A revelação de Jesus desencadeia um conflito sobre quem são os seus escolhidos para recebê-la. Comentário de Eduardo de la Serna

Foto: Paul Zoetemeijer | Unsplash

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03 Julho 2026

Em meio aos oráculos do profeta, irrompe um cântico que louva um rei humano que surpreenderá a todos com sua humildade e firmeza. É por meio dele que a paz chegará às nações, na figura de um rei desarmado, e que essa paz alcançará toda a Terra, sem limites geográficos nunca vistos.

O comentário é de Eduardo de la Serna, explicando as leituras do 14º Domingo do Tempo Comum, ciclo A do Ano Litúrgico, publicado por Religión Digital, 29-06-2026.

Eduardo de la Serna é padre argentino e membro do Grupo de Padres na Opção pelos Pobres.

Eis o comentário.

Leitura da profecia de Zacarias 9,9-10

Resumo: Em meio aos oráculos do profeta, irrompe um cântico que louva um rei humano cuja humildade e firmeza surpreenderão a todos. Por meio dele, a paz chegará às nações, personificada por um rei desarmado, e se estenderá por toda a Terra, alcançando fronteiras geográficas nunca vistas.

O texto de Zacarias surge em meio a uma série de oráculos conflitantes sobre povos vizinhos. Nesse contexto, a "filha de Sião" é mencionada, referindo-se a um "rei" que está por vir. Mas esse rei é humano, não Deus, como ocorre em muitos textos escritos após o exílio; um elemento novo em uma época em que não havia mais reis em Israel. Esse rei é descrito como "justo, vitorioso e humilde". Para alguns estudiosos, ele se assemelha à figura de Isaías 53, pois Deus o torna justo, o salva e ele é humilde (vv. 4, 6, 7, 10). Os primeiros líderes de Israel montavam jumentos, como este: Gênesis 49,10-11; Juízes 5,10; 10,4; 12,14; 2 Samuel 19,27; cf. 1 Reis 1,33, 38. A humildade certamente contrasta com o que era usual na monarquia, que era luxo e pompa (1 Reis 10,14-29; Jeremias 17,25; 22,4).

Mas essa humildade não entra em conflito com a firmeza que o rei demonstrará ao lutar contra a guerra e a violência. Para esse fim, ele confronta o próprio povo de Deus (os chifres de Efraim — do norte — e os cavalos de Jerusalém — do sul), como Miquéias 5,9-10 já havia indicado. Ele (e não Deus) proclamará “paz às nações” (Isaías 2,2-4 // Miqueias 4,1-3) e — sem um exército — alcançará um território que nem mesmo Davi jamais possuiu (de mar a mar, do rio até os confins da terra).

Humildade, por um lado, e firmeza, por outro, parecem paradoxais. Espera-se aqui de um rei humano coisas tradicionalmente reservadas a Deus. O messianismo bíblico começa a se desdobrar, embora este seja — provavelmente — o último texto antes do início do período intertestamentário. Por outro lado, talvez o texto deva ser visto como uma crítica ao poder dos sacerdotes, incentivando a esperança em um rei vindouro.

Leitura da carta do apóstolo São Paulo aos cristãos de Roma 8, 9. 11-13

Resumo: Vida e morte, espírito e carne são apresentados ao leitor como dois caminhos. O crente tem o caminho da vida aberto diante de si porque é guiado pelo Espírito de Deus, o Espírito vivificante.

Durante cinco domingos consecutivos, a partir de hoje, leremos o importantíssimo capítulo 8 da Carta aos Romanos. Nele, São Paulo conclui a primeira parte da carta, estabelecendo, fundamentalmente, um contraste entre o ser humano fraco, a lei e o pecado que apresentou no capítulo 7. Diante dessa fraqueza, a pessoa se vê sem saída: “Quem me livrará?” (v. 24), “Não faço o bem que quero, mas o mal que não quero” (v. 19), “o pecado habita em mim” (v. 17). Esse ser humano sem saída encontra outro caminho:

Pois o que a lei era incapaz de fazer, por estar enfraquecida pela carne, Deus o fez, enviando seu próprio Filho em semelhança da carne pecaminosa, como oferta pelo pecado. E assim condenou o pecado na carne, para que a justa exigência da lei fosse plenamente cumprida em nós, que não vivemos segundo a carne, mas segundo o Espírito (8,3-4).

