Custo social das bets é quase 4 vezes a arrecadação fiscal. Entrevista especial com Tiago Braga e Dayana Rosa

“Dos 38 bilhões gastos com impactos negativos gerados pelas bets, 30 bilhões são associados à saúde mental. Esse valor diz respeito ao uso de drogas, alcoolismo, depressão, ansiedade e suicídio”, informa a pesquisadora

Foto: Bruno Peres | Agência Brasil

Por: Edição: Patricia Fachin | 02 Julho 2026

Nesta semana, as plataformas de apostas voltaram a ser destaque nas notícias durante o anúncio dos programas Desenrola Adimplentes e Fies Empreendedor, lançados pelo governo federal na última segunda-feira, 29-06-2026. Quem aderir às medidas terá o CPF bloqueado nas bets por seis meses. As casas de apostas online ganharam visibilidade nacional após a CPI das Bets e a crise de endividamento das famílias, mas elas atuam nas redes sociais há pelo menos dez anos e ampliam seus negócios patrocinando clubes de futebol.

O sucesso das bets no país é explicado, em parte, pela cultura de apostas entre os brasileiros. Segundo Tiago Braga, diretor do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), “30% da população adulta do país tem algum tipo de vínculo com apostas” e este percentual está crescendo exponencialmente no ambiente digital. Uma das preocupações nesse sentido, ressalta, é a indução ao vício de apostas em canais do YouTube direcionados ao público infantil. Relatórios do Ibict mostram como essa dinâmica é operada por influenciadores digitais. “Esses canais utilizavam o vídeo ao vivo porque a transmissão ao vivo não fica disponível para acesso posterior. Ou seja, é possível fazer publicidade, mesmo que seja ilegal. Quando a transmissão ao vivo acaba, o vídeo desaparece. As pessoas usavam o chat dessas transmissões para divulgar links de apostas que não eram permitidos”, informa.

Na mesma direção, Dayana Rosa, gerente de saúde mental do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), chama atenção para a linha tênue entre o entretenimento e os problemas de saúde pública relacionados aos jogos online. De acordo com ela, “as apostas já operam como um produto de risco, com efeitos mensuráveis sobre o comportamento, a saúde mental e o endividamento dos apostadores”. A arrecadação federal com bets, adverte, não paga o custo social relacionado aos danos causados à saúde dos apostadores. “A arrecadação do Estado com as bets cresceu bastante, entretanto, só 1% desse valor é destinado para a saúde. Para onde vai o restante? 28% para o turismo, 36% para o esporte, 10% para a educação. De novo, a conta não fecha. Estamos adoecendo, perdendo pessoas, outras estão tirando a própria vida por conta das apostas e apenas 1% dessa arrecadação é destinada para a saúde”, exemplifica.

Tiago Braga e Dayana Rosa participaram da mesa redonda “Bets, endividamento e crise psíquica. A saúde dos brasileiros em jogo”, promovida pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU no mês passado. A seguir, publicamos, no formato de entrevista, os principais trechos do debate. Os pesquisadores apresentam o perfil dos apostadores, informam sobre o custo social das bets e destacam a coligação suprapartidária “Brasil Contra as Bets” e a Plataforma de Autoexclusão, desenvolvida pelo governo federal por meio da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, como iniciativas para inibir a atuação inconsciente nas plataformas de apostas.

Tiago Braga (Foto: Arquivo Pessoal)

Tiago Braga é doutor em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília (UnB), mestre em Educação Tecnológica pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet-MG) e graduado em Sistemas de Informação pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). É líder do Laboratório de Informação e Sociedade (Insumo) do Ibict, onde leciona no Programa de Pós-graduação em Ciência da Informação.

