"Israel não é mais uma democracia". Entrevista com Anna Foa

Foto: Anadolu Ajansi

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02 Junho 2026

Anna Foa, uma grande intelectual, uma voz livre e corajosa, uma consciência crítica da diáspora judaica. Isso explica o extraordinário sucesso de seu livro "il Suicidio di Israele" (Laterza). Sucesso repetido por seu livro mais recente, "Mai più" (Laterza).

A entrevista é de Umberto De Giovannangel, publicada por "l'Unità", 30-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis a entrevista.

Primo Levi escreveu: "Toda época tem seu fascismo." Professora Foa, Israel também está vivendo o seu?

Certamente. Embora talvez chamá-lo de fascismo não seja propriamente correto. Há muitas diferenças...

Por exemplo?

Bem, por exemplo, o messianismo; por exemplo, o fanatismo. Afinal, o fascismo não era tão fanático assim, exceto poucos. Desse ponto de vista, era bem pequeno. Em vez disso, esses agora são loucos delirantes que pensam ser movidos por Deus, como marionetes controladas por Ele. E, além disso, o racismo. Esses elementos são muito fortes, em termos identitários, da visão de si mesmos em relação ao resto do mundo. Claro, nós também tivemos isso, mas não dessa forma. Se quisermos, podemos chamá-lo de fascismo ou destruição de qualquer princípio ético, de qualquer moral, de qualquer cultura, de tudo.

Para nos manter no termo fascista, hoje, a Europa, a Itália, descobriu o monstro: Itamar Ben-Gvir. Mas será que o que está acontecendo em Israel pode ser reduzido a um único personagem, por mais repugnante que seja?

Claro que não. Se quisermos mesmo fazer um álbum dos horríveis, temos também Smotrich, que também é ministro, ou Miri Regev, também ministra, do mesmo partido de Netanyahu, o Likud. Smotrich é aquele que veio a público outro dia pedindo, e cito textualmente, para ‘Destruir 10 prédios na periferia de Beirute para cada drone. Para cada drone que ferir um de nossos soldados, vamos destruir 100 prédios’. O princípio da retaliação escrito preto no branco. A metáfora das ‘maçãs podres’ em uma cesta cheia de maçãs boas não se sustenta, e digo isso com o coração pesado. Porque uma grande parcela da sociedade israelense hoje se identifica com essas posições. Talvez não uma maioria, mas certamente uma parcela muito grande. E depois há Netanyahu, todo o governo, toda uma classe no poder, e algo que sei que magoará algumas pessoas, mesmo de boa-fé, mas ignorar a realidade dói ainda mais...

A que a senhora se refere, Professora Foa?

A um sionismo desprovido de qualquer princípio moral, de qualquer empatia pelo outro, e reduzido a algo horrendo.

Na sua opinião, o que mais atrai uma parcela significativa da população israelense nessa narrativa que a direita israelense promove, em todas as suas articulações políticas, inclusive por meio de guerras?

Eles têm medo. Eles realmente acreditam que estão em perigo. E isso é o mais terrível. Eles exaltam o país-gueto cercado por um mundo hostil, um país-gueto que só a força pode salvar. Somente matar o inimigo pode levar à salvação. Estão convencidos de que o Holocausto possa se repetir. Tiveram uma educação, em toda a história de Israel, que os levou a isso. Não a história do sionismo inicial, mas certamente depois do Holocausto. Há o peso de uma memória que se transforma em total fechamento em relação ao outro, que se transforma em medo constante, a obsessão de que o outro possa repetir o que aconteceu, algo que empurra nessa direção destrutiva e autodestrutiva. É uma fatia de Israel, repito. Depois, há os indiferentes, aqueles que cuidam da própria vida. Existem os ativistas, heroicos, que arriscam suas vidas e tudo o que têm para manter viva uma réstia de esperança. Certamente, há uma grande parcela da opinião pública israelense que acredita que o antissemitismo possa se desencadear contra eles e se sente em perigo, e isso os leva a fazer qualquer coisa, porque tudo é justificável por essa defesa dos judeus. Somente dos judeus. E isso também acontece por eventos que prestam honra àqueles que os realizam.

A que se refere?

