“Se a UE impusesse a Israel a metade das sanções que impõe à Rússia, salvaria milhares de palestinos”. Entrevista com Ilan Pappé

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06 Junho 2026

Referência da corrente de “novos historiadores” israelenses, que desde os anos 1980 questionam o relato oficial sionista sobre a fundação de Israel, Ilan Pappé é uma das vozes mais proeminentes sobre colonialismo e ocupação da Palestina histórica. Seu último livro, El final de Israel, descreve os sinais de colapso que, segundo ele, o país hebreu já começou a atravessar e que culminará em um futuro não tão distante.

A entrevista é de Meritxell Freixas, publicada por elDiario.es, 30-05-2026.

Natural de Haifa e hoje professor na Universidade de Exeter, no Reino Unido, onde se estabeleceu em 2007 por causa das ameaças que recebeu por pesquisar a limpeza étnica contra a população palestina, é um firme defensor da criação de um único Estado secular e democrático para árabes e judeus.

É conhecido por sua defesa do boicote e das sanções a Israel e defende que a União Europeia (UE) deveria “desempenhar um papel muito mais eficaz na mudança”, mas não age porque “os políticos, aqui, têm medo”.

Eis a entrevista.

Como mudou o conflito entre Israel e Palestina, com o segundo governo de Donald Trump?

Trump, em seu segundo mandato, trouxe algo novo: o apoio internacional total dos Estados Unidos a Israel. Faça o que fizer. A questão não é Trump. Trump não vai mudar. A pergunta é: depois de Trump, o quê? O Partido Democrata realmente mudou? Eu penso que sim. E penso que será uma América muito diferente dentro de dez anos. Trump representa a América de outrora, não a nova.

Há uma nova América por vir?

Não apenas isso. Aqueles que apoiam Trump começam a suspeitar que Israel o esteja manipulando. Alguns membros de seu próprio partido, incluindo o vice-presidente, acreditam que a guerra com o Irã aconteceu porque Netanyahu convenceu Trump e que foi uma decisão estúpida. Não querem uma guerra no Irã.

O Mossad convenceu Trump de que seria como aconteceu com a Venezuela, que em duas ou três semanas obteriam muito petróleo iraniano e que Teerã diria “o que o senhor quiser”. No entanto, o Irã está vencendo em muitos sentidos e o panorama geral não mudou, exceto pelos preços do petróleo.

Será necessário aguardar para avaliar o efeito Trump, porque ainda não terminou e agora a situação é um pouco diferente da do início, quando Netanyahu parecia ter carta branca. Ele quer que a guerra contra o Irã e contra o Líbano continue porque considera que isto o torna mais popular.

Essa hipótese que o senhor defende sobre o fim de Trump se conecta à tese de seu novo livro, ‘El final de Israel’, sobre o fim do sionismo e a chegada de uma nova época?

Tudo está associado. Agora, estamos em um capítulo ruim da história na Palestina, nos Estados Unidos, com o que aconteceu na Venezuela, em Cuba… Mas acredito que este é o fim desse capítulo. O que defendo em meu livro é que em 10, 15 ou 20 anos será muito difícil seguir assim, com esse tipo de política e de agressão.

O Estado sionista não conseguirá se sustentar social, econômica e militarmente. A reação estadunidense contra Trump também afetará Israel por tudo o que contribuiu em seu mandato. É um processo lento. Não acontecerá amanhã, nem depois de amanhã. Mas esse processo começou.

Onde observa isso?

Por exemplo, em (o prefeito Zohran) Mamdani, em Nova York. Antes, para ser candidato do Partido Democrata nos Estados Unidos, era chave demonstrar apoio incondicional a Israel. Agora, para ser presidente democrata, a chave é demonstrar apoio aos palestinos. É uma mudança radical.

Como acontecerá essa mudança no Estado israelense? Será impulsionada de dentro?