Este ser humano, que caminhava para a morte, de repente encontra o caminho para a vida aberto, algo expresso — como frequentemente acontece com Paulo — nos termos “carne” e “espírito”. Com esse tema em mente, é apropriado ler este capítulo (e os que se seguem nos próximos domingos).

Os termos “carne” e “espírito” são o que ditam o ritmo dessa unidade, mas não devem ser entendidos — como já apontamos em outras ocasiões — no sentido do dualismo helênico, mas sim em um sentido “escatológico”, isto é, apontando para a chegada dos últimos tempos — iniciados na ressurreição de Cristo, à qual estamos plenamente unidos pelo batismo — nos quais o espírito é o dom preeminente recebido por aqueles que creem. Aqueles que não creem, por outro lado, estão precisamente diante daquela fraqueza desesperadora da qual falei no capítulo 7.

Poderíamos parafrasear assim: “Vocês não estão no tempo da carne, mas no tempo do Espírito”; quem tem o seu espírito pertence a Cristo (é de Cristo). O versículo 10 — omitido no texto litúrgico — refere-se à morte, que é consequência do pecado (5,12, 21; 6,23; 7,13; 8,2), e à vida, fruto do Espírito pela justiça que vem da fé (1,17; 3,22, 25, 26, 28, 30; 4,3, 5, 9, 11, 13; 5,1…).

Este Espírito que Deus nos deu é vivificante, como Ele já demonstrou ao ressuscitar Jesus dentre os mortos; portanto, nossos corpos, que irão à morte, receberão este mesmo Espírito vivificante (1 Coríntios 15,45).

Assim, os crentes não devem nada à carne, mas ao espírito, e, portanto, enfrentam duas opções (dois caminhos, como é comum na literatura bíblica): vida e morte, dependendo de viverem “segundo a carne” ou “segundo o espírito” (v. 13).

Evangelho segundo São Mateus 11,25-30

Resumo: Três breves unidades colocam Jesus em conflito com as autoridades judaicas da época de Mateus, mostrando a predileção de Jesus, e nele do Pai, pelos pequeninos, aqueles que são oprimidos pelos fariseus.

Em meio a uma série de textos nos quais Jesus encontra pessoas que não o compreendem completamente (algumas mais, outras menos, mas nenhuma completamente), Mateus apresenta estes três ditos de Jesus encontrados no Evangelho de hoje. O texto começa afirmando "naquele tempo" (en ekeínô tô kairô), e a unidade seguinte (12,1) começa com a mesma fórmula, marcando assim o limite do texto em 11,25-30, conforme apresentado na liturgia.

As três passagens são facilmente reconhecíveis: na primeira, Jesus se dirige a Deus (vv. 25-26), na segunda, Jesus fala ao seu público sobre seu relacionamento com Deus como Pai e Filho (v. 27) e, finalmente, um convite ao público para receber a mensagem de Jesus (vv. 28-30).

I) vv. 25-26: No contexto da narrativa, Jesus acaba de apontar que sua mensagem não foi recebida em Corazim, Betsaida e Cafarnaum, cidades com importantes comunidades rabínicas na época em que o Evangelho de Mateus foi escrito. Em contraste com esses “ sábios e instruídos ” (sofôn kaì synerôn) que se recusaram a aceitar a mensagem de Jesus, os “pequeninos ” (nêpios) a receberam: um “pequeno” grupo daquela região, os destinatários pretendidos do Evangelho.

Isso reflete a vontade de Deus. Em um contexto semelhante (e esta é a única vez que o termo “pequeninos”, nêpios, 21,15-16, aparece novamente em Mateus), as crianças (paidos) gritam “Hosana” à chegada de Jesus ao templo, o que provoca a rejeição dos principais sacerdotes e escribas, aos quais Jesus cita as Escrituras: “Da boca das crianças (nêpio) e dos bebês (thêlazóntôn) suscitaste o louvor” (Salmo 8,3). Mais uma vez, encontra-se um contraste entre os “ pequeninos” (neste caso apresentados como sinônimo de “crianças”) e os escribas na presença de Jesus.

