O destino do Líbano. Artigo de Riccardo Cristiano

Foto: Charbel Karam/Unplash

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17 Março 2026

As operações militares continuam, mas a novidade é que Israel e o Líbano tentam resolver o conflito através de uma negociação direta, com os Estados Unidos e a França como facilitadores.

O artigo é de Riccardo Cristiano, jornalista italiano, publicado por Settimana News, 16-03-2026. 

Eis o artigo. 

Conversas entre uma delegação libanesa, de nível político e militar, e uma analogamente formada por Israel foram tentadas meses atrás; agora, busca-se elevar o nível e, para alguns, Beirute estaria pronta para aderir aos Acordos de Abraão, reconhecendo Israel. Muitas vozes afirmam que este seria um ponto quase consensuado no plano libanês, bem como nos planos americano e francês — este último empenhado em evitar uma ocupação prolongada do sul do Líbano por Israel, apoiando, portanto, as exigências de Beirute: para o Líbano e a França, Israel deveria retirar-se dos territórios ocupados nestes dias e o acordo ser concluído em pouco tempo.

Os Estados Unidos insistiriam mais na urgência de desarmar rapidamente o Hezbollah. Enquanto isso, os refugiados do sul do Líbano e do sul de Beirute já ultrapassam um milhão. Portanto, enquanto se combate, há uma espécie de pré-negociação que aborda estes problemas: como desarmar o Hezbollah? Quem será encarregado disso desta vez?

Fala-se em apoio internacional à ação encabeçada pelo Exército Libanês, que já fez algum progresso. Mas há algo mais: o que será feito dos territórios onde esta milícia está instalada há anos? Tudo é extremamente difícil.

Contudo, aumentam os diálogos, que agora envolvem a Arábia Saudita, a qual pediu uma desescalada regional. A frase de um militar israelense citada por muitos — "faremos como em Gaza" — parece indicar o que Beirute quer evitar. E o Hezbollah? Eles são contra.

Para entender plenamente a vertente libanesa, precisamos encontrar um ponto de referência. Eu diria que pode ser útil escolher o ano 2000.

Em 2000, Israel retirou-se do sul do Líbano, pondo fim a quase duas décadas de ocupação militar. A ocupação tinha sido o cenário no qual o Hezbollah emergiu nos anos 80, tornando-se gradualmente cada vez mais forte em nome da resistência. Mas esse cenário de resistência, do lado libanês, não estava deserto. Havia diversos grupos da esquerda libanesa que combatiam os ocupantes estrangeiros. As armas chegavam de Moscou através da Síria.

No entanto, muitos relatos e testemunhos detalhados nos dizem que Damasco interrompeu esse fluxo de armas para favorecer o Hezbollah, a pedido do Irã. As duas "resistências" não eram pouco diferentes: a primeira era libanesa; a segunda definiu-se imediatamente como "resistência islâmica", inspirada por Khomeini e financiada e organizada pelos Pasdaran (Guarda Revolucionária) através da embaixada iraniana em Damasco.

O equívoco, portanto, já estava claro: o que o Hezbollah queria dizer ao falar de resistência islâmica? Não dizia respeito, por exemplo, a um território onde habitavam, tanto na época quanto hoje, também cristãos (que, em pequena parte, colaboraram com o ocupante)?

O nó emergiu com toda a clareza justamente em 2000. Diante da retirada israelense do sul do Líbano, o Hezbollah não quis se desarmar e, de fato, criou-se um equívoco cartográfico para sustentar que a retirada não estava completa: existiam as pequenas fazendas que se tornaram famosas, as Fazendas de Shebaa, das quais Israel não se retirava.

Portanto, a resistência deveria permanecer armada. O nó é complexo; trata-se de uma área na fronteira entre o Líbano, a Síria e Israel que muitos afirmam ser síria, parte do Golã sírio ocupado do qual Israel não se retirava. Uma cessão noturna dessas fazendas da Síria para o Líbano teria ajudado a legitimar a posição do Hezbollah.

Assim, a situação criada no Líbano após o fim da guerra civil libanesa em 1990 — ou seja, que o Hezbollah era a única milícia a permanecer armada enquanto todas as outras, numerosas na época, se desarmavam para permitir que o Estado voltasse a ser soberano — continuou sendo a realidade mesmo após 2000.

Isso criou um problema para Israel, mas também um problema nacional para o Líbano. Era aquele país dono de sua política nacional de defesa? Ou ela havia sido confiscada pelo Hezbollah?

Portanto, a resistência no sul, da qual o Hezbollah obteve a gestão exclusiva graças à Síria (e ao Irã), não terminou com a retirada obtida em 2000. Poderia ter sido o grande trunfo do Hezbollah, mas a história não seguiu esse rumo. Lembro-me de que alguns chegaram a falar na integração dos milicianos ao exército nacional. Teria sido um exército forte, com poder de dissuasão, mas comandado por quem? Com quais objetivos?

Quando o Hezbollah, obedecendo às orientações que evidentemente vieram de Damasco, assassinou o ex-primeiro-ministro libanês Rafiq Hariri com um carro-bomba no centro de Beirute em 2005, as dúvidas restantes acabaram: fosse a abordagem iraniana defensiva ou ofensiva, Teerã, com a ajuda de Damasco, havia construído seu posto avançado militar em Beirute, no Mediterrâneo.

Este posto avançado iraniano (não libanês), para quem acredita na visão ofensiva, deveria servir para exportar a revolução iraniana; para quem acredita na visão defensiva, deveria servir para impedir ataques ao Irã. Seja como for, o Hezbollah não tem nada a ver com o Líbano.

Eis por que, diferentemente dos Houthis do Iêmen, o Hezbollah, quando solicitado a atacar para ajudar o regime iraniano, não pôde nem quis se esquivar. Um grupo gravemente enfraquecido, num país economicamente devastado pela crise e pela guerra de 2024, provoca o inimigo e determina uma intervenção militar com força muito superior à sua própria?

Um dos mais importantes jornalistas libaneses, Michel Hajj Georgiu, escreveu que é como pensar que Cuba atacasse os Estados Unidos, que Taiwan provocasse militarmente a China ou que a Grécia fizesse incursões na Turquia.

Para construir uma força de milhares de milicianos, apoiada pela população xiita, não bastavam apenas dinheiro, organização, armas e ramos de caridade para o sustento de famílias necessitadas; era necessária também uma poderosa ideologia religiosa.

E esta reside na dimensão apocalíptica da liderança do Hezbollah. Eles acreditam que o martírio apressa o dia da vitória do bem, que chegará quando o Imam que vive na "ocultação" retornar, no fim dos tempos.

Khomeini defendia que esse tempo intermediário em que o Imam está oculto pode ser trazido para o nosso tempo pelos mártires, que o povoam com o seu testemunho.

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