29 Abril 2026
"Talvez a crise contemporânea não seja excesso de regras, mas carência de referências. E talvez uma das tarefas mais urgentes da educação seja precisamente reabilitar o sentido do limite, não como repressão, mas como condição da liberdade, da convivência e do humano", escreve Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor. É formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora (MG).
Eis o artigo.
Há uma crise silenciosa atravessando a sociedade contemporânea, e ela não se resume à política, às instituições ou às transformações culturais. Trata-se de uma crise dos limites. Em nome de uma compreensão distorcida de liberdade, passou-se a suspeitar de toda norma, a rejeitar toda autoridade e a interpretar qualquer contenção como opressão. O que antes era reconhecido como condição da convivência: regras, responsabilidades, hoje, frequentemente aparece agora como obstáculo à afirmação individual.
Tal fenômeno torna-se especialmente visível na escola. Não por acaso, o espaço educativo converteu-se em um dos lugares mais agudos da crise de autoridade de nosso tempo. A dificuldade crescente de sustentar regras básicas de convivência, a resistência de estudantes a qualquer forma de correção, a fragilidade do respaldo institucional aos educadores e a tendência de converter toda exigência em violência simbólica revelam algo maior que um problema disciplinar: revelam uma mutação cultural.
Durante muito tempo, educar significou também introduzir o sujeito na experiência do limite: aprender a esperar, escutar, responder, respeitar, frustrar-se. Hoje, porém, sob o impacto de uma cultura marcada pelo imediatismo, pela lógica do consumo e pela validação constante do eu, o limite tende a ser percebido como negação do desejo. Mas sem a experiência do limite não há formação ética.
Hannah Arendt percebia que a crise da educação emerge quando deixamos de assumir responsabilidade pelo mundo que devem transmitir aos mais jovens. Educar, para ela, é apresentar um mundo comum e introduzir nele os recém-chegados. Isso exige autoridade, não como coerção, mas como responsabilidade. Quando a autoridade se dissolve, o que se fragiliza não é apenas a escola, mas a própria continuidade do mundo compartilhado.
Immanuel Kant advertia que a liberdade humana não nasce da ausência de disciplina, mas da formação capaz de submeter impulsos a princípios. Uma geração educada para não tolerar frustrações dificilmente desenvolverá autonomia; tenderá antes a confundir liberdade com espontaneidade.
Mas a crise dos limites na escola não é causa isolada, é sintoma de uma condição social mais ampla. Vivemos em uma sociedade que, progressivamente, relativizou mediações antes estruturantes: família, tradição, instituições, autoridade pública. Zygmunt Bauman chamou isso de liquefação dos vínculos: relações frágeis, compromissos provisórios, identidades instáveis. Nesse contexto, o limite aparece como peso, e não como estrutura.
Ao mesmo tempo, como observa Byung-Chul Han, a sociedade contemporânea já não opera prioritariamente pela proibição, mas pela sedução do desempenho ilimitado. Tudo parece possível, tudo deve ser realizado, tudo pode ser exposto. Paradoxalmente, a cultura que rejeita limites externos produz novas formas de servidão interna.
Essa erosão dos limites atinge a vida social em profundidade. Quando toda norma é negociável, toda autoridade é desacreditada e todo dever é percebido como ameaça à autonomia, o espaço público perde consistência. A convivência passa a ser regulada menos pelo reconhecimento mútuo e mais pela disputa entre vontades.
É aqui que o velho debate iluminista retorna com força. John Locke afirmava que onde não há lei, não há liberdade. Montesquieu sustentava que a liberdade consiste em fazer o que as leis permitem, não o que o desejo impõe. E Jean-Jacques Rousseau via na submissão à lei justa não uma perda, mas a própria forma política da liberdade.
Essas formulações parecem hoje profundamente contraculturais. Porque recordam que a civilização não se sustenta apenas em direitos, mas em limites; não apenas em escolhas, mas em responsabilidades.
A ausência de limites não produz sociedades mais livres, mas mais frágeis. Onde não há critérios, prevalece a arbitrariedade. Onde toda autoridade é corroída, instala-se a desorientação. Onde nenhuma frustração pode ser suportada, qualquer contrariedade se converte em conflito.
A escola sente isso primeiro porque é o lugar onde a sociedade ensaia seu futuro. Por isso, discutir limites hoje não é defender nostalgia disciplinar nem restaurar formas autoritárias de controle. É recolocar uma questão antropológica e política fundamental: como formar sujeitos livres sem experiência da responsabilidade? Como sustentar uma vida comum sem normas compartilhadas? Como educar para a cidadania se toda obrigação é percebida como violência?
Talvez a crise contemporânea não seja excesso de regras, mas carência de referências. E talvez uma das tarefas mais urgentes da educação seja precisamente reabilitar o sentido do limite, não como repressão, mas como condição da liberdade, da convivência e do humano. Porque quando os limites desaparecem, não se amplia necessariamente a liberdade; frequentemente se dissolve o mundo comum que a torna possível.
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