02 Junho 2026
"Como adverte o Papa Leão XIV, a construção de uma civilização mais humana começa quando aprendemos a desarmar nossas palavras, para que elas deixem de ser instrumentos de hostilidade e voltem a ser caminhos de verdade, justiça e fraternidade", escreve Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor. É formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora (MG).
Eis o artigo.
Na encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV recorda que um dos primeiros passos para a construção de uma civilização autenticamente humana consiste em cuidar daquilo que dizemos.
Há violências que não deixam hematomas, mas produzem feridas profundas. Há guerras que não começam com armas, mas com palavras. Em um tempo marcado pela velocidade das reações, pela impulsividade digital e pela banalização do discurso agressivo, torna-se urgente recuperar a consciência de que a linguagem nunca é neutra. As palavras constroem, mas também destroem. Aproximam, mas igualmente afastam. Curam, mas podem adoecer.
Em uma passagem particularmente significativa da nova encíclica, o Papa Leão XIV afirma: “Desarmemos as palavras e contribuiremos para desarmar a Terra. O poder das palavras é enorme e experimentamo-lo na comunicação quotidiana, quando alguém nos diz algo que altera o nosso estado de espírito, para melhor ou para pior. ‘A paz começa em cada um de nós: na forma como olhamos para os outros, ouvimos os outros, falamos dos outros; e, neste sentido, a forma como comunicamos é de importância fundamental: devemos dizer “não” à guerra das palavras e das imagens, devemos rejeitar o paradigma da guerra’. Todos devemos, portanto, fazer um exame de consciência sobre as palavras que usamos, sobre os preconceitos de que estão impregnadas e sobre a agressividade, patente ou latente, que nelas habita. Temos uma possibilidade real de contribuir para o bem sempre que dizemos a verdade, quando damos um conselho sábio, quando apoiamos quem precisa de conforto, quando denunciamos uma injustiça, quando damos voz a quem a não tem.” (Magnifica Humanitas, n. 214). A afirmação parece simples, mas é profundamente provocadora. Antes de qualquer transformação estrutural, econômica ou política, existe uma conversão cotidiana que passa pela linguagem. A paz não é construída apenas por tratados internacionais, mas também pela forma como cada pessoa se dirige ao próximo.
Vivemos em uma cultura que transformou a comunicação em reação instantânea. Opina-se antes de compreender, acusa-se antes de verificar, condena-se antes de escutar. O ambiente digital potencializou essa lógica ao oferecer palco para julgamentos sumários, ironias violentas e discursos que reduzem o outro à caricatura. Não por acaso, nossa sociedade parece emocionalmente exausta: aprendemos a falar muito, mas desaprendemos a dialogar.
O Papa Leão XIV observa que a paz começa “na forma como olhamos para os outros, ouvimos os outros, falamos dos outros”. Trata-se de uma advertência importante para uma época marcada pela polarização e pela agressividade verbal. A deterioração do debate público não é apenas um problema de convivência social; é um sintoma de uma crise mais profunda da própria compreensão do ser humano. Quando o outro deixa de ser reconhecido como pessoa e passa a ser tratado como obstáculo, inimigo ou simples objeto de ataque, a linguagem perde sua dimensão ética e converte-se em instrumento de dominação.
A palavra possui um poder profundamente antropológico porque ela revela quem somos. O ser humano não apenas utiliza a linguagem; ele se manifesta por meio dela. O que dizemos expõe nossa visão de mundo, nossos afetos, nossas feridas e nossos valores. Uma palavra pode restituir a dignidade de alguém ou reforçar sua humilhação. Um elogio sincero pode reacender a esperança; uma crítica cruel pode permanecer como cicatriz por anos. Quantas pessoas carregam marcas não de agressões físicas, mas de frases que ouviram na infância, na escola, em casa ou no ambiente de trabalho?
Por isso, desarmar as palavras não significa tornar o discurso fraco ou covarde, mas devolvê-lo à sua vocação ética. Não se trata de silenciar a verdade, mas de impedir que a verdade seja usada como instrumento de violência. Denunciar injustiças continua sendo necessário. Corrigir e Divergir continua sendo necessário. Mas há uma diferença decisiva entre firmeza e brutalidade, entre verdade e humilhação, entre crítica e destruição moral.
A própria encíclica destaca que todos devemos realizar um exame de consciência sobre os preconceitos, a agressividade e as intenções que habitam nossas palavras. Tal reflexão é particularmente necessária em uma sociedade que premia a visibilidade, a repercussão e o impacto imediato. Muitas vezes, busca-se vencer uma discussão em vez de construir uma compreensão comum. Nesse cenário, a linguagem deixa de ser ponte e transforma-se em trincheira.
A degradação do debate revela justamente essa incapacidade contemporânea de sustentar os argumentos. Discordar passou a significar eliminar simbolicamente o outro. O adversário já não é alguém com quem se debate, mas alguém a ser destruído verbalmente. Essa lógica contamina famílias, escolas, igrejas, redes sociais e instituições. Quando a linguagem se converte em arma permanente, a convivência torna-se impossível.
Entretanto, Leão XIV recorda que existe uma possibilidade concreta de transformação sempre que utilizamos as palavras para promover o bem: quando dizemos a verdade, oferecemos um conselho prudente, confortamos quem sofre, denunciamos uma injustiça ou damos voz àqueles que foram silenciados. A palavra não é apenas um instrumento de comunicação; ela é uma forma de participação na construção do mundo comum.
Num mundo marcado pela superficialidade das reações e pela radicalização dos discursos, talvez um dos maiores gestos de humanidade seja recuperar a responsabilidade pelo que dizemos. Porque, antes que guerras destruam cidades, palavras já destruíram relações. E antes que a paz se estabeleça nas estruturas do mundo, ela precisa nascer na linguagem com que tratamos o outro. Como adverte o Papa Leão XIV, a construção de uma civilização mais humana começa quando aprendemos a desarmar nossas palavras, para que elas deixem de ser instrumentos de hostilidade e voltem a ser caminhos de verdade, justiça e fraternidade.
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