O que chama a atenção é que Jesus destaca que Deus “escondeu” (kriptô) essas coisas, algo importante em Mateus. O que está “escondido” deve ser “revelado”, como se vê na cidade no alto do monte (5,14), como as parábolas mostrarão (13,35), como o tesouro escondido (13,44) que é uma expressão do Reino; mas, neste caso, está em contraste com o que é revelado às crianças. A situação da comunidade de Mateus, em contraste com a importante comunidade rabínica de sua época e região (em Antioquia), parece estar no cerne da narrativa, algo que — por sua vez — revela a atitude dos “sábios e instruídos” em relação a Jesus no Evangelho. Esse ocultamento para alguns e a revelação para outros é o que agrada (eudokía) a Deus. É interessante notar que uma imagem semelhante, contrastando com a do "sábio e inteligente", é encontrada em Paulo em 1 Coríntios: "Como está escrito: 'Destruirei a sabedoria dos sábios e confundirei a inteligência dos inteligentes'" (1,19).

II) v. 27: Mas esse ocultamento — a revelação — é algo que Deus manifestou nas ações do Filho. Visto que somente o Filho conhece o Pai, o modo de revelação que o Filho escolheu reflete o que agrada a Deus. O uso de "Pai e Filho" nesta passagem tem um sabor distintamente joanino, já que "Filho" ("o Filho") não é comum nos Evangelhos Sinópticos, mas é muito frequente em João. A relação entre Jesus, o Filho, e seu Pai (Abba) é tal que ele pode afirmar que o "conhece" (outro tema joanino), e precisamente por essa razão, ele o revela em suas palavras, mas também na maneira como o revela, que envolve os destinatários. Jesus se dirigiu — e o próximo capítulo de parábolas é um bom exemplo disso — àqueles que não eram considerados importantes pelos "sábios e instruídos", e por essa razão, eles o rejeitaram.

III) vv. 28-30: É precisamente a esses destinatários que Jesus se dirige agora, aqueles que estão cansados ​​(kopiáô significa cansaço, portanto, trabalhoso, fatigado) e “sobrecarregados” (fortízô), visto que Jesus lhes oferece “alívio” (anapaúô). O alívio é o que proporciona, por exemplo, o descanso do sábado (Êx 23,12; Dt 5,14) ou também o descanso que a terra precisa ter (Lv 25,2). A religião não pode ser causa de cansaço e sobrecarga. O “jugo” é uma imagem daquilo que os oprimia no Egito (Lv 26,13), na Babilônia (Jr 27,11) ou na opressão dos gregos (1 Mac 8,18; 13,41), na escravidão em geral (Gl 5,1); Salomão oprimiu uma parte significativa do povo, e seu filho é incumbido de “aliviar o jugo” (2 Cr 10,9). Mas a imagem também é usada como expressão de “submissão” à lei (Eclesiástico 51,26; Sofonias 3,9; Atos 15,10).

Assim como os mestres da lei, Jesus também carrega um jugo, mas se apresenta como manso (praûs; aqueles a quem Jesus chama de bem-aventurados porque serão consolados, 5,5, e alude ao rei montado em um jumento em Zacarias 9,9 e 21,5) e humilde de coração (tapeinós tê kardía; sabendo que Deus exalta aquele que se humilha, 23,12). Esse jugo de Jesus trará “descanso” (anapausis, como já mencionei), pois é “leve” (chrêstós, fácil, bom, agradável) e o “fardo” (fortión) é leve (elaphrós, fácil, leve). O texto parece estar em claro contraste com os pesados ​​fardos (barys) que os fariseus colocam sobre os ombros de seus discípulos (23,4, embora as coisas mais “pesadas” e importantes da lei sejam “a justiça, a misericórdia e a fé”, 23,23).

O texto certamente entra em conflito com os fariseus da época de Mateus (como fica claro no capítulo 23), com quem o evangelista está em conflito; ele contrapõe dois jugos, duas mensagens e, portanto, duas atitudes em relação a ele: a aceitação dos humildes e a incompreensão dos “sábios e instruídos”. Isso não é diferente do que diz o texto do profeta:

“Eu disse: ‘O povo comum é insensato, pois não conhece o caminho do Senhor, nem a justiça do seu Deus. Irei aos anciãos e falarei com eles, pois eles conhecem o caminho do Senhor, a justiça do seu Deus.’ E assim, todos juntos quebraram o jugo e romperam as correntes” (Jeremias 5,4-5).

A novidade de Jesus reside precisamente no fato de ser o Filho que conhece o Pai e escolhe o caminho, e nos destinatários da revelação: as crianças.

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