Virá de fora. Depois, talvez a mudança venha de dentro. Contudo, primeiro é necessário que o mundo, a região e o mundo árabe digam “basta”, “não são mais legítimos”. É aí que tudo começará. Começará quando os países árabes deixarem de normalizar suas relações, quando a União Europeia começar a impor sanções e, eventualmente, os Estados Unidos se unirem a eles. Tudo isso é necessário.

Também é necessário um movimento nacional palestino mais unido, porque está fragmentado e se amanhã Israel se for, não há substituto. E virá com a visão de um único Estado. Se continuarmos falando de dois Estados, a mesma situação continuará por muito tempo.

Por que aposta em um único Estado como solução?

Deve ser um único Estado para palestinos e judeus. Já existe um Estado, mas hoje é um Estado de apartheid. Deve se tornar um Estado democrático por meio da pressão externa e da insistência dos palestinos em que é isto que desejam.

Israel é uma minoria e depende do mundo árabe. Se o mundo árabe decidir que quer a libertação da Palestina, não precisa sequer entrar em guerra com Israel. Basta dizer: “é isso que quero”. No entanto, não dizem isto por várias razões: não são democracias, são governantes ajudados por Israel para se manterem no poder e todos querem ser amigos dos Estados Unidos; e Israel é o melhor amigo de Washington.

Quando começará esse processo de mudança?

Em meu livro, digo que isso não acontecerá, pelo menos, até 2048. Temos que esperar. Não acontece da noite para o dia. Há etapas, é um processo. Tomara que dentro de dez anos comecemos a ver mudanças mais drásticas.

Considerando o genocídio em Gaza, o Tribunal Penal Internacional emitiu uma ordem de prisão contra Netanyahu e seu ex-ministro da Defesa, Yoav Gallant, por supostos crimes de guerra e contra a humanidade na Faixa. Também há uma acusação de genocídio contra Israel na Tribunal Internacional de Justiça. O senhor confia no direito internacional?

Não muito. Alegro-me que o procedimento esteja acontecendo; que esteja sendo utilizada a linguagem adequada, mas não acredito que realmente tenham poder para mudar a realidade, pois os Estados Unidos estão tratando a Justiça como criminosa. O impacto será a longo prazo.

Daqui a muitos anos, quando olharmos para trás, diremos que foi um momento importante, mas, lamentavelmente, não será no próximo ano, nem em dois. Além disso, precisamos reestruturar todo o sistema jurídico internacional porque não está funcionando contra países como Israel, que não será tratado como a Rússia.

Fica, então, no plano simbólico?

Sim, a menos que alguém tenha a coragem de dizer: “prenderei o senhor Netanyahu, se vier ao meu país”. Contudo, não acredito que isto vá acontecer.

Até setembro do ano passado, vários países - incluindo França, Reino Unido, Canadá, Austrália e Portugal - já tinham reconhecido o Estado da Palestina. Outros condenaram publicamente os abusos e violências de Israel. A pressão diplomática serve para alguma coisa, se não são tomadas ações concretas mais contundentes?

A pressão diplomática não basta. São muitas palavras e muito pouca ação. A única coisa que serviria seriam as sanções. Seria a única solução. Se a União Europeia impusesse a Israel 50% das sanções que impõe à Rússia, salvaria a vida de milhares de palestinos. O mesmo aconteceu na África do Sul.

Como exemplo, o senhor citou o fim do apartheid sul-africano como possível saída à ocupação israelense. Como seria?

Absolutamente. Na África do Sul, enquanto as ações se limitaram ao boicote e ao desinvestimento, não conseguiram a queda do regime do apartheid. Quando os governos estiveram dispostos a acompanhar suas sociedades e acrescentaram sanções ao boicote, a pressão internacional se tornou uma ferramenta eficaz para ajudar o Congresso Nacional Africano a derrotar o regime do apartheid. Este foi o caminho, juntamente com a luta interna, é claro.

Embora muitos países continuem acolhendo Israel em eventos culturais e esportivos, cada vez mais vão surgindo demonstrações de rejeição internacional a este país. O genocídio em Gaza e a guerra foram um ponto de inflexão?

