17 Junho 2026
A organização liderada por Infantino defende sua política comercial, que lhe permitirá gerar receitas recordes e na qual lançou seu próprio site de revenda de ingressos, pelo qual cobra comissões.
A reportagem é de Cristina G. Bolinches, publicada por El Diario, 16-06-2026.
Os ingressos estão disponíveis apenas para pessoas com renda alta ou muito alta, seguindo o modelo de outras competições "made in USA", como o Super Bowl ou as finais da NBA. A Copa do Mundo nos Estados Unidos, Canadá e México entrará para a história como a Copa do Mundo com o maior número de seleções, o maior número de jogos, o maior número de intervalos comerciais durante as partidas e preços proibitivos. É nisso que o esporte do povo está se transformando. Os números atuais de público indicam que os estádios estão bastante cheios, embora também seja possível ver assentos vazios, principalmente em jogos menos populares. A FIFA está convencida de que, mais uma vez, arrecadará mais receita do que nunca com esta competição.
Para ter uma ideia do preço dos ingressos, basta observar os valores para as partidas da Seleção Espanhola nesta primeira fase. O primeiro jogo, contra Cabo Verde, começou em US$ 540 (mais de € 460), segundo diversos sites de venda e revenda de ingressos. Esse preço correspondia aos assentos mais altos do Estádio Mercedes-Benz, em Atlanta. Já para as partidas seguintes da primeira fase, como a contra a Arábia Saudita, o preço, com quase uma semana de antecedência, começa em US$ 1.100. Os preços variam conforme o local; em Guadalajara, no México, os ingressos ultrapassam € 2.300 para o jogo potencialmente decisivo contra o Uruguai.
Em termos simples, um ingresso para uma partida da primeira fase custa o dobro do salário mínimo mensal na Espanha. Nos Estados Unidos, segundo estatísticas oficiais, o salário médio anual é superior a US$ 64.000, aproximadamente € 56.000 na cotação atual. No Canadá, ultrapassa os CA$ 60.000, o equivalente a cerca de € 37.000. Já no México, o salário médio anual gira em torno de 96.000 pesos, menos de € 5.000. Os preços dos ingressos para a Copa do Mundo variam, independentemente do salário mínimo.
Como os ingressos são vendidos?
Na Espanha, a Federação colocou à venda um número limitado de ingressos meses atrás para as primeiras partidas e fases eliminatórias, mas apenas até um máximo de 8% da capacidade do estádio. Por exemplo, para os dois primeiros jogos da fase inicial, foram vendidos aproximadamente 7.000 ingressos. Os preços eram um pouco mais baixos, a partir de US$ 180. Esses ingressos estiveram disponíveis até 13 de janeiro, quase seis meses antes do início do campeonato. A Federação limitou o número de ingressos que uma pessoa podia comprar a quatro por partida.
Esses preços exorbitantes não são exclusivos da seleção espanhola. Os ingressos para esta Copa do Mundo estão mais caros do que nas edições anteriores, mas isso não impedirá que muitos estádios fiquem lotados. Para algumas das primeiras partidas, ainda havia ingressos disponíveis poucas horas antes do início do jogo. Para a partida de abertura entre México e África do Sul, os ingressos ainda estavam sendo revendidos poucas horas antes do início da Copa do Mundo de 2026, por mais de US$ 3.400 cada.
E conforme a competição avança, o custo aumenta. Rumo à final, que será realizada em 19 de julho, os ingressos mais baratos estão custando mais de US$ 9.300, enquanto os mais caros disponíveis em diversos sites ultrapassam os US$ 86.000. São justamente esses últimos ingressos que têm se esgotado nos últimos dias. O sistema também incorpora preços dinâmicos — o mesmo sistema já utilizado por companhias aéreas, hotéis e serviços de transporte por aplicativo, que, em teoria, flutua com base na oferta e na demanda.
Oficialmente, a única maneira de comprar ingressos é através da FIFA. A organização, liderada por Gianni Infantino, vende-os pelo seu site, onde é necessário cadastro. Além disso, lançou um portal próprio de revenda onde, no momento, não há ingressos disponíveis para os próximos dois jogos da Espanha.
A FIFA afirmou repetidamente que sites de revenda como o StubHub não são vendedores oficiais de ingressos para a Copa do Mundo, mas uma simples busca neste ou em sites similares confirma que eles estão vendendo ingressos para esta edição do torneio. Além disso, a FIFA também ofereceu os chamados "pacotes de hospitalidade", que são mais caros, mas oferecem acesso a áreas VIP, camarotes privativos e transporte até o estádio. Não há pacotes disponíveis para a partida entre Espanha e Arábia Saudita. Para o jogo entre Marrocos e Haiti, esses pacotes VIP começam em US$ 2.200 por pessoa.