 

Dayana Rosa (Foto: Arquivo Pessoal)

Dayana Rosa é doutora e mestre em Saúde Coletiva pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e graduada em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Foi assessora parlamentar na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, onde coordenou a Frente Parlamentar em Defesa da Reforma Psiquiátrica, assessora técnica no Ministério da Saúde, na coordenação-geral de Saúde das Mulheres, e secretária executiva adjunta da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco). Atua no Escritório das Nações Unidas para Drogas e Crimes (UNODC) como consultora em audiências de custódia no programa Justiça Presente, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Confira a entrevista.

IHU – Os jogos de aposta fazem parte da cultura nacional, apesar da popularização das casas de apostas online?

Tiago Braga – Em 2022, percebi que o movimento das apostas é muito forte no país e impacta diretamente a vida das pessoas, a forma como elas lidam com o trabalho e com a convivência social. Naquele ano, um pesquisador que estava trabalhando em um projeto do Ibict informou que iria sair porque estava vivendo de apostas. Isso me impactou muito e foi aí que comecei a tentar entender esse problema.

Um levantamento do Uol de 2025 informa que naquele ano existiam 23 milhões de apostadores no Brasil. Em 2026, a Quaest fez outro levantamento, apontando que quase 45 milhões de brasileiros estão vinculados a apostas. Isso representa 30% da população adulta do país. Esses levantamentos são estimativas, mas essa evolução de um ano para outro é muito marcante. Percebemos isso acontecendo no dia a dia quando conversamos e convivemos com as pessoas.

Falamos muito das bets, dos “jogos do Tigrinho”, mas a cultura da aposta existe no país. A última Mega-Sena da Virada, promovida pela Caixa Econômica Federal, que é um banco público, registrou 112 milhões de apostas, num país que tem 220 milhões de pessoas. Isso sinaliza que temos uma cultura de aposta. O atraso no sorteio, por causa do alto número de apostas nos últimos minutos, causou um alvoroço. Esse cenário mostra que as apostas estão enraizadas na cultura – o que é uma pena –, mas temos que partir desse ponto para lidar com os desafios.

IHU – Quais os desafios para o enfrentamento das bets em meio à cultura de apostas no país?

Tiago Braga – Quatro são os desafios informacionais que precisam ser enfrentados. O primeiro deles é o da desinformação. Muitos lidam com a desinformação a partir de uma perspectiva ideológica, mas a desinformação está muito vinculada à integridade da informação. Imagina que estou num processo judicial e submeto uma prova por meio digital, que é a forma como acontece hoje. Quem me garante que aquele documento não foi corrompido? Outro aspecto disso é a falta de informação ou a informação descontextualizada ou a própria desinformação. Isso cria um ambiente de pobreza informacional.

Outro desafio é o do uso acrítico das tecnologias. Usamos a tecnologia sem que seja feita uma análise crítica dela. Muitos usam a IA para fazer consulta como se fossem a um psicólogo. Já vimos casos de pessoas que se suicidaram porque a IA assim as recomendou. As bets entram também nesse uso acrítico das tecnologias.

O terceiro grande desafio é a tentativa reiterada que existe de deslegitimar a ciência enquanto insumo para tomada de decisão.

O quarto desafio está relacionado com a mudança na forma de consumo da informação. Quem está atento ou é de outra geração percebe essa mudança.

A atuação das bets entra nesse contexto muito desafiador em que as pessoas acessam canais e tecnologias que não existiam antes, consomem informações que, às vezes, não são verdadeiras, num ambiente onde é criado um conceito de dúvida sobre a ciência.

IHU – Como as bets se popularizam no país? Os influenciadores e as redes sociais foram fundamentais nesse processo?

Tiago Braga – Em 2025, o Ibict fez um relatório sobre o debate público e a adicção digital a partir de um projeto financiado pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. Esse relatório foi utilizado na CPI das Bets, que aconteceu no início de 2025, e pesquisou dois canais, um de mídias digitais, como X, YouTube, Instagram, Bluesky, Facebook, e outro de comunidades públicas abertas, como o Telegram. Coletamos dados entre outubro e novembro de 2024, em mais de 86 mil postagens sobre bets.