Sim, o apoio social à Palestina não tem precedentes. Não se compara a nenhum outro período da história. Diminuiu um pouco após o cessar-fogo, em outubro de 2025, mas ainda se mantém em níveis nunca vistos. Penso que os palestinos têm uma oportunidade histórica para aproveitá-lo, mas estão muito divididos. Precisam se unir para tirar o máximo proveito deste apoio. Este momento é excepcional.

Em seu livro, diz que quanto mais direitista e neossionista for a política de Israel, mais isolado ficará. No entanto, ninguém o isolou economicamente e continua exportando seus produtos e tecnologia de guerra para o mundo todo.

Não se pode pressupor que as pessoas sempre comprarão armas israelenses; não é o único que produz armas no mundo. É como quando os diamantes se tornaram diamantes de sangue do Congo e as pessoas pararam de comprá-los. Pode ser que as pessoas considerem isto cada vez mais problemático, e não é possível construir uma economia apenas sobre a indústria armamentista.

No final, não depende dos Estados Unidos, mas da União Europeia. Ela é a parceira comercial mais importante de Israel. Se bloqueasse o comércio, Israel ficaria em uma posição muito problemática. A União Europeia pode desempenhar um papel muito mais eficaz na mudança, mas os políticos, aqui, têm medo de agir.

O senhor separa o sionismo histórico do sionismo atual, embora, diz, tenham muito em comum. Quais são suas diferenças?

Há muitas coisas que são iguais em ambos, afinal, trata-se do colonialismo de assentamento. No entanto, o sionismo atual é mais messiânico, muito mais teocrático, mais racista, mais perigoso e muito mais extremo. Não só para a Palestina, mas também para os países vizinhos. O histórico era impossível, mas ainda assim esperavam conciliar, de algum modo, valores universais como democracia e liberalismo com racismo e colonialismo.

Uma pergunta que deve ter respondido muitas vezes... Como um povo que sofreu tanto pode chegar a esse ponto?

As vítimas muitas vezes se tornam vitimários. Crianças que sofreram abusos têm grande probabilidade de se tornarem pais abusivos. Portanto, em primeiro lugar, psicologicamente podemos compreender.

Em segundo lugar, penso que há um mal-entendido: a maioria dos judeus que vivem hoje em Israel não são vítimas do Holocausto. O número de pessoas que realmente sofreram o Holocausto em Israel é muito reduzido e não recebem um tratamento justo.

A maioria dos judeus que morreram no Holocausto não era sionista. Muitos acreditavam no socialismo, eram judeus religiosos. Os nazistas mataram muito poucos sionistas e mataram muitos judeus. Portanto, não são as vítimas do Holocausto que agem assim, mas o Estado que se autoproclama representante das vítimas.

Neste ano eleitoral, haverá consequências para Netanyahu por este conflito entre Israel e Palestina e o genocídio em Gaza?

Não sabemos quais consequências poderão ter para Netanyahu, pois possui uma base de apoio de pessoas que votarão nele aconteça o que acontecer, cuja dimensão desconhecemos. Em novembro de 2022, essa base foi suficiente para que obtivesse mais de 64 cadeiras.

As pesquisas apontam que desta vez não conseguirá e que não terá votos suficientes para formar governo. Por isso, pode impedir a realização das eleições ou alegar que foram fraudulentas. Mesmo que perca as eleições, não será o fim de Netanyahu. Se perder, voltará. E não estou seguro de que vá perder.

Que futuro enxerga para a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã?

Acredito que não haverá um grande acordo. De repente, todos dirão: “vencemos”. Tenho certeza de que terminará assim. E terminará quando houver eleições de meio de mandato nos Estados Unidos e eleições em Israel. Não antes, porque a guerra é muito política. Não tem nada a ver com o perigo à existência de Israel ou com bombas atômicas. É uma guerra política que tinha como objetivo ajudar Netanyahu a vencer as próximas eleições.

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