18 Março 2026
Os progressos na redução da mortalidade infantil observados no início dos anos 2000 estagnaram devido à crise climática, aos conflitos e à falta de financiamento, segundo um grupo formado por diversas agências das Nações Unidas. O grupo alerta que mais de 100 mil crianças morreram de desnutrição aguda e prevê que os cortes orçamentários do ano passado agravarão a situação.
A reportagem é de Silvia Laboreo Longás, publicada por El País, 18-03-2026.
Em 2024, último ano com dados consolidados, aproximadamente 4,9 milhões de crianças morreram em todo o mundo antes de completarem cinco anos de idade, a maioria por causas evitáveis, segundo um relatório do Grupo Interinstitucional das Nações Unidas para Estimativa da Mortalidade Infantil (UNIGME), publicado nesta quarta-feira. Quase metade dessas mortes, 2,3 milhões, ocorreu nos primeiros 28 dias de vida, com duas regiões — África Subsaariana e Sul da Ásia — respondendo por 80% de todas as mortes.
Se as tendências atuais continuarem, estima-se que 27,3 milhões de crianças morrerão até 2030, quase metade delas durante o primeiro mês de vida. A grande maioria dessas mortes projetadas se concentrará na África Subsaariana (16,8 milhões) e no Sul da Ásia (6,3 milhões).
O maior progresso na redução da mortalidade infantil ocorreu entre 2000 e 2015, período marcado por investimentos significativos voltados para a redução das mortes neonatais, infantis e maternas. No entanto, esse progresso notável agora mostra sinais de estagnação. Desde 2015, a taxa de redução da mortalidade infantil diminuiu em mais de 60%.
“São períodos diferentes [2000 a 2015 e 2015 a 2024], com estratégias de investimento distintas”, explica Danzhen You, chefe de demografia e consultora sênior de estatísticas e monitoramento do UNICEF. “Também observamos uma redução no apoio financeiro da Ajuda Oficial ao Desenvolvimento (AOD) nos últimos anos, o que pode ter retardado o progresso”, continua ela. “E há um aumento de crises e emergências, desastres relacionados ao clima e conflitos em vários países, o que representa um desafio adicional.”
Agora, uma confluência de fatores ameaça reverter os avanços conquistados. Conflitos, instabilidade econômica, impactos das mudanças climáticas, sistemas de saúde frágeis e a crescente incerteza no financiamento global para saúde e sobrevivência infantil colocam esses progressos em risco, caso não sejam abordados por meio de medidas urgentes e abrangentes.
“Olhando para 2025, receio que o próximo relatório possa apresentar dados ainda piores”, explica o Dr. Paul Ngwakum, consultor sênior de saúde do UNICEF para a África. “Os cortes reduziram os recursos disponíveis, especialmente para alcançar crianças em áreas de difícil acesso, treinar agentes comunitários de saúde e adquirir os suprimentos necessários para tratar as principais causas de morte infantil: antibióticos para pneumonia, tratamentos para malária e antirretrovirais para o HIV, que também contribui para a mortalidade infantil”, acrescenta.
“O atual contexto de financiamento acrescenta mais uma camada de preocupação”, confirma You. “Evidências históricas mostram que, quando a ajuda é interrompida, a mortalidade infantil e de crianças menores de cinco anos pode aumentar de 3% a 4% ao ano”, enfatiza a especialista, que observa que diversos estudos recentes tentaram estimar o impacto dos cortes na sobrevivência infantil. “Alguns projetam cerca de 1,2 milhão de mortes adicionais de crianças menores de cinco anos até 2030, enquanto outros estimam até 4,5 milhões. Esses números não são diretamente comparáveis porque cada estudo utiliza métodos, fontes de dados e premissas diferentes. Mas a mensagem principal é consistente: reduzir o financiamento coloca a vida das crianças em maior risco”, explica ela.
