz que não pode recusar a oferta e o esbofeteia várias vezes, mesmo com o restante dos estudantes filmando.
Outros professores aparecem e intervém, perguntando quem ele pensa ser para agir daquela forma contra uma “criança”. No decorrer da conversa, ele se apresenta como inspetor do Departamento de Supervisão Educacional e, entre outras coisas, diz que de acordo com os princípios do departamento “não há limites quanto aos métodos de ensino. Só para deixar bem claro: se eles são do tipo que lhe ouvem, ensine com palavras. Se eles precisam de uma mão pesada, então vai com porrada”.
Polêmico, não?! Contudo, essa é apenas uma breve amostra. Vale à pena assistir a todos os episódios do seriado. Passemos a analisar/refletir/problematizar os fatos, afinal, é necessário combinar o “pessimismo da razão” com o “otimismo da vontade”, como defendido por Antonio Gramsci.
Recentemente, uma médica psiquiatra e professora titular da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), Elisabete Castelon Konkiewitz, gravou um vídeo, e o disponibilizou no Instagram, fazendo alguns apontamentos sobre a educação/instituição escolar, afirmando, a certa altura, que “as escolas se tornaram o pior local para trabalhar e conviver”. Apesar de não ser formada na área de educação, mas enquanto professora universitária e psicóloga/psiquiatra que atende professores(as), portanto, uma profissional da educação e da área da saúde mental, após tantos e recorrentes casos absurdos, resolveu fazer um desabafo, como define na sua gravação.
Identifica alguns aspectos problemáticos, tais como: o “desempoderamento” dos(as) professores(as); a desvalorização salarial; a perda de instrumentos disciplinares; o excesso de burocracia que massacra o trabalho educativo-pedagógico; ambientes físicos precários, deteriorados, superlotados e pouco adequados ao ensino-aprendizado; conflitos interpessoais escalares; aumento do adoecimento emocional entre os(as) profissionais da educação; excesso de telas, afetando e reduzindo a capacidade de atenção e concentração (Haidt, 2024) dos(as) estudantes; as mudanças nas estruturas familiares, fragilizando vínculos e diminuindo o suporte emocional oferecido às crianças e juventudes (Ferreira, 2022).
Valter Mattos da Costa, historiador que escreve com frequência matérias para o Instituto Conhecimento Liberta (ICL), também ratifica o “colapso da autoridade pedagógica” dos(as) professores(as), acentuadamente na educação básica, dizendo que “a sala de aula virou uma espécie de laboratório de resistência emocional”, já que “ensina-se como quem pisa em terreno minado: qualquer frase pode virar denúncia, qualquer aula pode virar recorte, qualquer conflito pode virar espetáculo”, sendo gravado/filmado, passado por edições e postado nas mídias digitais (TikTok; Shorts; Reels), distorcendo e descontextualizando os fatos. A violência simbólica passou por uma mutação digital. “A lógica da plataforma transforma sofrimento em circulação (...) as novas tecnologias alteraram profundamente a forma como a autoridade docente pode ser desafiada publicamente. (...) humilhação vira performance, sofrimento vira dado”.
A sala de aula se transformou em “meio estressor docente”, como apontado por Costa. “Em abril de 2025, a CNN Brasil noticiou estudo indicando que a violência escolar provocou pelo menos 47 mortes desde 2001 e trouxe dados do Ministério de Direitos Humanos e Cidadania: vítimas de violência interpessoal em escolas passam de 3,7 mil (2013) para 13,1 mil (2023), abrangendo estudantes, professores e outros membros da comunidade escolar” (“A retrospectiva que nenhum professor...”. Valter Mattos da Costa. ICL Notícias, 21/12/2025). Como sentencia Costa, analisando as denúncias realizadas no ano de 2025 sobre as formas de violência escolar, “em 2025 o que aparece é a consolidação de uma normalidade adoecida: trabalhar até quebrar, adoecer com culpa, voltar por necessidade, repetir o ciclo”. Ainda segundo o historiador, com tudo isso, “o que se desgasta não é apenas a figura do professor. É a própria ideia de mediação pedagógica. Sem autoridade mínima, não existe aprendizagem consistente. Existe apenas ruído”.
Esses aspectos, e os demais problematizados pelo seriado, exigem que se busque combater não tão somente as consequências, amenizando-as e tornando a situação da rede escolar mais tolerável, mas sim que nos aproximemos o mais possível da origem, da raiz deles. Ainda que não os solucionemos, já que exigiria uma revolução social radical superadora do atual modo de vida capitalista, há reivindicações e lutas que, ao serem mobilizadas, organizadas e realizadas, podem corroborar para retomar a educação escolar à sua importância e lugar social.
