15 Junho 2026
"Caso contrário, resta-nos apenas um Papa corajoso, que nos pede, naquelas pobres almas, feridas, humilhadas e náufragas nas nossas costas, para ver Jesus", escreve Massimo Giannini, jornalista e escritor italiano, em artigo publicado por La Repubblica, 13-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
De um lado está Belfast: nos novos Conflitos, trinta anos depois, o ódio atávico que durante um século dilacerou nacionalistas e unionistas está sendo direcionado contra imigrantes, e no coração do continente volta a explodir o conflito sociocultural e etnopolítico que Trump conscientemente reavivou nos Estados Unidos. Do outro lado está Gran Canaria: no "cais da vergonha" em Arguineguin, onde há seis anos 3.000 desesperados permaneceram por meses sem comida ou remédios, Leão XIV lança uma coroa de flores ao mar, diz aos refugiados: "Curvo-me diante da sua dignidade; vocês não são números nem processos", e lança seu anátema contra o Ocidente: "Um dia saberemos se soubemos preservar a humanidade ou se permitimos que a indiferença falasse por nós". Entre esses dois extremos do pêndulo da história e da geografia — o primeiro violento e raivoso, o segundo solidário e misericordioso — estamos nós. Está a Europa amedrontada, que segue os flautistas mágicos da direita nacionalista e xenófoba: os Farage na Grã-Bretanha e as Weidel na Alemanha, os Bardella na França e os Abascal na Espanha.
E há uma Itália empobrecida que, depois de sucumbir ao canto de sereia soberanista de Meloni, agora parece seduzida pela marcha militar e neofascista de Vannacci. Tanto uma quanto a outra, no decisivo biênio eleitoral que se aproxima, parecem já ter entendido qual será o campo de batalha também desta vez. O estrangeiro. O costumeiro inimigo "necessário". O que está acontecendo na Irlanda do Norte — após a tentativa de decapitação de Stephen Ogilvie por um refugiado sudanês — parece um ensaio geral para o que pode acontecer nos subúrbios de Lyon, nas periferias de Bruxelas, nas favelas de Rosarno. Os penúltimos que se rebelam contra os últimos. Onde no passado eram massacrados os católicos da Falls Road e protestantes da Shankill Road, hoje o rancor mútuo se volta contra os "negros que roubam casas e empregos" dos residentes de baixa renda dos bairros degradados. E politiqueiros cínicos, odiadores e empresários do medo estão à espreita, prontos para explorar cada dificuldade, cada frustração, cada ressentimento.
A semeadura do ódio está surtindo efeito: o partido extremista Reform UK avança impetuosamente nas eleições suplementares e envia uma notificação de despejo a Starmer. O partido neonazista alemão AfD tornou-se o segundo maior do país, com 20,8% dos votos, e já almeja a Chancelaria em Berlim. Os apoiadores de Le Pen em Paris e os neofranquistas em
Madri fazem o mesmo. Querem governar, prometendo em todo lugar restaurar as fronteiras e expulsar os ilegais.
Agora, estão unidos por uma palavra-chave, que resume a grande promessa e a grande mentira: "remigração". Já não basta mais acolher os regulares e rejeitar os irregulares. Todos devem ser expulsos, incluindo aqueles com direito a asilo e autorização de residência. É o que defendem o Movimento Identitário Europeu de Martin Sellner e a Rede dos Patriotas, a Casa Pound e a Veneto Frente Skineads, que até mesmo apresentaram um projeto de lei no Parlamento. É também o que afirma o Futuro Nazionale, o partido do mundo de cabeça para baixo, liderado pelo generalíssimo da unidade Folgore, que escapou da Liga e apaixonado pela 10ª MAS. Ouvimos Vannacci no programa Otto e Mezzo, tentar vender barbárie como sendo bom senso, soltar grosseiros preconceitos chamando-os de liberdade de expressão, delirar com estarrecedora simplicidade sobre "repatriações forçadas", transferências obrigatórias "para países terceiros" e "exames de assimilação cultural". É isso que os partidos das direitas racistas e turbo-populistas do próximo turno estão distribuindo aos montes, prontos para tomar o lugar daqueles que governaram, mas "traíram todas as suas promessas".
