18 Março 2026
Após três anos, não se consegue explicar o silêncio da mídia sobre a guerra civil no Sudão que causou a maior crise humanitária do mundo. O padre Diego Dalle Carbonare, de 43 anos, superior provincial dos Missionários Combonianos para o Egito e o Sudão, chegou recentemente à Itália vindo de Porto Sudão para tentar romper o silêncio sobre um conflito de característica genocida que completará três anos em um mês.
A reportagem é de Paolo Lambruschi, publicada por Avvenire, 17-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
"Os números são enormes", explica o missionário, citando dados das organizações internacionais. "14 milhões de pessoas deixaram suas casas, das quais pelo menos quatro milhões estão deslocadas para fora do Sudão. E 25 milhões de pessoas não conseguem comer todos os dias." O religioso, que trabalhou em escolas por anos, também está preocupado com os dados sobre os institutos escolares destruídas. "Sete milhões de crianças não frequentam a escola há três anos, uma geração perdida. Tudo isso está acontecendo em meio à total indiferença da mídia e, sobretudo, da política. Fala-se de Gaza, da Ucrânia, agora da guerra no Irã e talvez do Líbano. Correto, mas eu me pergunto por que ninguém se importa com o destino de milhões de sudaneses e se há algum interesse para que o assunto não seja discutido."
A guerra começou como uma luta pelo poder entre o exército nacional, que controla a parte oriental, o norte e a capital Cartum, e as Forças de Apoio Rápido (FAR), um grupo paramilitar que controla a parte ocidental e metade do sul. A situação se agravou com o apoio de potências regionais, como os Emirados Árabes Unidos, às FAR, enquanto a Arábia Saudita, o Egito e a Turquia apoiam o exército. Todos estão interessados no ouro, no petróleo e nas rotas do Mar Vermelho. O conflito no Irã terá repercussões, pois Teerã vendia drones para o exército e os Emirados poderiam precisar ainda mais do ouro de Darfur.
“O Sudão”, acrescenta o Padre Diego, “hoje está dividido em dois. Especialmente nas partes ocidental e sul, há caos, com destruição, combates e, infelizmente, drones e mísseis que atingem civis em escolas, hospitais e mercados. A outra metade do país, com a capital Cartum e Porto Sudão, está atualmente mais estável”. Que ajuda a Igreja oferece à população? “Com a ajuda de muitos benfeitores, estamos conseguindo, de alguma forma, atender àqueles que vêm às nossas paróquias e escolas. No entanto, as necessidades são imensas. Três missionários combonianos retornaram a Cartum e estão reativando algumas das 13 paróquias da capital com dois padres diocesanos. O Bispo Michael também retornou e estamos em diálogo com outros grupos religiosos, nos encorajando mutuamente.”
Como está o andamento da campanha Italy for Sudan, lançada pelo governo em resposta ao pedido dos missionários combonianos? “O primeiro carregamento de ajuda chegou na manhã de Natal; a maior parte deveria desembarcar por navio por volta da Páscoa. A ajuda será distribuída a milhares de deslocados em Porto Sudão. É um empenho importante por parte do Ministério das Relações Exteriores. No entanto, a Itália sozinha não pode atender as necessidades do país. A ajuda deve ser acompanhada por um esforço diplomático da comunidade internacional para alcançar uma trégua." Mas as esperanças de diálogo são prejudicadas pelas declarações dos EUA sobre a Irmandade muçulmana sudanesa, aliada do exército, rotulada como organização terrorista, e que pareceram ser uma escolha de lado. A sociedade civil resiste em meio ao caos. "Por exemplo", conclui o comboniano, "a experiência de solidariedade das cozinhas comunitárias de bairro foi importante para a sobrevivência em Cartum."
Experiência de um povo exausto que pede, sem ser ouvido, uma trégua.
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