"Nenhum conflito trará liberdade aos povos oprimidos". Entrevista com Colum McCann

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18 Março 2026

Colum McCann responde de seu estúdio em Nova York. Ele está trabalhando no roteiro de Apeirogon, que será adaptado para o cinema. Também está escrevendo a segunda parte de seu romance mais conhecido, publicado em português pela editora Porto, que mais uma vez contará com Rami Elhanan, um israelense, e Bassam Aramin, um palestino: dois pais que perderam suas filhas em uma guerra sem sentido que parece não ter fim.

McCann manteve contato com eles nas últimas horas. Conversa constantemente com os amigos em Gaza, em Israel e na Cisjordânia. "Rami estava em um abrigo antimíssil, Bassam estava a caminho da mesquita. Eles lutam há anos pela paz entre seus dois povos, mas tudo se tornou ainda mais terrível."

Em Apeirogon, McCann escreveu sobre Israel e Palestina; em Una Madre, sobre o assassinato de James Foley na Síria e o terrorismo. A última vez que conversamos, ele estava preocupado com as ações do ICE nos Estados Unidos. Passaram-se poucos meses e uma nova guerra eclodiu: aquela contra o Irã.

A entrevista é de Annalisa Cuzzocrea, publicada por La Repubblica, 17-03-2026.

Eis a entrevista.

Estamos mergulhados numa emergência sem fim?

Vivemos um tempo exponencial, no qual as coisas acontecem numa velocidade sem precedentes. É um momento de grande confusão que precisamos ter condições de reconhecer. Porque, se não o fizermos, por um lado prevalecerá o silêncio — o medo de falar sobre o que está acontecendo — e, pelo outro, o ruído de quem comercializa simplificações.

Que tipo de simplificações?

Todos sabemos que o regime do aiatolá Ali Khamenei era ruim. Sabemos que ele exaltou as guerras por procuração, a terrível opressão das mulheres, dos ativistas e dos livres pensadores. Sabemos que muitos iranianos estão exilados e querem retornar. Sabemos que é um país belíssimo, fascinante e vibrante, repleto de intelectuais e de história. Contudo, também sabemos que, por mais que desejemos que essa parte do mundo seja feliz — e esta também é uma simplificação —, não serão Trump e Netanyahu que tornarão isso possível. E que perdurará na memória sobre estas últimas semanas, a menos que algo ainda mais terrível aconteça, será a imagem de 150 meninas exterminadas em uma escola.

Existe uma investigação em curso e fala-se de um erro de alvo por parte de quem desferiu o ataque. Provavelmente os estadunidenses.

Se a história nos ensina alguma coisa, é isto: não mudaremos o Irã bombardeando as pessoas. É uma grande estupidez. É realmente intolerável pensar que fizemos algo assim. Lembra-se do Iraque? Foi vendida como uma guerra pela liberdade, devia exportar a democracia, devia ser rápida e fácil.

Naquela ocasião também houve vítimas civis que foram definidas, com um eufemismo horrível, como "danos colaterais". Agora, nem sequer se tenta esconder a ferocidade com as palavras.

Porque suas palavras são ferozes. As palavras de Trump, Hegseth e Netanyahu são ferozes. E a crueldade das mensagens é agravada por mentiras: eles ousaram dizer que a escola havia sido atingida por um míssil Tomahawk lançado pelo próprio Irã. Como criancinhas brincando no quintal, escondendo-se por trás de mentiras. O que eles fazem e o que dizem é insuportavelmente vil.

Se o verdadeiro objetivo não é uma mudança de regime no Irã, qual você acha que é?

Essa é a guerra de Benjamin Netanyahu, e se deve unicamente ao seu desejo de permanecer no poder.

No entanto, oficialmente, é uma guerra que nasceu do medo do que o Irã estava planejando — a bomba nuclear — e financiando, o terrorismo. E surge em nome da necessidade de liberdade de um povo oprimido pelo regime dos aiatolás.

Conversei com meus amigos em Israel e na Cisjordânia. Acredite, não há nenhum alívio em suas vozes. Nada que não tenha apenas aumentado o medo. No Iraque — e volto a esse ponto — morreram entre 400 mil e 600 mil pessoas. Lembramos disso? É o equivalente a quatro ou seis Hiroshimas. Deixemos que esse número reverbere por um momento em nossa consciência. Foi uma catástrofe, e ainda assim pensávamos que teria sido uma grande guerra pela liberdade. Mas há um fato incontestável que devemos lembrar: nenhuma dessas guerras traz liberdade.

