"A visita do Papa salva as relações EUA-UE, mas sem a China será difícil chegar à paz". Entrevista com Andrea Riccardi

Foto: Vatican News

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06 Mai 2026

Superar a ruptura. “O diálogo Prevost-Rubio mantém a Europa e os EUA unidos. Trump pediu ao Papa que se juntasse ao clube de Gaza…”, balança a cabeça Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, promotor de corredores humanitários da África e do Oriente Médio, ex-ministro da Cooperação Internacional e mediador de paz em Moçambique, Guatemala e Costa do Marfim.

“Não existem mais blocos estáveis, estamos em uma situação de alianças temporárias ou múltiplas, com mudanças internas constantes. Rubio é sensível à situação na Santa Sé e está aqui após o atrito do mês passado pelo ataque de Trump e a resposta seca e nobre do Papa: ‘não sou um político, continuarei a falar de paz e do Evangelho, não tenho medo’”.

A entrevista é de Giacomo Galeazzi, publicada por La Stampa, 05-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Será que Rubio conseguirá resolver a ruptura?

O ataque de Trump saiu pela culatra e desagradou os católicos EUA de todas as correntes, que estão felizes de ter um Papa estadunidense que apenas está cumprindo sua missão de se opor às guerras. Isso é um problema para a Casa Branca, e Rubio está reatando os fios do diálogo sobre as questões internacionais: Oriente Médio, Ucrânia, Cuba, Venezuela.

Então, uma viagem "ad hoc"?

Sim, e isso confirma a importância da Santa . Trump não pergunta quantas divisões o Papa tem, como Stalin fazia, mas agiu impulsivamente. Não se sabe quando começará o pós-Trump e qual será o papel de Rubio nele, mas é um católico por tradição familiar e, mais do que Vance, está apto para discutir com a Santa Sé, que presta muita atenção a questões latino-americanas como Cuba e o futuro da Venezuela. Isso se deve ao background de Prevost e à alma latina da Igreja nos EUA. As Américas são um bloco geoeclesial cada vez mais único, como ficou evidente na recente cúpula na Flórida dos bispos do Canadá à Argentina. Já o eram na visão de Karol Wojtyla.

Qual o papel da Igreja?

É um ator importante na unidade do continente. Fala-se de uma nova Doutrina Monroe, mas aqui estamos lidando com uma visão eclesial pan-americana. Não Rubio, mas os cardeais estadunidenses e a Conferência Episcopal falam em nome dos 50 milhões de católicos estadunidenses. Prevost está em sintonia com o catolicismo estadunidense, é um Papa amado por seus concidadãos, um artífice da recomposição. A polarização é uma questão que Leão XIV abordou imediatamente, numa tentativa de superá-la e, assim, construir uma verdadeira unidade.

Existe também uma questão chinesa?

Durante o governo Trump anterior, o então Secretário de Estado Pompeo foi ao Vaticano para pressionar por uma mudança de atitude em relação à China, ignorando que se trata de uma política que vem de longe, do Cardeal Consalvi, no início do século XIX. É a continuação de uma linha tradicional para regularizar a situação dos católicos em países onde não é normalizada. Um exemplo típico da política que Casaroli e Silvestrini teriam seguido e que o Cardeal Parolin leva adiante hoje em relação à China. Francisco sempre abençoou essa abordagem, que já vinha sento implementada antes dele, pela tradição diplomática: procurar o acordo em todas as formas para garantir um espaço adequado para os católicos, porque a Igreja não pode viver numa condição de clandestinidade.

Nenhuma paz é possível sem envolver Pequim?

Rubio está bem informado sobre o diálogo do Vaticano com a China. A relação da Santa Sé com Pequim não é guiada por cálculos políticos, mas por uma visão pastoral. Hoje, Pequim, que tem voz ativa em situações como a do Irã, está ciente de que a Santa Sé tem um papel internacional. A China é um ator global. Quando Macron propõe uma conferência sobre o Líbano, solicita a presença dos Cinco Grandes do Conselho de Segurança da ONU. Há um século que a Santa Sé está convencida de que é necessário negociar até ao fim, e isso é ainda mais verdadeiro hoje, quando as guerras não se ganham nem se perdem. São conflitos desiguais, assimétricos, e até mesmo um país fraco pode bloquear um país grande e forte, como demonstra a crise no Irã, onde também existe uma pequena comunidade católica caldeia e uma latina liderada por um cardeal de origem belga.

O oposto de Trump?

A Santa Sé é contrária a uma política agressiva, a ações violentas e à lógica de pensar em si mesmos que vai do egocentrismo pessoal ao egoísmo nacional. Como se cada país devesse se isolar para se salvar da maré do mundo. A Santa Sé, em vez disso, acredita na diplomacia, na criação de laços. A confiança na diplomacia no Vaticano não é um conceito meramente político; é um valor mais profundo; significa acreditar no diálogo entre governos, entre religiões, entre civilizações, entre culturas. Foi isso que Paulo VI disse à ONU e o que todos os papas sempre repetem.

A Europa parece marginalizada.

Para a Santa Sé, o papel da Europa é central. A Igreja é cada vez mais africana, asiática e do Sul. Para um Papa não europeu como Prevost, a Europa é importante, e o veremos quando começarem as suas viagens aos grandes países da UE. O mundo unificado não eliminou a guerra. E a Europa, mesmo aos olhos de seus cidadãos, parece distante e perdeu credibilidade. Mas diante dos desafios do futuro, a Europa é uma necessidade histórica, não uma retórica. E a unidade europeia, mesmo em tempos de Guerra Fria, nunca foi contra. Com a exortação apostólica ‘Evangelii Gaudium’, a Igreja propôs ir às ruas, sair da instituição, das sacristias, dos planos pastorais, da autorreferencialidade, do egocentrismo e da pureza. E assim, um grande povo se pôs em caminho. A idade da raiva pode se tornar uma idade da fraternidade. E como dizia o teólogo ortodoxo Olivier Clément, as únicas revoluções criadoras da história nasceram da transformação dos corações.

Qual é o cenário atual?

Mundos inteiros desapareceram, como os regimes do Leste e as forças da utopia revolucionária; os novos mundos do Sul perderam a esperança de serem novos e conheceram a guerra. Tudo se globalizou, tornando-se um gigantesco mercado. Mas pouco mudou nos poderes que governam a história: dinheiro e vontade de dominar. O futuro é viver juntos, precisamos nos libertar de fardos pesados, ou seja, de desconfiança, fundamentalismos e ódio.

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