Estou pensando nos ativistas pela paz que colocam seus corpos diante dos colonos na Cisjordânia, dizendo eu sou judeu e você terá que passar por cima do meu cadáver para chegar àquele palestino. Agora até isso está desmoronando, porque a essa altura os colonos e o exército também acham que têm o direito de matar os judeus. Antes, havia a ideia de que os judeus, em qualquer circunstância, precisavam ser protegidos.

Em relação à relação entre memória histórica e presente. Thomas Friedman, colunista de longa data do New York Times e três vezes vencedor do Prêmio Pulitzer, cunhou uma definição forte e precisa de Israel: "Um Yad Vashem nuclear".

Yad Vashem, também se tornou isso. Se pensarmos em como nasceu, nos causa arrepios. Nasceu como um desejo de memória e também de reconhecimento da ajuda do outro, dos Justos. Infelizmente, tornou-se uma espécie de cofre-forte identitário, onde levar todos os que ainda estão vivos para mostrar-lhes como se tornaram fortes e corajosos os judeus, e como souberam transformar sua memória em um impulso para se defender a todo custo e, portanto, para matar o outro. Existe um Israel resiliente, que mesmo nestes anos terríveis encontrou a força, a coragem, para se manifestar em massa repetidas vezes para contestar o governo de Netanyahu, Ben-Gvir, Smotrich e outros. Esse Israel resiliente parece carecer de uma representação política adequada. Vou lhes dar um exemplo: a lei da pena de morte seletiva, que diz respeito aos palestinos acusados de terrorismo contra os judeus, mas não colonos que matam palestinos, essa lei foi aprovada pela grande maioria dos partidos no Knesset. Não foi votada por Yair Golan, pelos Trabalhista. Foi votada por partidos da oposição que, de qualquer forma, são ainda assim de direita. Bennett, por exemplo, ou Liebermann, políticos que não muito tempo atrás eram considerados como Netanyahu, e que hoje se opõem a ele por suas próprias razões, por conflitos com o primeiro-ministro e ambições de poder. Há também uma oposição política que reúne o que restou do Meretz, dos Trabalhistas, que é absolutamente incapaz de sair da ideia sionista, ou seja, do suprematismo judaico. Se você pensar em um grande Estado com dois povos, mesmo com formas de confederação, você tem que renunciar à ideia sionista. Essa é, em resumo, a essência do conflito entre democracia e sionismo. Se houver a supremacia judaica e o Estado dos judeus, não pode haver um Estado plenamente democrático. Esse Estado não plenamente democrático tornou-se um Estado nada democrático, no qual a democracia foi eliminada até mesmo dentro do país.

O que significa?

Estão surgindo propostas de lei extremamente graves, como aquelas que visam limitar o acesso dos partidos árabes às eleições. Estamos num campo em que já não se pode mais falar em democracia. E isso não pode ser atribuído apenas à direita messiânica e racista de Smotrich e Ben Gvir. Existe uma hesitação histórica de partidos que se identificam com Israel, o Meretz, por exemplo, sempre foi um partido sionista de esquerda, assim como os Trabalhistas, embora com diferentes nuances. Isso é indiscutível. Mesmo em suas melhores explicitações políticas, o sionismo é uma gaiola que aprisiona Israel. A única possibilidade de salvação para Israel era aquela de uma aliança eleitoral entre a oposição de esquerda e os partidos árabes. No entanto, quero distinguir entre a dimensão partidária, político-eleitoral, e a dimensão que vem de baixo, que se concretiza nas manifestações dos últimos meses e anos.

Para nos mantermos no campo político, se tivesse sido alcançado aquilo que era discutido favoravelmente há apenas seis meses, e que as pesquisas previam como vencedor ou pelo menos em forte crescimento nos consensos, ou seja, a aliança entre os partidos árabes e uma parte da oposição, aquela chamada de esquerda, isso provavelmente poderia ter levado a uma mudança efetiva de rumo, e não apenas a uma limpeza externa do governo Netanyahu, supondo que se consiga derrubá-lo, o que de forma alguma é garantido.

