05 Mai 2026
"O desafio, portanto, é mais exigente: reconstruir o sentido da formação em meio à cultura do imediatismo. Isso implica recuperar a ideia de que o conhecimento não é apenas útil, mas constitutivo do humano. Que aprender não é acumular informações, mas ampliar a capacidade de compreender o mundo e a si mesmo", escreve Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor. É formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora (MG).
Eis o artigo.
A realidade atual é complexa, difícil e desafiadora. Vivemos um tempo em que o conhecimento já não ocupa, de forma evidente, o lugar de mediação privilegiada entre o ser humano e o mundo. Aquilo que durante séculos foi compreendido como caminho de formação, amadurecimento e construção de sentido passa a ser constantemente relativizado por uma cultura que valoriza mais o acesso do que a compreensão, mais a informação do que a sabedoria. O saber, que exigia tempo, silêncio e elaboração, é agora pressionado a se tornar rápido, disponível e imediatamente aplicável.
Essa transformação não é neutra. Ela altera profundamente a forma como os sujeitos se relacionam com o aprender. O conhecimento deixa de ser experimentado como processo e passa a ser consumido como produto. Em vez de um percurso que forma, ele se torna um recurso que se utiliza e, muitas vezes, se descarta. O que está em jogo não é apenas uma mudança pedagógica, mas uma reconfiguração da própria experiência humana diante do mundo.
O imediatismo, nesse contexto, não é apenas uma característica comportamental, mas uma lógica estruturante da cultura contemporânea. Tudo precisa acontecer agora, fazer sentido agora, gerar resultado agora. O tempo longo da formação, que envolve dúvida, esforço, erro e maturação, entra em choque direto com essa exigência. Forma-se, assim, uma tensão permanente: a educação pede continuidade, enquanto a cultura exige instantaneidade.
É nesse cenário que se insere o atual descrédito das instituições educativas. A escola e a universidade passam a ser percebidas como lentas, distantes e, muitas vezes, desconectadas da realidade vivida pelos estudantes. Não porque necessariamente estejam erradas em seus fundamentos, mas porque operam em um ritmo e com uma finalidade que já não são imediatamente reconhecidos como valiosos.
A fala do influenciador Felca no Roda Viva do dia 23/03/2026, apenas explicita essa ruptura. Quando ele afirma que sua fala atinge ambientes e àqueles que os professores e doutores não chegam, o que está implícito não é uma superioridade intelectual, mas uma adequação mais eficiente à lógica do presente: a lógica do imediato, do consumo rápido e da validação instantânea.
O estudante contemporâneo não está, em primeiro lugar, desinteressado pelo conhecimento. Ele está imerso em um mundo que constantemente dissolve o valor do conhecimento enquanto experiência formativa. A cultura dominante não ensina a buscar sentido: ensina a buscar estímulos. Nesse contexto, a escola se vê diante de um desafio radical: formar sujeitos em uma realidade que desestimula a própria formação.
O imediatismo não é apenas uma característica comportamental; é uma estrutura cultural. Tudo precisa ser rápido, acessível, leve e, sobretudo, útil no curto prazo. O tempo da elaboração, da dúvida, da construção paciente, elementos essenciais do processo educativo, passa a ser percebido como atraso. O saber deixa de ser um caminho e se transforma em um produto.
É nesse ponto que a cultura de massa exerce um papel decisivo. Não se trata de demonizá-la, mas de reconhecer seu funcionamento: ela opera pela simplificação, pela repetição e pela intensificação emocional. Ela não exige aprofundamento, exige adesão. E, ao ser constantemente enaltecida, estabelece um novo critério de valor: o que circula mais vale mais.
Nesse ambiente, a formação perde espaço porque se torna, aos olhos de muitos estudantes, um investimento de retorno incerto. Por que dedicar anos ao estudo sistemático, à leitura, à construção intelectual, se o reconhecimento social pode ser alcançado por outros meios mais rápidos e visíveis? Essa não é uma pergunta superficial, mas uma questão estrutural da nossa época.
Zygmunt Bauman já indicava que vivemos em uma modernidade líquida, na qual tudo o que é duradouro se torna suspeito. A formação, por sua própria natureza, exige permanência, continuidade e compromisso, exatamente o oposto da lógica vigente. Por isso, ela perde espaço não por falha interna apenas, mas por incompatibilidade com o espírito do tempo.
De modo ainda mais incisivo, Byung-Chul Han aponta que vivemos em uma sociedade do desempenho, na qual o sujeito não busca sentido, mas produtividade. O estudante não pergunta mais “o que isso significa para a minha vida?”, mas “para que isso serve agora?”. Essa mudança não é pedagógica, é antropológica.
E é aqui que a escola enfrenta sua maior dificuldade: como oferecer sentido em uma cultura que não suporta o tempo necessário para construí-lo? A resposta não pode ser a adaptação acrítica. Quando a escola tenta competir com a lógica do entretenimento, ela perde sua identidade. Ao transformar tudo em “conteúdo leve”, ao reduzir o conhecimento a fragmentos consumíveis, ela não resolve o problema, apenas o reproduz. Por outro lado, manter-se indiferente também não é solução. Ignorar o universo simbólico dos estudantes significa aprofundar o abismo entre a experiência vivida e a experiência escolar.
O desafio, portanto, é mais exigente: reconstruir o sentido da formação em meio à cultura do imediatismo. Isso implica recuperar a ideia de que o conhecimento não é apenas útil, mas constitutivo do humano. Que aprender não é acumular informações, mas ampliar a capacidade de compreender o mundo e a si mesmo.
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