O Papa estadunidense que pratica a paz. Artigo de Lucio Caracciolo

Foto: Vatican Media

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30 Junho 2026

"No que diz respeito à paz, tudo deveria levar Washington à contenção, visto que o país invariavelmente acaba pagando com vidas e credibilidade todas as guerras nas quais se envolve. A humilhação no improvável confronto entre o regime trumpiano e o império persa deveria servir de lição. It’s a long way to Tipperary. No entanto, Prevost, obstinado, segue em frente"

O artigo é de Lucio Caracciolo, jornalista e analista geopolítico italiano, publicado por La Repubblica, 28-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Quem vem primeiro: o chefe da Igreja Católica de origem estadunidense ou o cidadão estadunidense elevado a referência universal de uma religião de trajetória romana, europeia e ocidental?

Para os crentes, é a Providência; para os leigos ou descrentes, a astúcia da história. O fato é que, enquanto o mundo corre o risco de uma guerra total, um papa estadunidense ocupa a Cátedra de Pedro, pregando e praticando a paz. Mais papa estadunidense ou estadunidense papa? Quem vem primeiro: o chefe da Igreja Católica de origem estadunidense ou o cidadão estadunidense elevado a referência universal de uma religião de trajetória romana, europeia e ocidental?

Onde quer que se escolha colocar a ênfase, chama a atenção essa fecunda contradição de termos. Contradição porque Leão XIV, como papa, faz da paz o coração de seu magistério justamente quando seu império de origem, em estado de implosão prolongada, exporta sua crise para o mundo por meio das armas.

Fecunda porque ele continua sendo, afinal, um cidadão desse império enlouquecido que tenta conter sua compulsão belicista com calma firmeza. Como verdadeiro estadunidense, como confirma sua exortação aos compatriotas para que entrem em contato com seus respectivos congressistas e se oponham à deriva trumpiana.

Uma empreitada bastante notável, por ele ser um atlantista convicto, defensor de uma "verdadeira aliança entre Europa e Estados Unidos... uma aliança muito importante hoje e para o futuro". É um desejo duplamente revelador: revela tanto a fidelidade aos princípios da geopolítica estadunidense da segunda metade do século XX, fundamentada na criação, via OTAN e UE, de um Ocidente estratégico que garante a primazia dos EUA, quanto a imagem de um pontífice disposto a sujar as mãos naquela forma de caridade especial que, a seus olhos, é a política.

No sentido católico, é claro. Trata-se de um constante exercício de equilíbrio no triângulo entre ecumenismo, subjetividade da Santa Sé e fidelidade ao preceito de Jesus: "Dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus" (Mateus 22,21). Este último é frequentemente mal interpretado como um convite a evitar o engajamento no mundo, quando na verdade significa exatamente o contrário.

Devemos a Massimo Faggioli, historiador do cristianismo e professor da agostiniana Universidade Villanova, onde Robert Francis Prevost, especialista em direito canônico, frequentou um curso de filosofia alemã antes de se formar em matemática, uma reconstrução clara do projeto leonino: unidade da Igreja e paz no mundo (em seu livro “Leone XIV e la Chiesa globale”, Morcelliana). Visão assintótica. Ambas as missões funcionam como objetivos-limite aos quais aproximar-se com a consciência de que nunca poderão ser alcançados – mens matemática ajuda. No entanto, ambas existenciais. E interligadas. Quanto mais a guerra se alastra, menor a probabilidade de curar as feridas que dilaceram o Povo de Deus. Concebido por Prevost no sentido amplo do Concílio Vaticano II, enfatizado com tons temerários pelo Papa Francisco contra o neoclericalismo dos tradicionalistas (“aziendalista", na teoria organizacional). É igualmente improvável que uma Igreja reduzida a um conjunto de seitas consiga pacificar os ânimos e desarmar os armados.

Prevost conseguiu formar uma ideia concreta desse último problema entre 2020 e 2021, como Administrador Apostólico da diocese peruana de Callao. “Contexto ‘eclesiopático’, caracterizado por várias formas de abuso (de autoridade, de poder e econômico), que muitas vezes era resolvido de armas em punho, segundo a biografia papal escrita por Elise Ann Allen (“Léon XIV, Ciudadano del mundo, misionero del siglo XXI”, Penguin).

As tensões entre membros da hierarquia católica, amplificadas pela mídia durante o pontificado de Francisco, parecem agora mais contidas. Nesse aspecto, o primeiro ano de Leão é, sem dúvida, um sucesso. Contudo, a moderação dos comportamentos não basta para superar as profundas divisões culturais no corpo eclesiástico. Esse é o outro lado da globalização católica.

Os Estados Unidos são o epicentro dessa busca dupla de unidade e de paz. Quanto à unidade, é difícil imaginar algo mais heterogêneo do que o catolicismo estadunidense, especialmente com a ascensão da tecno-direita trumpiana, que almeja nacionalizar Jesus Cristo. Vemos isso na própria administração presidencial, onde dois católicos profundamente distintos, JD Vance e Marco Rubio, disputam influência sob um "presidente"-"papa" (as aspas são obrigatórias em ambos os casos) que celebra seu octogésimo aniversário promovendo um festival caseiro de luta livre, evocação de gladiadores.

No que diz respeito à paz, tudo deveria levar Washington à contenção, visto que o país invariavelmente acaba pagando com vidas e credibilidade todas as guerras nas quais se envolve. A humilhação no improvável confronto entre o regime trumpiano e o império persa deveria servir de lição. It’s a long way to Tipperary. No entanto, Prevost, obstinado, segue em frente.

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