No Telegram, identificamos 115 mil postagens. A primeira publicidade de bets identificada foi de 2016. Portanto, naquele ano já começava o movimento de popularização das bets, que ganhou um aumento exponencial nos anos seguintes. No Telegram, 115 mil postagens sobre bets ficaram acessíveis para 25 milhões de usuários, geraram 650 mil visualizações, mais de 4 mil compartilhamentos, quase 1 milhão de reações e 100 mil comentários.

IHU – Que problemas identificou nas plataformas analisadas?

Tiago Braga – O primeiro problema está relacionado ao não mapeamento da faixa etária indicativa nas bets. Há um ocultamento da faixa etária educativa. Também percebemos que há um oferecimento, em muitas postagens, de dicas ou books mediante cadastro. A pessoa dá dicas para quem a segue e isso gera engajamento, mas, para receber o book, a pessoa tem que fazer um cadastro a partir do qual receberá publicidade ou ficará vinculada ao jogo.

Há também o oferecimento de bônus de cashback pela aposta, o que é proibido pela portaria 827 de 2024. Essa prática é ilegal, mas incentiva as pessoas. Para vocês terem uma ideia, 11% das postagens que mapeamos no YouTube ofereciam cashback em publicações nessa plataforma.

Indução ao vício

Existem canais voltados ao público infantil que oferecem conteúdos relacionados a apostas. O canal que analisamos é o Gah Marin, que hoje está desativado. É um canal que tinha como foco os jogos Minecraft e Roblox, mas, nas publicações ao vivo, transmitia jogos ao estilo do “jogo do Tigrinho”, com um apelo infantilizado e cômico para apostas.

Esses canais utilizavam o vídeo ao vivo porque a transmissão ao vivo não fica disponível para acesso posterior. Ou seja, é possível fazer publicidade, mesmo que seja ilegal. Quando a transmissão ao vivo acaba, o vídeo desaparece. As pessoas usavam o chat dessas transmissões para divulgar links de apostas que não eram permitidos. Também utilizavam a técnica de Search Engine Optimization (SEO) para subir os vídeos. Esse canal chegou a ter 16 mil pessoas ao vivo acompanhando as publicações. Esse número é muito maior do que o dos principais sites de notícia e do YouTube hoje em dia. Diversos canais replicam essa prática.

O foco no público infantil foi o que mais nos afetou, porque o adulto, querendo ou não, tem capacidade de avaliação e de percepção das problemáticas e dos riscos. A criança, não. Se ela é induzida ao vício e ao jogo desde cedo, isso tende a fazer com que ela fique atrelada ao vício na vida adulta. É um problema grave. Particularmente, sou contra a publicidade de bets, mas, nesse caso específico, há prática de crime.

Depois da CPI das Bets, esses canais saíram do ar. Alguns por iniciativa das próprias plataformas, outros porque os próprios influenciadores também perceberam que estavam sendo vistos. Mas o fato é que essa situação traz à tona a problemática das apostas online e do vício num contexto em que temos que enfrentar os quatro desafios apontados anteriormente: a desinformação, o uso acrítico das tecnologias, a descredibilização da ciência no sentido de que a sociedade não escuta ou não entende a gravidade do que os pesquisadores apontam, e a mudança do ambiente físico para o ambiente digital. Nesse novo ambiente, as pessoas têm acesso a muitos canais que não tinham antes, inclusive aqueles que promovem apostas online.

IHU – Como se deu a evolução do debate público sobre bets nos últimos anos?

Tiago Braga – Houve um aumento ao longo do tempo e o debate ocorreu, principalmente, nas mídias digitais. O debate público não acontece mais nos espaços físicos; acontece nos ambientes digitais. As pessoas debatem o malefício das apostas e essas são as postagens de maior engajamento. Durante o debate público, ocorreram ações da Polícia Federal vinculando influenciadores a bets. Nesse sentido, identificou-se um crescimento da discussão na época das operações e o debate se tornou ativo, envolvendo figuras públicas. O principal espaço de debate é a plataforma X

IHU – Que relações o dossiê A saúde dos brasileiros em jogo, publicado pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), estabelece entre apostas online e problemas de saúde?

