09 Abril 2026
Aumento de casos de feminicídio é sintoma da crise de identidade masculina tradicional. Houve transformações profundas em relação ao trabalho e à família. A figura do “macho alfa” entrou em colapso – e o ressentimento e “nostalgia” são canalizados em violência.
O artigo é de Douglas Barros, psicanalista e doutor em ética e filosofia política pela Unifesp, publicado por Outras Palavras, 07-04-2026.
Eis o artigo.
Semanas a fio, as notícias são impactantes: a violência contra a mulher aumentou de maneira exponencial. O feminicídio estampa os principais noticiários, e a brutalidade dos assassinatos vem acompanhada de uma carga simbólica que não deixa de ser intrigante. Apesar de cada acontecimento ser único, há neles um traço comum: a fantasia masculina do controle sobre a mulher.
Em meio aos inúmeros casos, chama especial atenção o da policial Gisele Alves, cuja suspeita é a de que tenha sido assassinada pelo marido, o tenente-coronel Geraldo Neto, que se descrevia como um “macho alfa” e cobrava que a esposa fosse uma “fêmea beta obediente e submissa”. O caso é emblemático pelo conteúdo que remete a uma relação na qual a mulher é posta como um objeto do homem.
Esse discurso – que também aparece no difuso movimento redpill – revela na verdade o ocaso da expressão de uma identidade masculina sustentada por séculos como ativa e provedora. Esse ódio organizado contra a mulher, e, mais profundamente, contra as formas da identidade feminina, parece ser assim um novo sintoma no século XXI.
Ainda que, historicamente, a tentativa de dominação sobre as mulheres seja um anseio representado em políticas de controle em regimes democráticos e se estruture secularmente através do patriarcalismo, o elemento novo reside na manifestação de uma impotência que esse “macho alfa” carrega.
As transformações no mundo do trabalho ajudam a iluminar esse processo. O universo fordista, fortemente associado à figura masculina, se desfez. O trabalho produtivo perdeu centralidade, e com ele se alteraram também as formas tradicionais de organização da família. Ao longo das últimas décadas, a identidade masculina fundada na ideia de atividade, aventura e provisão foi sendo corroída.
O “Robinson Crusoé” contemporâneo já não naufraga em mares desconhecidos, mas se vê preso a serviços precários e a dívidas que parecem intermináveis. Diante de um horizonte restrito, sua identidade entra em curto-circuito: já não consegue sustentar a performance que lhe foi exigida, nem elaborar os impasses que a constituem.
É nesse ponto que emerge o ressentimento. Na aparência – e trata-se apenas de aparência –, a sensação é de que as mulheres estariam “tomando o lugar” dos homens ao se libertarem de papéis historicamente impostos. Com a masculinidade fragilizada, muitos não se veem atropelados por um processo histórico, mas como vítimas de mudanças sociais que teriam “desorganizado” a família.
Se isso não justifica a violência, ao menos ajuda a compreender como ela se organiza no presente. Trata-se de um deslocamento: da incapacidade de lidar com a própria crise para a tentativa de restabelecer, pela força, uma posição de controle já em ruína. Essa tentativa sempre se marca pela nostalgia de uma época em que supostamente os homens eram “alfas” e “aventureiros”.
Sabemos, no entanto, que nem a mulher se reduz à figura da “beta obediente e submissa”, nem o homem corresponde ao ideal de sujeito ativo, provedor e “alfa”. Quando essa fantasia entra em colapso, o que está em jogo não é sua restauração, mas a possibilidade de outras formas de relação.
Muito longe de superar os privilégios masculinos, sabemos que as mulheres, apesar do aumento do nível de qualificação para o mercado de trabalho, ainda têm salários inferiores aos homens e são minorias em cargos de chefia e liderança. A insegurança e o medo daí decorrente marcam a experiência da mulher no Brasil.
Tudo isso nos leva a concluir que esse ódio à mulher, impregnado em discursos misóginos e práticas violentas, mais do que uma impotência em ser o suposto “provedor” é também um desvio das causas estruturais que corroem o mundo social.
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