Em tempos de guerra, os católicos devem permanecer aos pés da cruz. Artigo de James Gordon Reid Haveloch-Jones

Foto: rattanakun | Canva

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10 Março 2026

"Como católicos, nossa tarefa não é apenas orar pela paz, mas também acolher o luto, defender a justiça e acompanhar aqueles cujas vidas foram devastadas. A cruz nos ensina que a dor nunca é suportada sozinha. Ela nos une uns aos outros e nos chama, mesmo na sombra da perda, à esperança!", escreve James Gordon Reid Haveloch-Jones, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 09-03-2026.

James Gordon Reid Haveloch-Jones é membro honorário associado da St. George's House, no Castelo de Windsor, e administrador da Heythrop Association na Universidade de Londres. Ele atua como colaborador da Conferência Episcopal Católica da Inglaterra e do País de Gales, com trabalhos publicados em veículos cristãos nacionais, incluindo Church Times e Premier Christianity.

Eis o artigo.

A sensação de inquietação sentida por muitos como resultado da rápida escalada dos conflitos globais pelos Estados Unidos e da longevidade da guerra na Ucrânia nos faz lembrar das palavras proféticas do Papa Francisco em 2014: "Mesmo hoje, após o segundo fracasso de outra guerra mundial, talvez se possa falar de uma terceira guerra, travada aos poucos, com crimes, massacres e destruição."

A dimensão da perda é quase incompreensível. Famílias separadas, lares destruídos, comunidades dispersas e nações inteiras convivendo diariamente com a realidade do luto. As imagens continuam a surgir: mães segurando fotografias de filhos que não voltarão, pais idosos aguardando desesperadamente notícias que talvez nunca cheguem e crianças aprendendo a viver com a ausência. Todas nos confrontam com a crueza do luto em escala coletiva.

Como católicos, não nos são estranhos a linguagem da perda. A Igreja sempre manteve unidos o universal e o particular, o cósmico e o íntimo. E em nenhum lugar isso fica mais claro do que aos pés da cruz.

Se nos detivermos por um instante na Estação XII, "E Jesus expirou" (Lucas 23:46), veremos uma imagem que é, ao mesmo tempo, um evento teológico cósmico. Um momento que mudou o curso da história mundial. E uma experiência intensamente íntima para Nossa Senhora e o discípulo a quem Jesus amava. A cruz é universal e particular, assim como o luto. Ela toca quase todas as vidas humanas, mas é vivenciada de maneiras profundamente pessoais, complexas e, muitas vezes, surpreendentes.

As Escrituras nos oferecem uma lente através da qual podemos compreender isso. Cada evangelista retrata as palavras da cruz de maneira diferente, dando-nos uma visão das muitas nuances da dor humana. "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito" (Lucas 23:46) reflete uma abordagem pacífica e de aceitação da morte. Igualmente válida, porém, é a descrição de Nosso Senhor clamando: "Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?" (Mateus 27:46; Marcos 15:34). Essas palavras de abandono ressoam em qualquer pessoa que já tenha sentido a dor aguda da perda — a sensação de estar à deriva, ignorado ou deixado para trás.

Em meio aos conflitos humanos, esses clamores continuam a ecoar. São ouvidos nas vozes daqueles que buscam seus entes queridos, no silêncio daqueles que não conseguem falar sobre o que viram e na resiliência silenciosa das comunidades que tentam reconstruir suas vidas. O Jesus de Marcos e Mateus, clamando em angústia, liberta aqueles que sofrem, mostrando-lhes que o próprio Senhor sentiu a profundidade da dor humana. A nós também é permitido permanecer nessa dor sem culpa ou vergonha.

A representação pacífica da morte de Cristo por Lucas revela que, mesmo em meio à profunda angústia, Ele estava pronto para retornar à Divindade. Essa entrega nos lembra que desapegar não significa abandono, mas o início de um novo tipo de relacionamento. Um paradoxo certamente familiar a qualquer pessoa que já tenha sofrido uma grande perda. Do Irã à Ucrânia, esse paradoxo é vivenciado diariamente: apegar-se à memória enquanto se desapega daquilo que não pode ser restaurado.

Uma lição importante para os católicos como comunidade é apoiar aqueles que estão em luto e sofrimento, especialmente neste tempo da Quaresma. A Via Sacra implora aos católicos que se solidarizem com os que sofrem. João escreve: "Perto da cruz de Jesus estavam sua mãe... e o discípulo a quem ele amava" (João 19:25-27). Aqui, a atenção divina para com os outros se reflete em nós. Talvez o encontro mais profundo com Deus ocorra não quando somos o foco, mas quando testemunhamos o amor que se estende para além de nós mesmos. Na Ucrânia, esse amor foi visto em vizinhos que se acolheram mutuamente, em igrejas que abriram suas portas para os deslocados e em comunidades que se recusaram a deixar que o luto as isolasse.

Ao longo da Quaresma, a cruz nos convida a contemplar tanto a angústia quanto a entrega, a encontrar o luto em sua plenitude e profundidade. As palavras do Jesus de Lucas nos lembram da entrega pacífica, enquanto os gritos do Jesus de Marcos e Mateus refletem a intensidade crua do sofrimento humano. O relato joanino nos pede para ver, cuidar e estar presentes com aqueles que estão de luto. Juntas, essas perspectivas oferecem uma lente sagrada através da qual podemos enxergar não apenas nossas próprias perdas, mas também o luto coletivo de nações que ainda vivem em guerra.

Nesta Quaresma, convido você a refletir sobre as palavras proféticas de Francisco de que a Terceira Guerra Mundial está sendo travada aos poucos. Reze em comunidade e demonstre amor através do jejum, da penitência e de gestos de generosidade.

Como católicos, nossa tarefa não é apenas orar pela paz, mas também acolher o luto, defender a justiça e acompanhar aqueles cujas vidas foram devastadas. A cruz nos ensina que a dor nunca é suportada sozinha. Ela nos une uns aos outros e nos chama, mesmo na sombra da perda, à esperança!

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