08 Mai 2026
Uma condenação severa das terapias de conversão e formas mais participativas de escolha dos bispos da Igreja Católica são pontos que se podem destacar dos relatórios de mais dois grupos de estudo criados ainda no tempo do Papa Francisco, um sobre as "questões emergentes" e outro sobre a seleção e escolha dos bispos.
A informação é publicada por 7Margens, 06-05-2026.
O Grupo de Estudo 9 tinha por tarefa aprofundar "Critérios teológicos e metodologias sinodais para o discernimento partilhado de questões doutrinárias, pastorais e éticas controversas". Adotando uma metodologia de trabalho sinodal, procurou envolver e escutar pessoas de diversos contextos eclesiais e áreas de especialização, através de dois seminários centrados numa versão inicial do texto.
No processo, o grupo entendeu deixar de lado a expressão "questões controversas", adotando, antes, "questões emergentes". "Enquanto a primeira — diz o grupo — sugere a necessidade teórica de uma abordagem de 'resolução de problemas', 'questões emergentes' aponta para as qualidades, disposições e diálogo necessários para a 'conversão relacional' que todo o Povo de Deus é chamado a abraçar na sua 'jornada sinodal'".
O relatório apresentado estrutura-se em três partes. A primeira foca aquilo que é designado por "uma mudança paradigmática na missão da Igreja e na dinâmica sinodal que a promove", radicada no Concílio Vaticano II e explicitada na Veritatis Gaudium. Pode desenvolver-se através de "diversas dinâmicas-chave a serem vivenciadas concretamente pelas comunidades cristãs para que possam avançar de maneira sinodal, a saber: conversão relacional; aprendizagem em conjunto; e, finalmente, transparência".
A segunda parte foca a necessidade de "colocar em prática o princípio da pastoralidade numa Igreja sinodal", entendendo esse princípio como a assunção da responsabilidade pelo interlocutor, que a proclamação do Evangelho deve assumir. Nesta linha, salienta o relatório, "o ponto de partida não consiste na correção (ao nível doutrinal, pastoral ou ético) de quaisquer situações particulares consideradas problemáticas na experiência concreta da fé", antes começa com "o reconhecimento e discernimento dos sinais de bondade que as práticas de fé expressam, muitas vezes por meio de uma forma de sabedoria difundida e informal". Nesse sentido, o papel específico da autoridade "é, antes de tudo, escutar, ativar processos de discernimento e acompanhá-los para encontrar consenso — mesmo que diferenciado — quando este contribui para o bem comum".
Na terceira parte, o relatório propõe alguns caminhos a seguir que visam "servir o discernimento das questões emergentes e a participação ativa dos sujeitos concretos, pessoais e comunitários diretamente envolvidos: escutar uns aos outros, estar atento à realidade e reunir diferentes áreas de conhecimento".
São aí apresentados dois exercícios de discernimento sinodal relativos a duas questões emergentes: a experiência de pessoas de fé com atração pelo mesmo sexo; e a experiência de não violência ativa por parte de indivíduos e associações em situações de guerra.
No primeiro caso, nos testemunhos de dois católicos gays casados — um deles de uma pessoa de Portugal —, é reconhecido o papel da Igreja na "solidão, angústia e estigma que acompanham as pessoas com atração pelo mesmo sexo e as suas famílias". E nesse quadro, reflete-se também sobre os impactos negativos da terapia de conversão, ou "os efeitos devastadores das terapias reparadoras destinadas a recuperar a heterossexualidade".
Em torno desses casos, cada exercício — salienta o documento do Grupo de Estudo — "permitiu reconhecer as diversas etapas pelas quais as pessoas passam, oferecendo algumas reflexões e novas questões como contribuição para a implementação de práticas sinodais de discernimento em diferentes contextos eclesiais".
Clero, religiosos e leigos devem participar na escolha dos bispos
Do Grupo de Estudo nº 7, que teve como tarefa debruçar-se sobre "Alguns aspectos da pessoa e do ministério do Bispo", foi também publicado, pela secretaria geral do Sínodo, o relatório final, mas apenas a primeira parte — referente aos critérios para a seleção de candidatos ao episcopado. Ficam ainda por conhecer os contributos sobre aspectos tais como a função judicial dos bispos, a sua formação e a natureza e estrutura das visitas Ad limina apostolorum.
O trabalho agora divulgado propõe que a seleção de candidatos ao episcopado deve constituir "um momento de autêntico discernimento eclesial, guiado pelo Espírito Santo num clima de oração e escuta". Para isso, sublinha que também é necessária atenção à formação e nomeação dos núncios apostólicos — os quais o Grupo considera "importante que possuam um perfil sinodal e missionário, de modo a buscar o mesmo nos candidatos a bispo".
Cada diocese deveria ativar periodicamente processos de discernimento sobre a sua própria situação e necessidades, em especial quando se aproxima uma sucessão episcopal. Neste caso, sustenta o relatório, o prelado diocesano "deve convocar o Conselho Presbiteral e o Conselho Pastoral Diocesano, cujos membros expressam, de forma colegiada, uma opinião sobre as necessidades da diocese e submetem ao bispo — em envelope lacrado — os nomes dos sacerdotes que consideram adequados ao episcopado". A consulta deve incluir também o Cabido da Catedral, o Conselho de Finanças, o Conselho de Leigos e "representantes de pessoas consagradas, de jovens e dos pobres".
O Grupo de Estudo destaca as "competências sinodais" entre as qualidades exigidas dos candidatos a bispos, especificando o que deve possuir: "a capacidade de construir comunhão, a prática do diálogo, um profundo conhecimento das culturas locais e a vontade de se integrar nelas de forma construtiva".
O relatório insta ainda os dicastérios da Cúria Romana a reverem os seus procedimentos numa direção mais sinodal e propõe formas periódicas de avaliação independente dos processos de seleção.
O cardeal Mario Grech, secretário geral do Sínodo, considera que estes dois relatórios agora divulgados "tocam o coração da vida eclesial". O dos bispos enfatiza que a escolha de um prelado é "um momento de autêntico discernimento da comunidade cristã: não existe pastor sem rebanho, nem rebanho sem pastor".
Quanto ao das questões emergentes, o cardeal diz que o seu relatório "oferece instrumentos concretos para enfrentar as questões mais difíceis, sem fugir da complexidade: ouvir as pessoas envolvidas, ler a realidade, reunir os conhecimentos. É o método sinodal aplicado às situações mais exigentes."
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