Dayana Rosa – Esse dossiê é uma análise político-econômica da regulamentação de apostas online e seus impactos para a saúde da população brasileira. O estudo foi responsável, principalmente, por situar a questão das apostas como um problema de saúde pública. As apostas eram vistas como um problema do ponto de vista econômico, principalmente pelo impacto que geram nas economias das famílias. Entretanto, elas têm impactos muito grandes na saúde das pessoas.

O estudo parte da seguinte pergunta: As apostas online são apenas um produto comercial e de entretenimento ou já representam um problema de saúde pública? Combinamos uma série de evidências científicas para responder a essa questão. Nos baseamos numa pesquisa da revista The Lancet Public Health Commission on Gambling (2025) e no Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, publicado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que é o único levantamento de perfil de apostador elaborado até o momento, já que estamos diante de um problema público muito recente. A regulamentação das apostas online foi feita a partir de 2023. Nesse sentido, há uma lacuna muito grande de evidências.

Também fizemos uma análise política e legislativa a partir dos principais marcos legais da lei 3.756, de 2018, que regulamentou a atividade de apostas online, e da lei 14.790, de 2023, que busca regulamentá-la. Existe uma série de portarias da Secretaria de Prêmios e Apostas, ligada ao Ministério da Fazenda, e começaram a surgir algumas ações do Ministério da Saúde. Mais de 200 deputados e senadores estão questionando o governo federal, via requerimento, sobre o que ele está fazendo acerca das apostas, com base no dossiê que organizamos.

Efeitos das apostas na saúde

As principais conclusões do estudo são que as apostas já operam como um produto de risco, com efeitos mensuráveis sobre o comportamento, a saúde mental e o endividamento dos apostadores. Esse impacto é alto, assim como é alto também o custo social da regulamentação das apostas, enquanto a contrapartida econômica das operadoras é baixa. As medidas de proteção à população ainda são insuficientes, embora haja um esforço no Ministério da Saúde.

IHU – Qual o perfil dos apostadores?

Dayana Rosa – Um a cada seis brasileiros com 14 anos ou mais já apostou alguma vez na vida, o que representa um universo de 25 milhões de pessoas. O perfil dos apostadores é majoritariamente masculino: homens entre 25 e 49 anos, seguido de jovens de 18 a 24. Aproximadamente 12.8 milhões de pessoas já apresentam algum comportamento de risco relacionados a apostas. De outro lado, mais de 600 mil brasileiros se inscreveram na plataforma de autoexclusão. Esses dados são de 2024. Dois anos depois, a percepção que temos é que essa situação já mudou.

IHU – Espera-se uma ampliação desse contingente durante a transmissão da Copa?

Dayana Rosa – Com a Copa do Mundo, é impossível assistir a um jogo sem ver bets, seja no próprio gramado, seja nas propagandas ou nas transmissões online. Quem assiste ao Brasileirão vê uma enxurrada de exposição. A expectativa das operadoras é que a Copa incentive as apostas.

Como sabemos, a propaganda induz ao consumo. Existe uma relação direta entre o consumo e a exposição. Isso inclusive atinge crianças e adolescentes. Mais da metade dessa população já foi exposta à publicidade de apostas online, especialmente nas redes sociais e transmissões esportivas.

Nas redes sociais, uma grande questão a resolver são os influenciadores digitais que incentivam joguinhos. A exposição a produtos de risco aumenta o consumo. O maior exemplo é o caso do tabaco. Uma meta-análise internacional feita com 140 mil pessoas concluiu que pessoas expostas à publicidade e conteúdos de tabaco, no ambiente digital, têm o dobro de probabilidade de consumo ou intenção de consumir. Assim, jovens expostos têm até duas vezes mais chances de começar a fumar em comparação aos não expostos.