“Nenhuma criança deveria morrer de doenças que sabemos como prevenir. Mas estamos vendo sinais preocupantes de que o progresso na sobrevivência infantil está diminuindo, em um momento em que vemos novos cortes orçamentários em todo o mundo”, disse a diretora executiva do UNICEF, Catherine Russell, em um comunicado.
Já existem projeções, como a publicada no final de 2025 pela Fundação Gates, que estimam que, no ano passado, as mortes de crianças menores de cinco anos aumentaram pela primeira vez em 25 anos.
Se as tendências atuais continuarem, 27,3 milhões de crianças morrerão até 2030.
Os primeiros 28 dias de vida de uma criança continuam sendo o período mais crítico para a sobrevivência, com progressos mais lentos na prevenção de mortes perinatais. Entre os recém-nascidos, as principais causas de morte são complicações decorrentes do parto prematuro (36%), complicações durante o parto (21%) e infecções como sepse neonatal ou anomalias congênitas.
Do primeiro mês de vida até os cinco anos de idade, a malária foi a principal causa de morte (17%), com a maioria dessas mortes ocorrendo em áreas endêmicas da África subsaariana, como Chade, República Democrática do Congo, Níger e Nigéria. Outras doenças, como diarreia e pneumonia, também contribuíram para a mortalidade infantil. Pela primeira vez, o relatório estima as mortes causadas diretamente pela desnutrição aguda grave. Mais de 100 mil crianças entre 1 e 59 meses de idade (5%) morreram por essa causa em 2024. Paquistão, Somália e Sudão estão entre os países com o maior número de mortes atribuíveis a essa condição.
No entanto, a pesquisa alerta que esse número é, na verdade, muito maior, uma vez que a desnutrição enfraquece o sistema imunológico das crianças e aumenta o risco de morte por doenças como malária, pneumonia e diarreia. Além disso, os dados de mortalidade não registram a desnutrição como causa básica de óbito, e recém-nascidos com menos de um mês de idade não são incluídos nessa estatística.
58% das mortes estão concentradas na África.
Na África, continente responsável por 58% das mortes de crianças menores de cinco anos, três países ainda registram mais de cem mortes a cada mil nascimentos: Nigéria, Níger e Somália.
Quarenta e sete por cento das crianças no continente morrem durante o primeiro mês de vida devido a problemas relacionados ao parto prematuro, complicações durante o parto, infecções ou falta de pessoal qualificado para cuidar de recém-nascidos doentes, explica Ngwakum. Após o primeiro mês, doenças infecciosas como malária, pneumonia e diarreia são as principais causas de morte, além da desnutrição.
A fragilidade também desempenha um papel importante. Na África Subsaariana, 19 países frágeis ou afetados por conflitos respondem por 73% das mortes de crianças menores de cinco anos na região. “As crianças que vivem nessas áreas estão expostas a condições que aumentam o risco de morte. Mas mesmo sem conflitos, existem sistemas de saúde frágeis, com pessoal insuficiente e mal distribuído, além de escassez de suprimentos”, resume ele. Por fim, o especialista cita as desigualdades econômicas, educacionais e de acesso à água e saneamento como outros fatores que aumentam o risco.
O estudo menciona exemplos de progresso no continente, como Serra Leoa, que conseguiu reduzir sua taxa de mortalidade infantil em 65% desde 1990. Ou Burkina Faso, um país que, apesar de enfrentar graves crises humanitárias, conflitos armados e impactos climáticos que afetaram 21% de seus centros de saúde, conseguiu reduzir a mortalidade infantil em 26% desde 2015.
O relatório conclui ainda que aproximadamente 2,1 milhões de crianças, adolescentes e jovens adultos com idades entre 5 e 24 anos morreram em 2024. Doenças infecciosas e lesões continuam sendo as principais causas de morte entre as crianças mais novas, enquanto os riscos mudam durante a adolescência: a automutilação é a principal causa de morte entre jovens de 15 a 19 anos, e os acidentes de trânsito são a principal causa de morte entre os adolescentes do sexo masculino.
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