22 Abril 2026
O conflito entre o Papa e Trump pode ser o início de uma tensão entre o catolicismo e o populismo de direita.
A reportagem é de Carlos Pagni, publicada por El País, 21-04-2026.
A disputa que se desenrolou na semana passada entre o Papa Leão XIV e Donald Trump teve um impacto inevitável no cenário internacional, mas também dentro das fileiras do catolicismo. Devemos prestar atenção a esse impacto interno, pois ele pode ser o ponto de partida para uma tensão mais duradoura, não mais com Trump, mas com o populismo de direita que detém o poder em diversas democracias ocidentais.
A origem do conflito foi agressiva, mas, por assim dizer, anedótica. Trump desconsiderou as posições do Papa em favor da paz e de uma ordem internacional baseada em regras. Ele o fez em seu estilo inconfundível, ou seja, quase insultuoso. Disse que Leão XIV é a favor do crime e pratica uma diplomacia aterradora. O contexto discursivo dessas declarações não era dos mais apropriados: Trump publicou em sua rede social, Truth Social, e depois apagou, imagens de si mesmo, geradas por inteligência artificial, nas quais aparecia com a semelhança de Cristo.
Quando o pontífice insistiu em sua mensagem habitual, o presidente dos Estados Unidos elevou ainda mais o tom de voz, acusando-o de apoiar ataques nucleares iranianos e de incentivar o crime em cidades americanas. Leão XIV, então, afirmou que o mundo estava sendo conduzido ao caminho da violência por um grupo de tiranos. Entendeu-se que ele estava redobrando sua posição. Mas esclareceu que aquele sermão, um dos vários que proferiu durante sua viagem à África, havia sido preparado antes do início da disputa.
O confronto teve consequências políticas de alcance variável. Uma delas é que, em plena campanha eleitoral, mobilizou todos os bispos americanos contra o presidente. Isso inclui os mais próximos da Casa Branca, como Robert Barron, bispo de Winona-Rochester, que integra a Comissão de Liberdade Religiosa criada por Trump. Atacar o Papa pode ter sido uma tática de campanha inadequada, visto que muitos eleitores de Trump são católicos. Além disso, alguns votaram nele por serem católicos, identificando-se com sua posição antiaborto. Organizações como a CatholicVote, que representam esse eleitorado, condenaram as declarações de Trump.
No campo das relações internacionais, o conflito teve um impacto negativo sobre o Presidente dos Estados Unidos. O exemplo mais notável foi o distanciamento da Primeira-Ministra italiana, Giorgia Meloni, que se aliou ao Papa. É impossível determinar se o gesto de Meloni foi espontâneo ou se, na realidade, ela já vinha aguardando há tempos uma desculpa para romper com Trump, cujas posições se tornavam cada vez mais indefensáveis para o seu próprio eleitorado. Meloni havia sido, até então, a principal aliada de Trump na Europa.
Mais previsível foi o apoio ao Vaticano por parte de líderes progressistas que se opõem à política externa de Trump, especialmente no Oriente Médio. Reunidos em Barcelona para mais um encontro em defesa da democracia, quase todos aplaudiram Leão XIV. O mais enfático foi Lula da Silva, do Brasil, que não só emitiu declarações expressando solidariedade ao pontífice, como também foi à catedral da Sagrada Família para se ajoelhar diante do altar e rezar pela paz. Lula anunciou durante a viagem que concorrerá à reeleição. Ele terá que derrotar Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro — ou seja, alguém de uma família que personifica uma aliança simbiótica com Trump.
Independentemente dessas posições no cenário global, é importante notar o efeito interno da mensagem de Leão XIV. Até esse diálogo com Trump, católicos praticantes, e especialmente bispos, especulavam que o preboste americano manteria uma abordagem neutra e despolitizada. Essa estratégia contrastaria com o ativismo progressista de seu antecessor, Francisco, em relação à agenda política e social. Em outras palavras, Leão XIV conduziria um papado discreto, permitindo-lhe curar as feridas abertas por Jorge Bergoglio, que enfrentou desafios significativos da ala conservadora da Igreja, particularmente nos Estados Unidos.
Essa imagem foi desmentida na última semana. Prevost se manifestou firmemente contra o que é identificado como liderança populista de direita — a de Trump. Ele se identificou, portanto, mais do que o esperado com Francisco, que havia sido muito ativo em sua dissidência em relação à Casa Branca, especialmente no que diz respeito aos ataques à Faixa de Gaza após o brutal ataque do Hamas em 7 de outubro de 2013.
Por que essa mudança no perfil do novo Papa é relevante? Simplificando: porque, como instituição organizada em torno de uma obediência hierárquica, todas as igrejas locais agora se sentem autorizadas a desempenhar um papel político. As declarações de Prévost foram um ato que possibilitou isso.
Essa interpretação, que vem ganhando força dentro da hierarquia da Igreja, é corroborada por outro detalhe: o arcebispo de Buenos Aires, D. Jorge García Cuerva, anunciou no fim de semana que Leão XIV poderá visitar a Argentina este ano. Trata-se de um anúncio significativo, não apenas por se tratar da terra natal de Bergoglio, para a qual seu antecessor sempre se recusou a retornar, mas também por ser o país governado por Javier Milei, cujo apoio às políticas de Trump não é apenas enfático, mas beira o fanatismo.
A política muitas vezes produz harmonias misteriosas.García Cuerva anunciou esse desenvolvimento em meio a um evento de proporções impressionantes: centenas de milhares de pessoas compareceram ao concerto de música eletrônica de Guilherme Peixoto, padre e DJ que veio de Portugal a Buenos Aires. Peixoto dedicou sua apresentação à memória do Papa Francisco. Durante o evento, foi lida uma mensagem de Leão XIV. A cerimônia aconteceu na famosa Plaza de Mayo, em frente à Casa Rosada, sede do governo. Mas Milei não estava lá. Ele estava em Israel, onde havia viajado para expressar seu apoio incondicional a Benjamin Netanyahu. Uma simetria eloquente.
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