05 Março 2026
"A passagem nos leva, então, à confissão de fé cristológica além das fronteiras de Israel, adquirindo uma dimensão mais universal. Para nós, este evangelho também pode ser um chamado para ir além das próprias fronteiras. Descobrir a sede que hoje sentem nossos contemporâneos e testemunhar que Jesus também acalma a sede deles, pois ele chega a todos, sem qualquer tipo de exclusão nem discriminação."
O comentário é de Consuelo Vélez, teóloga colombiana, publicado por Religión Digital, 03-03-2026.
Eis o comentário.
Naquele tempo, Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. Era aí que ficava o poço de Jacó. Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta do meio-dia. Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: "Dá-me de beber".
Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. A mulher samaritana disse então a Jesus: "Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?" De fato, os judeus não se dão com os samaritanos. Respondeu-lhe Jesus: "Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: 'Dá-me de beber', tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva."
A mulher disse a Jesus: "Senhor, nem sequer tens balde e o poço é fundo. De onde vais tirar a água viva? Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?"
Respondeu Jesus: "Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna". A mulher disse a Jesus: "Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la".
"Senhor, vejo que és um profeta! Os nossos pais adoraram neste monte mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar".
Disse-lhe Jesus: "Acredita-me, mulher: está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis. Nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade".
A mulher disse a Jesus: "Sei que o Messias (que se chama Cristo) vai chegar. Quando ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas". Disse-lhe Jesus: "Sou eu, que estou falando contigo".
Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhava: "Ele me disse tudo o que eu fiz". Por isso, os samaritanos vieram ao encontro de Jesus e pediram que permanecesse com eles. Jesus permaneceu aí dois dias. E muitos outros creram por causa da sua palavra. E disseram à mulher: "Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos, que este é verdadeiramente o salvador do mundo".
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O evangelho deste terceiro domingo da Quaresma é a conhecida passagem do encontro de Jesus com a mulher samaritana. Este texto pode ser dividido em quatro partes: Jesus chega a um lugar e senta-se junto a um poço; ali chega a samaritana e Jesus dialoga com ela; uma vez que a mulher se vai, Jesus dialoga com seus discípulos e, finalmente, os habitantes da região vão ao encontro de Jesus. Como o texto é muito longo, normalmente na liturgia omitem-se os dados da vida da mulher sobre seus maridos e o diálogo com os discípulos.
O surpreendente do texto é que seja Jesus quem inicia a conversa com uma mulher e, mais estranho ainda, que ela seja samaritana. O próprio evangelista recorda a inimizade entre judeus e samaritanos. Com o pedido que Jesus lhe faz de "dá-me de beber", possibilita-se toda uma sequência na mulher de compreensão sobre quem é Jesus. Em um primeiro momento, a mulher lhe diz “como tu, sendo judeu” (v. 9); depois o chama de “Senhor, não tens com que tirar a água” (v. 11); mais adiante, quando Jesus mostra que conhece sua vida, ela diz “vejo que és um profeta” (v. 19); e quando vai contar aos seus sobre seu encontro com Jesus, pergunta-se: "não será ele o Cristo?" (v. 29).
Por parte de Jesus, o pedido que faz à mulher permite que ela vá aprofundando em sua própria sede, para passar da água física à água da vida eterna que Jesus lhe está oferecendo. O texto diz que a mulher deixou o cântaro para ir anunciar aos seus o que havia vivido. Ou seja, ela encontrou essa água que verdadeiramente acalma a sede.
O diálogo com os discípulos não se refere à água, mas à comida que eles trouxeram, mas, neste caso, Jesus também os faz passar do alimento material para o alimento de fazer a vontade do Pai. Esse é o verdadeiro alimento de Jesus.
O texto conclui com os samaritanos que já não creem somente pelo que a mulher lhes disse, mas porque eles mesmos ouviram Jesus e reconhecem nele o Salvador do mundo. Como é típico do evangelho de João, o primeiro passo é escutar para depois crer. Foi isso o que aconteceu com os samaritanos.
Este trecho nos convida também a reconhecer o protagonismo das mulheres na obra evangelizadora. A samaritana anuncia a boa nova que recebe e dá frutos, porque os samaritanos que a escutaram também começam a crer em Jesus.
A passagem nos leva, então, à confissão de fé cristológica além das fronteiras de Israel, adquirindo uma dimensão mais universal. Para nós, este evangelho também pode ser um chamado para ir além das próprias fronteiras. Descobrir a sede que hoje sentem nossos contemporâneos e testemunhar que Jesus também acalma a sede deles, pois ele chega a todos, sem qualquer tipo de exclusão nem discriminação.
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