De onde vem esse instinto de morte que parece ter tomado conta?

Vem da ignorância. Da ignorância de Trump, da ignorância do Secretário de Guerra Hegseth e de todas as pessoas ignorantes que os cercam. Eles são completamente rasos. E não conseguem reconhecer a própria confusão, porque precisam provar que estão certos. Mas se os colocássemos diante de um atlas, nem saberiam dizer onde fica Teerã. Onde fica Bagdá. Onde fica Gaza.

Podemos nos resignar à ideia de que não existe mais uma ordem internacional válida, visto que ela foi violada tantas vezes, e que podemos prescindir dela deixando que a lei do mais forte prevaleça?

É uma rendição que não podemos nos permitir. Isso me lembra a correspondência sobre a guerra trocada entre Albert Einstein e Sigmund Freud em 1932. Duas das mentes mais brilhantes do século XX não conseguiram chegar ao fundo da questão; raciocinavam sobre a mitologia do instinto que leva à violência e sobre a força do direito que deveria impedi-la. Esperavam que a evolução tecnológica tornasse a guerra impossível, porque levaria à autodestruição do gênero humano. Mas nem mesmo esse terror foi suficiente.

O que mudou em relação a quase cem anos atrás?

O que é diferente daquela época é que tudo é mais rápido. A cada dia surge uma nova demonstração de estupidez. É muito difícil dizer: ‘Espere um minuto. Eu não sei o que está acontecendo. Quero entender. Por que não paramos um instante e conversamos sobre isso?’. Se você fizer isso, dirão que você é ingênuo, sentimental, mas não é nada disso. O que precisamos é o que Einstein pedia há cerca de noventa anos: que as nações se reúnam e que as grandes mentes do nosso tempo se encontrem para discutir essas questões. Mas não temos a possibilidade para isso, porque continuamos girando como numa máquina de lavar descontrolada. Estamos todos tão perdidos que só gostaríamos de sair disso e dizer: 'Não é problema meu'.

É possível?

Não, porque é problema de cada um de nós.

Como a opinião pública estadunidense está reagindo a essa nova guerra?

Sabe o que define o panorama estadunidense? A cada cem milhas, em qualquer parte deste país, há um elemento constante: os postos de gasolina com os preços do combustível escritos em vermelho e verde. Esses preços são o indicador do humor da nação. A gasolina agora custa — no seu ponto mais caro — talvez mais do que jamais custou. Na Califórnia, mais de 5 dólares o galão. Aqui em Nova York, está em torno de 4 dólares o galão. Isso orienta a maneira como os estadunidenses pensam sobre a economia.

Então não estão felizes.

De jeito nenhum. Há aqueles que odeiam Trump, enquanto seus próprios apoiadores estão confusos. Sua campanha prometia gasolina mais barata, preços mais baixos e nenhuma guerra. Aconteceu o contrário, e o presidente só conta novas, constantes e enormes mentiras. Não consigo entender como alguém ainda possa apoiá-lo.

Acredita que algo possa mudar com as eleições de meio de mandato?

Sempre fui um otimista, mas agora me pergunto se algo realmente pode acontecer ou se estamos simplesmente escorregando rumo ao desastre. Se cedermos ao desespero, deixamos que eles vençam, eu sei disso, mas onde estamos discutindo essas coisas? Como podemos realmente influenciar quem governa? Estamos permitindo que os grandes poderes econômicos dominem o mundo como novas grandes superpotências. O neocolonialismo é o deles, do Google, Meta, Microsoft.

Em uma democracia, no entanto, ainda temos as ferramentas para agir.

O que tenho pensado há algum tempo é que deveríamos começar com os professores e as escolas. Se os respeitássemos mais, se os pagássemos melhor, se lhes déssemos mais prestígio social, viveríamos em um lugar muito melhor. Mas levaria pelo menos uma geração para vermos os efeitos.

E nesse interim?

Nesse interim, podemos fazer duas coisas fundamentais: cuidar uns dos outros e abrir a porta. Compartilhar as histórias, não as mensagens políticas, não a propaganda. Continuo acreditando que somente dessa forma podemos realmente nos entender.

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