IHU – Quais os custos sociais envolvidos na prática de apostas online?

Dayana Rosa – Notícias informavam que jovens estão deixando de fazer o vestibular por conta do envolvimento com bets. Para termos uma ideia, em 2024 o governo arrecadou 38 milhões de reais com as bets. Em 2025, o valor arrecadado foi de 10 bilhões. Naquele ano, os impactos sociais gerados foram de aproximadamente 38 bilhões – com dados subestimados. A conta entre o valor de arrecadação com as bets versus o custo gerado com os impactos não fecha. O custo social gerado pelas bets é quase quatro vezes maior do que a arrecadação do Estado.

Dos 38 bilhões gastos com impactos negativos gerados pelas bets, 30 bilhões são associados à saúde mental. Esse valor diz respeito ao uso de drogas, alcoolismo, depressão, ansiedade e suicídio. Muitos são os relatos de pessoas que perderam familiares que entraram em desespero por conta das apostas online.

A arrecadação do Estado com as bets cresceu bastante, entretanto, só 1% desse valor é destinado para a saúde. Para onde vai o restante? 28% para o turismo, 36% para o esporte, 10% para a educação. De novo, a conta não fecha. Estamos adoecendo, perdendo pessoas, outras estão tirando a própria vida por conta das apostas e apenas 1% dessa arrecadação é destinada para a saúde.

IHU – Alguns defendem as apostas com a justificativa de que movimentam a economia brasileira. Que informações o dossiê apresenta sobre esse ponto?

Dayana Rosa – Em 2024, foram gerados 1.144 empregos formais no Brasil nesse setor. Ou seja, uma média de 19 empregados por empregador. Mas 84% do setor de apostas trabalha na informalidade. De novo, é uma conta que não fecha. O custo total dos danos relacionados ao jogo chega a pelo menos 88,8 bilhões ao ano. Enquanto isso, as bets registraram receita de 37 bilhões em 2025.

IHU – Quais são as recomendações do dossiê?

Dayana Rosa – Segundo pesquisa do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (IPESPE), a maioria da população tem uma opinião contrária às bets: 59% desejam uma atuação firme do governo contra elas; 85% não confiam nas empresas de apostas online; 60% defendem limites para as apostas; 40% dizem que familiares ou pessoas próximas fizeram dívidas por conta de apostas – desses, 45% tiveram sua qualidade de vida ou da família afetada em função das dívidas.

Nesse sentido, existe um consenso internacional de transformar o modelo comercial de controle das bets em um modelo sanitário. Essa é a nossa principal proposta. Por meio dela, justificamos a defesa da regulação da publicidade, da propaganda, do patrocínio e a proibição de jogos de alto risco.

IHU – O que significa trazer o modelo comercial para o modelo sanitário?

Dayana Rosa – A nossa proposta é comparar as políticas que devem ser feitas para bets com a política que foi feita para combater o tabaco. Em dez anos, após a proibição da propaganda, o Brasil reduziu o consumo de cigarro. Quase metade das pessoas deixou de fumar. Houve uma queda de 46% na prevalência de fumantes, sendo 14% atribuída diretamente às restrições de marketing e propaganda.

Isto significa reduzir a exposição, restringir a publicidade, a propaganda e o patrocínio e parar de estimular as pessoas a apostarem. Com isso, os danos são reduzidos. É preciso criar formas para dificultar o acesso às plataformas e aumentar a proteção aos usuários, classificando as bets como um produto de risco à saúde. Também é preciso reforçar a fiscalização, combater operadores ilegais e limitar meios de pagamento.

IHU – Quais são os movimentos em curso para implementar essas propostas?

Dayana Rosa – Junto de outras organizações da sociedade civil, criou-se o movimento Brasil contra Bets, que é uma coalizão suprapartidária de parlamentares e organizações da sociedade civil com o objetivo de proteger a saúde da população. A nossa principal estratégia foi apresentar um Projeto de Lei (PL) contra as bets tanto na Câmara quanto no Senado, atuando junto à Frente Parlamentar de Saúde Mental, com o objetivo de regular o patrocínio e a publicidade das bets e proibir jogos de alto risco, como os “jogos do Tigrinho”.

