Vaticano intensifica suas críticas aos EUA e teme que o conflito seja retratado como uma guerra religiosa

Foto: Wikimedia Commons | The White House

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11 Março 2026

Após a divulgação da imagem de Trump com pregadores, o Papa adverte que “este não é o momento para dicotomias entre 'nós' e 'eles'”. O Cardeal de Chicago critica a Casa Branca por tratar o ataque “como se fosse um videogame”.

A reportagem é de Íñigo Domínguez, publicada por El País, 09-03-2026.

O Vaticano, sob o comando de seu primeiro papa americano, está intensificando seus apelos pela paz, uma postura que o coloca cada vez mais em desacordo com a Casa Branca — um conflito que nunca foi explícito e que Leão XIV vem tentando evitar desde sua eleição, há 10 meses. Mas, além disso, a Santa Sé está cada vez mais atenta a uma nuance que não é imediatamente aparente, mas que, no entanto, é motivo de grande preocupação: o risco de que essa crise seja enquadrada como uma guerra religiosa.

Neste conflito, não são apenas os pronunciamentos dos aiatolás e as citações bíblicas de Netanyahu que se ouvem. A imagem de Donald Trump no Salão Oval, cercado por pregadores evangélicos, divulgada na quinta-feira, acrescenta uma dimensão antes ausente das intervenções americanas no exterior. Isso não surge do nada; segue a retórica religiosa usada por muitos altos funcionários da Casa Branca, a começar pelo secretário de Defesa, Pete Hegseth, um ex-soldado que lutou no Iraque e no Afeganistão, que tem tatuagens de cruzadas e que, neste domingo, enfatizou em uma entrevista o valor da fé cristã nesta guerra. O presidente republicano da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, também disse na semana passada que o Irã tem "a religião errada".

Tudo isso torna cada vez mais evidente o profundo conflito ideológico entre Roma e Washington: a ascensão do cristianismo ultraconservador, que aspira a se estabelecer como a verdadeira fé, e a preocupação do Papa com a apropriação política da mensagem cristã pela extrema-direita. Essa é uma das maiores preocupações de Leão XIV e, como revelou o EL PAÍS, ele também alertou os bispos espanhóis sobre isso em novembro passado, advertindo-os sobre o "risco de manipulação por grupos extremistas", conforme confirmado pelo Vaticano.

Em seu discurso da janela do Palácio Apostólico neste domingo, antes do Ângelus, o Papa advertiu que “este não é tempo de oposição entre um templo e outro, entre nós e eles; os fiéis que Deus procura são homens e mulheres de paz”. Em sua saudação subsequente, Robert Prevost expressou sua “profunda consternação” com as notícias vindas do Irã e do Oriente Médio. “Aos episódios de violência e devastação, e ao clima generalizado de ódio e medo, soma-se o temor de que o conflito se intensifique e que outros países da região, incluindo o amado Líbano, possam mais uma vez mergulhar na instabilidade”, disse Leão XIV, que visitou este país, lar da maior comunidade cristã da região, há apenas três meses. Ele concluiu pedindo que “o rugido das bombas cesse, as armas se calem e que se abra um espaço para o diálogo, no qual as vozes do povo possam ser ouvidas”.

O Vaticano não hesita em apontar claramente a violência que condena. O L'Osservatore Romano, jornal da Santa Sé, estampou em sua primeira página, na sexta-feira, uma enorme fotografia aérea mostrando as valas comuns cavadas para enterrar os corpos de 180 crianças mortas no bombardeio de um jardim de infância no Irã. A manchete dizia "A Face da Guerra". No dia anterior, o segundo em comando da Santa Sé, o secretário de Estado Pietro Parolin, havia condenado o conceito de guerra preventiva e o desmantelamento do direito internacional.

Primeira página do L'Osservatore Romano, jornal da Santa Sé, na última sexta-feira, com a manchete 'A face da guerra' e a imagem das valas comuns cavadas para enterrar os mortos no bombardeio de uma escola infantil no Irã.

As declarações da Igreja Católica estão se tornando cada vez mais explícitas e, como o Papa está delegando o confronto direto com Trump aos bispos nos Estados Unidos, as palavras mais claras vêm de lá. O cardeal-arcebispo Dom Robert W. McElroy, de Washington, questionou a legitimidade do ataque americano em uma entrevista na segunda-feira. “A decisão americana de declarar guerra ao Irã não atende aos requisitos de uma guerra justa para uma guerra moralmente legítima em pelo menos três aspectos”, argumentou ele, revisando a doutrina católica sobre o assunto. Esses três critérios, ele destaca, são: uma causa justa, intenção correta e que os benefícios da guerra superem os danos causados.

No sábado, o cardeal Blase J. Cupich, de Chicago, amigo próximo do Papa e líder da ala mais progressista da Igreja americana, foi ainda mais contundente. Depois que a conta oficial do Twitter da Casa Branca divulgou um vídeo que intercalava cenas de filmes de ação com imagens reais do ataque ao Irã, Cupich o classificou como "repugnante". "Uma guerra real, com mortes e sofrimento reais, sendo tratada como um videogame, é repugnante. Centenas de pessoas morreram — mães e pais, filhas e filhos, incluindo dezenas de crianças que cometeram o erro fatal de ir à escola naquele dia", condenou.

Cupich enfatizou que o vídeo, intitulado "Justiça à Maneira Americana", foi lançado "enquanto mais de mil homens, mulheres e crianças iranianos jaziam mortos após dias de ataques de mísseis dos EUA e de Israel". O cardeal também mencionou a especulação bélica em curso e alertou que "nosso governo está tratando o sofrimento do povo iraniano como pano de fundo para nosso próprio entretenimento".

“Em última análise, perdemos nossa humanidade quando nos deixamos levar pelo poder destrutivo de nossas forças armadas. Tornamo-nos viciados no espetáculo das explosões. E o preço desse hábito é quase imperceptível, pois nos tornamos insensíveis aos verdadeiros custos da guerra. Mas quanto mais tempo permanecermos cegos às terríveis consequências da guerra, mais arriscamos o dom mais precioso que Deus nos deu: nossa humanidade. Eu sei que o povo americano é melhor do que isso”, disse ele.

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