O primeiro ponto a ser visado, e que pode ser considerado como estando mais próximo à origem/raiz de vários dos problemas assistidos e vivenciados/experimentados, é a valorização salarial dos(as) profissionais e trabalhadores(as) da educação. O piso nacional aprovado em lei não é posto em prática, como bem sabido, pelos diferentes entes da federação. Por outro lado, ele é vergonhosamente insuficiente. Seria menos ultrajante se o cálculo do piso nacional docente (atualmente R$ 5.130, 63 para 40h semanais) tivesse como base referencial o salário necessário calculado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), que para o mês de maio de 2026 correspondia a cifra de R$ 7.999,44 ou, praticamente, R$ 8.000,00, o que denota a perversidade do valor do salário mínimo atual de R$ 1.621,00. Há que se ressaltar que esse valor reporta à cobertura de despesas básicas de uma família, sendo assim, muitas outras necessidades ficam de fora, como saúde, lazer, educação, etc.
Além do salário condigno, os(as) profissionais e trabalhadores(as) da educação necessitam ser concursados, colocando fim a um dos meios da precarização do trabalho docente através dos contratos temporários, os quais também são responsáveis pelo temor de se posicionar perante os abusos e injustiças, podendo perder o já frágil vínculo empregatício, mesmo que sem nenhum direito trabalhista, como também contribuem para fragmentar ainda mais o corpo docente no campo das lutas por melhores condições de salário e trabalho.
Entretanto, não basta ser concursado(a), é necessário que sejam integrados como “dedicação exclusiva” (Paro, 2012; Souza, 2025). Isto significa que não poderão ter nenhum outro vínculo empregatício além daquele conquistado via concurso público, pressupondo, para isso, um salário condizente. Por conseguinte, estando apenas em uma instituição de ensino – e não em três, quatro ou até cinco escolas diferentes, como acontece – poderão se voltar com mais atenção às necessidades e questões colocadas pela referida comunidade escolar, construindo um trabalho e criando ações, projetos de média e longa duração, podendo avaliar os resultados, os avanços e recuos, além de maior integração com o corpo docente e a possibilidade de conhecimento e aplicação do projeto político-pedagógico da escola, isto apenas para elencar alguns dos ganhos possíveis, sendo que há muitos mais.
Os(as) professores(as) também precisam ter autonomia didático-pedagógica para preparar seu plano de ensino, suas aulas e atividades, libertando-se das prescrições e direcionamentos realizados atualmente pelas Secretarias de Educação, que controlam tudo o que fazem dentro da sala, fora dela e que tipos de atividades desenvolvem. Há um calendário do ano letivo que programa todas as ações/atividades que deverão ser executadas através do trabalho educativo-pedagógico, incluindo as temáticas a serem trabalhadas.
As reuniões pedagógicas precisam, de fato, ser pedagógicas, e não administrativas-burocráticas, como terminam sempre sendo, na verdade. Já dizia Emile Durkheim, em sua obra Educação e Sociologia, que os(as) docentes necessitam desenvolver as reflexões pedagógicas, porque, sem elas, não há corpo docente, não há unidade da diversidade, não há condução consciente e consequente na construção do projeto político-social de sociedade, de homem e de mundo. Tanto é assim que hoje, o que prevalece, são os interesses e necessidades da Pedagogia Empresarial do Capital (Souza, 2020), através da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e das reformas implementadas na educação desde 1990, culminando com os anos de 2016 e 2017 (Souza, 2025).
Também é preciso garantir que todos(as) os(as) profissionais e trabalhadores(as) da educação tenham consciência, clareza sistemáticas e rigorosas, da natureza e papel da educação (Lukács, 2013); (Saviani, 2008, 2007, 2012); do papel e limites de atuação dos(as) professores(as)/educadores(as) (Saviani, 2007; Young, 2010); do significado do ato de ensinar e do processo ensino-aprendizagem (Leontiev, 1978; Duarte, 2021, 2007, 2006, 2001); do para que servem as escolas (Young, 2007; 2010); das especificidades da relação aluno/professor (Saviani, 2012; Young, 2007; 2010).
Esse conhecimento independe de área de formação, se das ciências sociais/humanas ou ciências da natureza, pois é comum a todo(a) aquele(a) que envereda pelos caminhos da docência. Essa consciência e clareza, construídas por uma reflexão/análise/problematização científica, histórica, filosófica, muniria os(as) profissionais e trabalhadores(as) da educação para poder combater e enfrentar historicamente e cotidianamente, todas as formas de imposições abusivas, perversas e descontextualizadas, que lhes são cobradas por Secretarias, Regionais, coordenadores(as), diretores(as), gestores(as), pais, estudantes, enfim, pela comunidade escolar e pela própria sociedade civil, lutando de forma mais eficaz contra elas, porque com argumento e fundamentação histórico-social-científica sobre os pressupostos dessas(es) mesmas(os) metodologias, conteúdos, valores, ideias, hábitos escolares/educativos.