Quanto ao destino dessa receita, no caso dos ingressos vendidos pela FIFA no mercado primário, toda a renda vai para a organização, como apontou este artigo do The Athletic. No caso do seu portal de revenda, a FIFA resolveu a situação: cobra uma comissão de 15% tanto do comprador quanto do vendedor .
“O maior evento que a humanidade já viu”
A FIFA está explorando ao máximo esta Copa do Mundo, que Infantino descreveu meses atrás como "o maior evento que a humanidade já viu". Com todo o ciclo da Copa do Mundo — os quatro anos de eliminatórias e este torneio final — a expectativa é gerar US$ 13 bilhões em receita. Desse total, quase US$ 4,264 bilhões provêm dos direitos de transmissão televisiva. Esse valor representa um aumento de 36% em comparação com a Rússia 2018 e de 24% em relação a quatro anos atrás, no Catar.
Essa fatia do bolo, que obrigou a implementação de dois intervalos comerciais controversos, um para cada tempo, continua sendo a parte mais lucrativa do negócio esportivo. Representa receitas multimilionárias que se valorizam com a inflação, como reconheceu há alguns meses o fundo de investimento Apollo, principal acionista do Atlético de Madrid há algum tempo.
Em relação à presença de público nesta Copa do Mundo, a partida de abertura atingiu o número esperado no Estádio Azteca, no México, com mais de 80.000 espectadores. No entanto, no segundo jogo, entre Coreia do Sul e República Tcheca, em Guadalajara, as imagens da televisão mostraram assentos vazios nas arquibancadas inferiores, apesar do público oficial indicar quase 45.000 pessoas, de uma capacidade total de 46.000 . E essa partida nem foi uma das mais caras, já que os ingressos custavam inicialmente cerca de US$ 230.
Infantino passou meses defendendo a política de preços desta Copa do Mundo. Ele afirmou que a fase inicial começou em US$ 140 e que alguns jogos têm ingressos a partir de US$ 60. Esse preço não é a norma, mas a exceção, e corresponde a um pequeno grupo de assentos vendidos por meio de algumas federações nacionais, que a FIFA colocou à venda após as críticas iniciais à sua estratégia de arrecadação. “É o esporte americano mais acessível nas fases eliminatórias. Cada dólar que a FIFA ganha é reinvestido no desenvolvimento do futebol”, explicou Infantino.
Seguindo o modelo da NBA e do Super Bowl
O fato de os ingressos para a Copa do Mundo terem preços exorbitantes nos Estados Unidos — mesmo com a Copa também sendo realizada no México e no Canadá — não é um caso isolado. É a norma. Na verdade, segue o padrão do que costuma acontecer com o Super Bowl ou o que ocorreu há poucos dias com as finais da NBA, em que os preços dos ingressos para as arenas do New York Knicks e do San Antonio Spurs atingiram níveis escandalosos.
Já no caso do Super Bowl, cada ingresso comum, com exceção dos camarotes VIP, para assistir à final do futebol americano em fevereiro passado custou de US$ 950 – o preço que as equipes ofereceram aos seus torcedores – a quase US$ 30.000 no mercado de revenda.
Para as finais da NBA, os dois primeiros jogos em San Antonio, segundo relatos da imprensa local, começaram com ingressos a partir de US$ 500. Mas, no terceiro jogo em Nova York, com a expectativa de que o Knicks voltaria a vencer depois de décadas — o que acabou acontecendo —, os ingressos mais baratos dispararam em sites de revenda, chegando a custar mais de US$ 5.000. E os assentos na quadra atingiram o valor de US$ 500.000, de acordo com o Marca. A NBA também não é exatamente barata. Em 2020, o cineasta Spike Lee admitiu pagar US$ 300.000 por ano pelo seu ingresso anual para a temporada do Madison Square Garden.
Uma das controvérsias girou em torno do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, que assistiu à partida com amigos, tendo comprado ingressos por menos de US$ 1.000 cada, como admitiu à imprensa. O presidente dos EUA, Donald Trump, também compareceu ao jogo, embora ainda não tenha assistido a nenhuma partida da Copa do Mundo, apesar da expectativa de que compareça à final.
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