Tal como a Sorella d’Itália, agora ultrapassada pelo seu novo "inimigo à direita": ela já havia teorizado a fórmula conspiratória da "substituição étnica" nas "Teses de Trieste" de 2017 ("as fronteiras devem ser defendidas", "a imigração não é um direito, a cidadania muito menos"), e com a narrativa mal-intencionada e xenófoba dos bloqueios navais e portos fechados venceu as eleições de 2022. Mas depois, ao chegar ao Governo, teve que se confrontar com o direito humanitário e comunitário, com a Carta das Nações Unidas e a Constituição, os tribunais da República e o Tribunal de Justiça da União Europeia. Ou seja, com a civilidade jurídica que, por séculos, tornou esta parte do mundo melhor do que todas as outras. Porque reconhece os princípios da liberdade e da legalidade, da dignidade e da solidariedade, garantindo simultaneamente os direitos civis e sociais de todos, sem distinção de sexo, língua, raça ou religião.
Mas é precisamente essa civilidade — e, juntamente com ela, a democracia que a torna possível — que os novos fascistas estão atacando a golpes de picaretas. Caricaturas perigosas dos antigos Bombacci e Farinacci, os novos Vannacci invocam pátrias marciais e iliberais. Onde existe apenas um "espaço vital", o da nação e da tradição, e uma única "lei da natureza", aquela do sangue e do solo.
Todo o resto — igualdade e acolhimento, o “Estado de direito e o Nomos da Terra — são mercadorias danificadas, agora vomitadas pelos povos, cada vez mais "adestrados" para pensar e votar pensando apenas em si mesmos. É o inútil enfeite da deriva woke e politicamente correta. O fetiche elitista dos progressistas decadentes que "querem que todos entrem". O problema trágico — na ignávia das esquerdas ocidentais, que tem pouco a opor, com exceção de Sánchez — é que essa narrativa sombria está, mais uma vez, começando a abrir brechas nas opiniões públicas. E está influenciando as decisões das tremebundas direitas "moderadas" da União, reunidas no Partido Popular.
O novo "Pacto sobre Migração e Asilo", que entrou em vigor justamente ontem, marca um claro retrocesso em direção à ideologia do apartheid tão apreciada pelas direitas extremistas. Controles nas fronteiras mais rigorosas, detenções nos centros de acolhimento e triagem, mesmo para menores, procedimentos de asilo acelerados, expulsões facilitadas, disciplina mais flexível sobre resgates marítimos e um "tributo" a ser pago por cada migrante não realocado. O "Decálogo Comunitário" coloca mais uma camada de tinta na face feroz da UE, quase imitando o modelo brutal do ICE de Trump. Mas adia mais uma vez a solução para o problema. Existe, que fique claros, e corre o risco de inflamar as próximas campanhas eleitorais em todo lugar. Mas deveria ser enfrentado por meio da lógica da integração, não da "deportação". Esse também seria um grande desafio para os reformistas, se realmente existem. Administrar o fenômeno, sem ignorá-lo.
Compreender e racionalizar as angústias, sem criminalizar aqueles que a vivenciam em seu próprio corpo. Governar os fluxos: sempre com humanidade, com firmeza quando necessário. O exemplo, apesar de tudo, continua sendo a Merkel de 2015, que, diante dos 6 milhões de refugiados chegando da Síria, não gritou "vamos expulsá-los todos" nem "vamos acolhê-los todos". Ela disse "Wir Shaffen Das": vamos dar conta. Assim fala um estadista, pronto a derrotar qualquer general. Caso contrário, resta-nos apenas um Papa corajoso, que nos pede, naquelas pobres almas, feridas, humilhadas e náufragas nas nossas costas, para ver Jesus.
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