Dominique Mathieu, o cardeal franciscano que está tecendo a paz na Teerã xiita

Dominique Mathieu ( Foto: Agenzia Fides | Wikimedia Commons)

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02 Março 2026

Em contraste com a lógica de Trump — pressão máxima, sanções, ataques direcionados — o frade franciscano de Teerã defende a lógica do encontro.

A reportagem é de José Manuel Vidal, publicada por Religión Digital, 01-03-2026.

Dominique Mathieu, um franciscano conventual belga, cardeal desde 2024 e arcebispo latino de Teerã-Isfahan, é uma das figuras mais singulares do Colégio Cardinalício: um irmão mais novo enraizado no coração da República Islâmica, pastor de uma pequena comunidade católica espalhada pelo Irã e uma ponte discreta entre o Vaticano e o islamismo xiita.

Ele vive sua missão convicto de que os cristãos no Irã são chamados a ser, mais do que um grupo de pressão, "fermento na massa" de uma sociedade complexa, marcada por tensões geopolíticas, mas também por uma profunda religiosidade.

Quem é o Cardeal Mathieu?

Dominique Joseph Mathieu nasceu em Arlon (Bélgica) em 1963, ingressou na Ordem Franciscana Conventual e foi ordenado sacerdote em 1989; apaixonado por astronomia, realizou diversas missões na Europa e no Oriente Médio antes de ser nomeado arcebispo de Teerã-Isfahan por Francisco em 2021, após anos de vacância na Sé Latina do Irã.

O Papa Francisco o elevou ao cardinalato em dezembro de 2024, tornando-o o primeiro cardeal com diocese em território iraniano, um gesto que, segundo o próprio Francisco, expressa sua "proximidade e preocupação com a Igreja no Irã" e honra todo o país. Mathieu pastoreia um pequeno rebanho — cerca de 2 mil fiéis, distribuídos por quatro paróquias, em uma população predominantemente xiita de mais de 90 milhões — mas ele entende seu papel como simbólico: "Permitir a presença de um cardeal na República Islâmica dá visibilidade à Igreja local e oferece à Igreja universal um novo ponto de apoio para acolher mais culturas", explicou.

Formado na espiritualidade franciscana da minoria, ele se define como um pastor "que chegou por acaso" ao papado, mas muito consciente da responsabilidade: desde sua chegada ao Irã, diz ele, sente-se chamado a ser "administrador das portas de nossas igrejas", portas que nem sempre podem estar abertas a todos, mas que permanecem "entradas discretas de acolhimento".

Sua biografia, marcada por anos no Líbano e em outros países da região, ensinou-o a viver em "situações de fronteira", a reconhecer a diversidade e a desconfiar dos estereótipos ocidentais sobre o Oriente Médio: "O Irã é um país cheio de contrastes, muito distante das caricaturas que circulam", enfatiza.

Relação com o Islã xiita

Mathieu atua em uma área onde a relação entre a Santa Sé e o Irã tem uma longa história e uma "afinidade natural" baseada na forte influência religiosa da vida pública e em certas semelhanças entre o catolicismo e o xiismo, que o Vaticano cultiva há décadas por meio de um diálogo estável com instituições como a Universidade de Qom e a Organização para a Cultura e Relações Islâmicas.

Ele próprio destaca que, ao contrário de outros países da região, no Irã os cristãos podem usar hábitos religiosos e cruzes peitorais em público, e que existe uma verdadeira abertura em certos centros de estudos muçulmanos para aprender mais sobre o cristianismo.

Seu método é o do Papa Francisco e de Francisco de Assis: presença, oração e amizade. "Estou convencido, talvez reforçado pelo fato de ser franciscano, da importância do nosso testemunho, que não é verbal", afirma; "o proselitismo não é permitido, mas não nos é impedido viver em sociedade e dar testemunho". Ele reitera aos seus fiéis a necessidade de "uma vida virtuosa", de trabalhar pela santidade diária, porque só assim a pequena comunidade católica pode ser "sal" e "fermento" num ambiente predominantemente muçulmano.

Em entrevistas recentes, ele também insistiu que a chave para a paz na região é que todos — incluindo o Irã e o Ocidente — "deixem de lado os desejos de supremacia" e renunciem ao uso da religião como instrumento de dominação.

O que você acha do ataque de Trump ao Irã?

Quando Donald Trump ordenou o assassinato do general Qassem Soleimani em janeiro de 2020 e as tensões entre os Estados Unidos e o Irã dispararam, a diplomacia do Vaticano reagiu com seu realismo habitual e uma estratégia radicalmente oposta à lógica dos "ataques de decapitação", insistindo no diálogo e na moderação; esse foi também o contexto em que os pastores da região, incluindo o futuro cardeal de Teerã, interpretaram a situação.

Embora Mathieu tenha evitado fazer declarações contundentes sobre líderes específicos, ele tem criticado qualquer ação militar que alimente a espiral de violência e lembrado a todos que os cristãos da região são sempre os primeiros a sofrer as consequências das intervenções militares.

Nessa linha, ele enfatizou que o caminho a seguir não reside em golpes unilaterais ou demonstrações de força, mas sim em "caminhar juntos, apesar de nossas diferenças, como verdadeiras testemunhas da paz" e construí-la "com ações concretas de reconciliação e unidade". Ele acrescentou: "É impossível alcançar a paz por meio de ataques preventivos, em vez de se comprometer com o diálogo na mesa de negociações".

Em contraste com a lógica de Trump — pressão máxima, sanções, ataques direcionados — o franciscano de Teerã defende a lógica do encontro: manter os canais abertos entre a Santa Sé e a República Islâmica, fortalecer o diálogo católico-xiita e comprometer-se com uma presença cristã que, sem renunciar à própria fé, promova a coexistência em uma região marcada por guerras em excesso.

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