Assim, poder-se-ia combater o falso universal propagado que “boa educação” é aquela do conhecimento útil, pragmático, ligado às práticas sociais cotidianas, locais, às experiências dos indivíduos sociais. Esse é um grande desserviço das pedagogias escolanovistas e das pedagogias do “aprender a aprender” (Duarte, 2006, 2007), presente no imaginário dos(as) docentes e de grande parte dos(as) educadores(as). Como demonstram Michael Young, Newton Duarte, Emile Durkheim, Dermeval Saviani, Alex Leontiev, Leon Vigotski, dentre outros, o conhecimento, para ser bom, não precisa necessariamente ser útil, prático, imediato, ao contrário, o conhecimento tem valor em si mesmo, uma vez que auxilia no desenvolvimento e maturação cognitiva e intelectual/moral dos seres humanos, capacitando-os de produzir as abstrações e mediações necessárias para compreender o mundo, posicionar-se perante as situações concretas vividas e, quando necessário, transformá-lo. Isto para expor apenas um dos seus aspectos essenciais, pois há outros.
Esta verdade precisa ser difundida de norte a sul, de leste a oeste, desmontando e desmentindo a falácia enraizada do pragmatismo, utilitarismo, imediatismo, presenteísmo que se imputa ao conhecimento escolar. Este, ao contrário, é “não-pragmático”, “não-utilitário”, “não-imediato”, como tão bem expõe Young (2007; 2010).
Como frisa Young (2010, p. 187), “a diferenciação entre os campos e entre o conhecimento teórico e o quotidiano (é) um traço fundamental daquilo que é a educação”. Não se está, com isso, negando que o conhecimento não-escolar tenha um papel a desempenhar no processo ensino-aprendizagem ao realizar a diferenciação do conhecimento. Pelo contrário, “o currículo tem que levar em consideração o conhecimento local e cotidiano que os alunos trazem para a escola, mas esse conhecimento nunca poderá ser uma base para o currículo. A estrutura do conhecimento local é planejada para relacionar-se com o particular e não pode fornecer a base para quaisquer princípios generalizáveis. Fornecer acesso a tais princípios é uma das razões principais pelas quais todos os países tem escolas” (Young, 2007, p. 1299).
É necessário esclarecer que dificilmente se faz uma relação imediata e pragmática entre pensamento e ação, porque, essencialmente, é preciso compreender “as relações, constituídas histórica e dialeticamente, entre conhecimentos, concepções de mundo e práticas sociais” (Duarte, 2021, p. 95 e 96). Isto porque “as relações entre o trabalho educativo e a prática social são complexas e mediadas, o mesmo acontecendo com as relações entre o ensino dos conteúdos escolares e a formação/transformação das ideias dos alunos sobre a natureza, a sociedade, a vida humana e a individualidade” (Duarte, 2021, p. 16). O problema é que muitos(as) professores(as)/educadores(as) desconhecem esse fato objetivo.
Obviamente que não se conseguirá, aqui, aventar todas as determinações consideradas pertinentes e mais aproximativas ao âmago da problemática, mediante a racionalidade radical. Destarte, os condicionantes aqui elencados e brevemente tangenciados talvez possam nos auxiliar a reavaliar quais devam ser as reivindicações mais prementes e mais abrangentes, no sentido de permitir atacar outros problemas a partir da conquista efetiva deles, como é o caso da valorização salarial; dos concursos para o magistério com dedicação exclusiva, para todos os níveis da educação; de condições de trabalho dignas, com planejamento didático-pedagógico-educativo feito pelos próprios professores (sem plataformas, sem imposições burocráticas – violência burocrática do sistema educacional gerencialista), além dos demais pontos arrolados.
Se conseguíssemos garantir essas condições de vida e trabalho tão necessárias à saúde física e mental, poderíamos encontrar tempo – o que não se tem, ainda mais com o fim das fronteiras entre lar e trabalho devido os meios digitais; além de ser um fator essencial para a construção/realização da formação humana – para refletir, coletivamente, com a comunidade escolar, como enfrentar os demais problemas (socioculturais, políticos, econômicos) que também se manifestam nas instituições escolares, atuando, de fato, como um coletivo organizado.
Senão, as distopias, ao invés de servirem de advertência histórica, o que seria o seu potencial para gerar as utopias possíveis, entendidas enquanto um projeto realizável, porém, inacabável, já que tendente ao aprimoramento constante, poderão produzir aquilo que também anunciam: o futuro apresentado em germe no presente: o pessimismo e seu cenário tétrico.
Enfim, as respostas e enfrentamentos devem ser dadas e pensados pelo coletivo dos(as) profissionais e trabalhadores(as) de todos os níveis da educação – não por técnicos e especialistas de áreas estranhas à educação, o que geralmente acontece, a começar pelos ocupantes do próprio Ministério da Educação, com raríssimas exceções –, com a colaboração das diversas áreas do conhecimento humano (ciência se faz em rede), de modo que se possa alcançar e atacar a raiz dos problemas, já que todos remetem ao modo de organização e produção da estrutura social.
"Barbárie, se tivermos sorte" é uma expressão utilizada por István Mészáros em sua obra Socialismo ou Barbárie, em menção à assertiva de Rosa Luxemburgo ao seu posicionamento contra a I Guerra Mundial, que deveria ser evitada de qualquer maneira a fim de evitar o fratricídio entre os seres humanos: “Socialismo, ou Barbárie!”
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