18 Abril 2026
"Nem mesmo Habermas pode nos salvar dessa deriva. Só podemos esperar que suas reflexões ajudem, quando for possível fazê-lo, a projetar um futuro menos incivilizado."
O artigo é de Fulvio Ferrario, professor de Teologia Sistemática na Faculdade Valdense de Teologia em Roma, publicado por Settimana News, 17-03-2026.
Eis o artigo.
Há algo de simbólico na morte de Jürgen Habermas (18/06/1929 – 14/03/2026) nesta fase da história mundial e do Ocidente.
O filósofo, como se sabe, provém da Escola de Frankfurt: os mestres Max Horkheimer e Theodor W. Adorno buscaram conduzir o que poderíamos chamar de uma crítica iluminista do Iluminismo, entendido como modalidade da razão humana no horizonte moderno. A bancarrota do pensamento e da própria civilização representada pelo Nazionalsocialismo não constitui, segundo os dois frankfurtianos, um puro acidente de percurso, por mais catastrófico que seja, na história da razão, mas antes a tragédia de uma razão que se fecha sobre si mesma, num delírio de onipotência que desemboca na autonegação.
O ponto decisivo é que essa "dialética do Iluminismo" não é submetida à crítica a partir de um ponto de vista reacionário, que se compraz com o fracasso da razão secular, almejando restaurações intelectuais e politicamente autoritárias. Ao contrário, o Iluminismo é desafiado a pensar "para frente", questionando a si mesmo, para se propor como método crítico e não como ideologia.
Habermas prolonga as linhas dessa reflexão num pensamento muito instigante, embora sua prosa resulte frequentemente de não fácil decifração. Em sua obra mais conhecida, Teoria do agir comunicativo (Il Mulino, 1986), ele propõe o diálogo como instrumento fundamental de elaboração da convivência civil: um sistema de regras da comunicação pública permite elaborar as estruturas do espaço democrático, organizando construtivamente o pluralismo.
O filósofo caracteriza-se, utilizando a célebre expressão de Max Weber, como "desprovido de ouvido para a religião" (religiös unmusikalisch). A partir pelo menos do 11 de setembro de 2001, ele dedica porém muita atenção às possibilidades de envolvimento das religiões no debate público. O liberalismo clássico (tipicamente: John Rawls) considera que as religiões, para participar da conversa pública, devem "traduzir" suas afirmações e exigências numa linguagem, por assim dizer, "laica", isto é, universalmente acessível.
Habermas problematiza essa aparente obviedade: as religiões, afirma ele, poderiam oferecer recursos que não necessariamente são traduzíveis num código que se apresenta como neutro e universal, quando na realidade é expressão, como outros, de histórias intelectuais e políticas bem delineadas. Se as religiões não forem inseridas na conversa política, elas expressarão suas demandas de outras formas, por exemplo as do fundamentalismo e do extremismo violento.
Naturalmente, não faltam as leituras banalizantes. Um laicismo obtuso considera essas reflexões como concessões ao irracionalismo: na realidade são o exato contrário, isto é, uma tentativa de aprofundar a racionalidade pública, em perspectiva autocrítica por um lado e integrante por outro. No fronte oposto (mas é realmente tal?), o clericalismo pós-moderno (que pode ser também inter-religioso) instrumentaliza Habermas para repropor uma grotesca revanche beata sobre as conquistas da democracia liberal.
Também o diálogo com Ratzinger (Razão e fé em diálogo, Marsilio, 2004), em todo caso de grande interesse, foi frequentemente interpretado em chave harmonizante: demonstra-o, se fosse necessário, a reflexão não precisamente acomodante do filósofo sobre a ratzingeriana "lição de Ratisbona" (a lectio magistralis pronunciada por Bento XVI em 12 de setembro de 2006 na Universidade de Ratisbona, intitulada Fé, razão e universidade. Recordações e reflexões). Na realidade, o pensamento habermasiano constitui um estímulo para imaginar o pluralismo religioso em sociedades de matriz liberal; e para as Igrejas cristãs, uma contribuição para pensar a si mesmas na relatividade do pluralismo.
Os últimos desenvolvimentos, porém, são conhecidos. A onda obscurantista parece imparável e é encarnada pelo que eu definiria como uma ecumene neorreligiosa empenhada numa revolução cultural ultraconservadora: a aproximação desses substantivos e adjetivos, entre si contraditórios, descreve a natureza caótica, profundamente e conscientemente irracional, daquilo que em sua raiz é uma brutal operação de poder. Nem mesmo Habermas pode nos salvar dessa deriva. Só podemos esperar que suas reflexões ajudem, quando for possível fazê-lo, a projetar um futuro menos incivilizado.
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