Nem teocracia, nem império

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14 Março 2026

“Entre um regime indefensável e uma agressão imperialista inaceitável e condenável, não se deve escolher o lado; é necessário escolher princípios. E, hoje, um deles é irrenunciável: nenhuma bomba liberta um povo, nenhuma guerra constrói democracia. Nem teocracia, nem império, não à guerra”, escreve Imanol Ordorika, ativista social mexicano, professor da Universidade Nacional Autônoma do México - UNAM, em artigo publicado por La Jornada, 12-03-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

A guerra contra o Irã voltou a colocar amplos setores diante de um dilema traiçoeiro: se condena o regime iraniano - autoritário, repressivo, teocrático - ou se denuncia a agressão militar dos Estados Unidos e de Israel como um novo episódio do imperialismo contemporâneo. Como se as duas coisas fossem incompatíveis; como se a crítica a uma exigisse a absolvição da outra. Essa formulação binária empobrece a análise e captura o debate público.

Não se trata de um simples problema conceitual. Essa maneira de enquadrar o debate opera como dispositivo político em tempos de guerra: força a tomar partido em termos excludentes e fecha canais para posições autônomas. Sua eficácia aumenta quando uma crise interna profunda se cruza com uma ofensiva militar externa, como está acontecendo hoje no Irã, após meses de protestos sociais e repressão sistemática.

O regime iraniano é indefensável, não por razões culturais ou religiosas, mas por motivos políticos: negação de liberdades básicas, perseguição à dissidência, opressão sistemática das mulheres, controle dos corpos e da vida cotidiana por meio de dispositivos legais, policiais e morais, e uso rotineiro da violência estatal. Os protestos recentes - impulsionados pelo colapso econômico e rapidamente politizados - foram respondidos com apagões informativos, detenções em massa e repressão letal.

A universidade, espaço historicamente crítico, voltou a ser tratada como ameaça: presença paramilitar nos campi, criminalização de estudantes e controle direto da vida acadêmica.

No entanto, o fato de um regime ser indefensável, não torna legítima sua destruição por via militar externa, muito menos quando essa agressão provém de potências que fizeram da agressão unilateral, da excepcionalidade jurídica e do desprezo pelo direito internacional uma prática recorrente. A ofensiva contra o Irã não é uma cruzada pela democracia, nem pelos direitos humanos; é uma operação geopolítica orientada a estabelecer controles regionais e a impor pela força o que não se conseguiu pela via diplomática.

Neste ponto, a retórica da “mudança de regime” reaparece como álibi moral. Sugere-se que os bombardeios abrirão uma oportunidade histórica para a democratização. As experiências do Iraque, da Líbia, do Afeganistão e da Síria confirmam que a intervenção imperial não produz democracia, mas estados fragilizados, violência prolongada e sociedades fraturadas. Longe de fortalecer as forças emancipatórias internas, a guerra externa tende a nacionalizar o conflito, fechar o espaço público e oferecer ao poder autoritário uma narrativa de coesão forçada. E se esses precedentes já demonstravam os limites do discurso de justificação, a experiência de Gaza acabou por derrubá-lo completamente.

Em Gaza, a tentativa de construir um dilema moral simplesmente entrou em colapso. A magnitude da devastação, a destruição sistemática da infraestrutura civil, o extermínio de populações inteiras, o assassinato em massa de mulheres, meninas e meninos e a punição coletiva imposta a mais de 2 milhões de pessoas ultrapassaram qualquer marco de justificação estratégica. Diante desse nível de destruição, a linguagem da autodefesa perdeu qualquer credibilidade. O que ficou exposto não foi um conflito entre partes equivalentes, mas o exercício extremo de um poder militar contra uma população indefesa, em franca violação do direito internacional humanitário e dos princípios mais elementares da humanidade.

Mesmo assim, essa lógica de polarização forçada persiste no debate público.

Uma constelação de interesses convergentes a reproduz: as potências agressoras e seu aparato ideológico, que moralizam a guerra para neutralizar a crítica; o liberalismo ocidental que apresenta a democracia como atributo externo; e o próprio regime iraniano, que usa a agressão externa para desqualificar dissidências como traição.

Esse raciocínio também se inscreve em uma erosão mais ampla do direito internacional. O apelo constante à “autodefesa”, amplamente reinterpretada, a normalização de assassinatos seletivos e o esvaziamento dos mecanismos multilaterais desfizeram normas básicas concebidas para limitar a guerra. A legalidade internacional é invocada de forma seletiva: é exigida dos adversários e suspensa para os aliados. Assim, o uso da força deixa de ser a exceção e se consolida como método ordinário da política externa.

Esse falso dilema também é replicado de maneira acrítica por alguns na esquerda. Em nome do anti-imperialismo, optam por silenciar ou relativizar a crítica a regimes autoritários, como se apontar a repressão interna enfraquecesse a denúncia da agressão externa. O efeito é o oposto: as forças democráticas locais são abandonadas, a crítica é empobrecida e a política é reduzida a uma lógica de bandos, onde a solidariedade com outros povos é substituída por alinhamentos geopolíticos.

O resultado é uma tecnologia política eficaz: a dupla condenação é bloqueada e o julgamento crítico é substituído por lealdades geopolíticas. Somos forçados a escolher entre o Estado repressor e o império agressor.

Diante desse panorama, a defesa de princípios mínimos não é uma posição cômoda, mas, sim, necessária. Exige rejeitar a ideia de que a violência externa possa substituir a política e afirmar que a soberania dos povos inclui o direito de transformar suas próprias sociedades, sem tutela militar estrangeira.

Condenar a agressão imperialista contra o Irã não significa absolver seu regime. Significa, ao contrário, levar a sério a sociedade iraniana e suas lutas - incluindo as das mulheres -, não instrumentalizar seu sofrimento, nem transformar a democracia em um subproduto da destruição. A democratização - se vier - não nascerá dos mísseis, nem da tutela externa, mas de processos internos complexos que a guerra tende a destruir.

Entre um regime indefensável e uma agressão imperialista inaceitável e condenável, não se deve escolher o lado; é necessário escolher princípios. E, hoje, um deles é irrenunciável: nenhuma bomba liberta um povo, nenhuma guerra constrói democracia. Nem teocracia, nem império, não à guerra

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