Essa aliança não foi alcançada precisamente pelo medo de renunciar à palavra sionismo. O próprio Yair Golan (líder do Partido Democrático, herdeiro do Trabalhista e do Meretz, ndr), que é o mais à esquerda dessa oposição política, disse que ainda não é o momento para falar sobre um Estado palestino. Claro, as eleições são em outubro, ou talvez até antes, e ele claramente pretende manter os votos do eleitorado judeu, mas dizer algo assim hoje tem um peso muito, muito grande.

Nestes anos trágicos, não tem havido um processo de desumanização do outro em Israel?

Claro que sim. Basta olhar para o que está acontecendo. Sem esse processo de desumanização, as coisas terríveis que vemos nas imagens dos ataques contra crianças palestinas na Cisjordânia, os ativistas da Flotilha forçados a se ajoelhar no chão e zombados, humilhados, espancados... Tudo isso são sinais claros de um desejo de desumanização. As crianças palestinas são os inimigos de amanhã. Os ativistas da Flotilha não são seres humanos. Infelizmente, isso acontece sempre que se chega a esses eventos trágicos envolvendo sangue, morte, destruição e racismo.

No passado, e por muitos anos, o Tsahal, o exército israelense, foi visto por toda a população, independentemente da orientação política, como uma instituição, um bem superior com o qual se identificar. Hoje, mesmo nesse âmbito, estão ocorrendo processos aterrorizantes.

Sim, aterrorizantes. De infiltrações religiosas: há algumas companhias do Tsahal que são consideradas extremamente perigosas, aquelas que estão sendo acusadas pelos ativistas de direitos humanos de terem cometido crimes gravíssimos. Muitas vezes, são as unidades nas quais se concentra um grande número de religiosos. O exército israelense era laico. Um exército do povo, no sentido de que, com três anos de serviço militar mais a reserva, era um exército que mantinha contatos constantes com o povo. Sempre me surpreendeu a disposição dos israelenses de se preocuparem mais com os soldados do que com os civis. Para todos os israelenses, a morte de um soldado era algo extremamente grave, mais do que a de um civil, mais do que a de uma criança morta em um atentado. Isso decorre justamente do fato de ser um exército do povo, algo ambivalente, que tem dois aspectos: por um lado, o fato de o soldado fazer parte da população; ele não é, ou não era, como em nosso país, um corpo separado de especialistas que podem ser mortos justamente pelo ofício que realizam. Agora, com a transformação em curso, o Tsahal é o exército que leva adiante a desumanização e a morte.

Suas reflexões me trazem à memória a história de Uri Grossman, o filho de David Grossman, o grande escritor israelense. Uri era um motorista de tanques, criado em uma família progressista e pacifista, e foi morto no Líbano em agosto de 2006 por um míssil antitanque nos últimos dias daquela guerra. Lembro-me das comoventes palavras do discurso fúnebre de David Grossman para seu filho Uri, na praça lotada de Tel Aviv dedicada a Yitzhak Rabin. Professora Foa, o que está acontecendo hoje não é também uma afronta à memória e ao sacrifício de tantos como Uri?

Certamente é, para os muitos Uri de Israel, mas também é uma afronta à memória dos judeus em geral, dos judeus da diáspora, daqueles que morreram no Holocausto. É um insulto a todos os judeus que não estão ali, neste momento, hasteando a bandeira do Terceiro Templo, visto que essa bandeira também está manchando Israel hoje, e a dizer que Deus assim o quer.

Será possível que, no fim das contas, a parar Netanyahu possa ser seu antigo amigo de Washington, Donald Trump, com um suposto acordo com o Irã?

Essa é a esperança da oposição israelense, ou pelo menos parte dela, que já havia surgido quando Trump foi eleito. Diziam: bem, agora está fingindo ser amigo dos judeus, mas pode mudar de ideia a qualquer momento se essa tão alardeada amizade acabar se voltando contra seus interesses. É claro que pode fazer isso, e já ameaçou fazê-lo diversas vezes ao longo dessa história. Se um acordo fosse firmado com o Irã e fosse abandonado Israel, que certamente não poderia continuar a guerra sozinho, isso seria um fato clamoroso que com certeza desarticularia o governo de Netanyahu. Não sei, porém, até que ponto tudo isso levaria a uma solução efetiva para os problemas de Israel e à sua transformação. Uma mudança porque um Trump decidiu não levar adiante sua aliança. Não acho que isso poderia bastar para evitar o suicídio de Israel.

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