Propomos um PL porque avaliamos que o movimento necessário não aconteceu por parte do governo federal. Nesse sentido, o legislativo precisa pressionar o executivo federal. Os danos causados por esses jogos escalam de uma forma muito grande e muito rápida. A única diferença, se formos comparar com tabaco, é a rapidez do dano na vida das pessoas. Para produzir um dano como o câncer, é preciso muito tempo de exposição ao tabaco. Para as pessoas perderem tudo num jogo pelo celular, é muito rápido. Por isso a urgência de agir agora é preponderante.

IHU – Quais são os principais pontos defendidos pelo PL?

Dayana Rosa – O PL é uma iniciativa da Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental e reúne 27 parlamentares de nove partidos diferentes, do PSOL ao PL. A proposta foi protocolada com texto idêntico na Câmara (PL n. 2478/2026) e no Senado (PL n. 2470/2026). Esse PL é quase um abaixo-assinado, um PL manifesto.

Os principais autores na Câmara são o deputado Pedro Campos e, no Senado, a senadora Damares Alves. Mas entre os parlamentares participam também Benedita da Silva (PT/RJ), Marina Silva (REDE/AC), Tabata Amaral (PSB/SP), Luiza Erundina (PSOL/SP), Gilberto Nascimento (PODEMOS/SP), Erika Hilton (PSOL/SP), Carlos Hauly (PODEMOS/PR), Ricardo Ayres (REPUBLICANOS/TO), Izalci Lucas (PL/DF), Hamilton Mourão (REPUBLICANOS/RS), Marcos Pontes (PL/SP), Teresa Leitão (PT/PE), Humberto Costa (PT/PE) e Otto Alencar (PSD/BA).

 

 

Protocolamos o PL e estamos no movimento de recolher mais assinaturas para fechar os coautores da proposta. Até o momento, tem quase 50 autores para o PL na Câmara. Esse número é equivalente somente ao do PL de criminalização do aborto, que reúne 53 autores. Está se criando um consenso suprapartidário firme em torno das bets, o que nos mantêm otimistas.

Além da restrição de propaganda e da proibição de jogos de alto risco, como o “jogo do Tigrinho”, o PL também defende o fim do patrocínio de apostas online e a criação de classificação de risco dos jogos – atribuímos isso ao Ministério da Saúde, que vai analisar cada tipo de aposta e de jogo e criará uma classificação de risco. Ou seja, assim como existem rótulos onde podemos verificar informações sobre alto teor de gordura saturada e açúcar adicionado, nossa proposta é que tenha algo semelhante para as apostas, mas que isso determine a própria atuação da operadora. Se o Ministério da Saúde entende que uma atividade produz risco à saúde, o governo federal pode determinar se a empresa opera ou não. O PL também prevê multas pesadas e punição de até 50 milhões por infração. Não apenas operadoras estão sujeitas, mas plataformas e influenciadores também.

Atualmente, existem 281 PLs sobre bets em tramitação, mas eles são fragmentados ou iniciativas individuais de partidos e parlamentares. Neste PL, apresentamos uma proposta robusta, concreta, suprapartidária de um conjunto muito grande e diverso de parlamentares.

Na plataforma brasilcontrabets.com já reunimos mais de 50 mil assinaturas. Estamos contando com o apoio de muita gente e outros movimentos. Um deles é o movimento “Dê block no Tigrinho”, que reúne uma série de artistas, músicos e atores. Estamos mobilizando a opinião pública, tentando resolver esse problema público de saúde.

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Esse não é um tema fácil. Como é sabido, atuamos no mundo político e estamos intervindo na atuação de setores poderosos, que determinam, inclusive, as eleições. Estamos no período da Copa do Mundo, mas durante as eleições também vamos falar sobre bets.

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