Quarta-feira de Cinzas e o chamado à conversão do coração. Artigo de Christian Stähler Padilha

Foto: Rui Silva sj/Unplash

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20 Fevereiro 2026

"As cinzas simbolizam a humildade do penitente, que busca abandonar o orgulho e reconhecer sua necessidade de conversão. Ao mesmo tempo, Santo Agostinho afirma que o próprio Cristo se uniu à nossa fragilidade, fazendo-se pobre conosco, para que, unidos a Ele, também pudéssemos participar de seu Mistério e de sua vida", escreve Christian Stähler Padilha, estudante de jornalismo da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), estagiário do Instituto Humanitas UnisinosIHU.

Eis o artigo.

A Quaresma é um tempo que deve estar profundamente alinhado à conversão do coração. Mais do que se restringir de um hábito específico, trata-se de ordenar os próprios desejos e permitir que o coração, muitas vezes endurecido pelas distrações e pelo apego desordenado, volte a ser sensível.

À vista disso, cada fiel vive o período por uma necessidade interior particular. Há aqueles que buscam abandonar vícios que os afastam de Deus, enquanto outros procuram compreender mais profundamente a si mesmos e sua própria condição. Em Confissões, Santo Agostinho relata como seus antigos hábitos e prazeres não eram capazes de preencher o vazio que carregava em sua alma. Sua inquietação persistiu até que encontrou descanso em Deus, por meio de uma conversão verdadeira, que não foi apenas exterior, mas interior.

Em seus Comentários aos Salmos 101–150, Santo Agostinho cita diversas vezes o termo “cinzas”, associando-o diretamente à penitência, às lágrimas, à conversão e à união com Cristo. Ao comentar o Salmo 102,9 — que descreve o sofrimento do salmista ao dizer que comeu cinza como pão e misturou lágrimas à sua bebida — Santo Agostinho reflete que as cinzas representam a condição do homem que reconhece sua própria pobreza diante de Deus.

Nesse contexto, uma das frases mais conhecidas do doutor da Igreja se encaixa profundamente: “Fizeste-nos para ti, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti” (Confissões, I, 1).

Simbolismo por trás das cinzas

Portanto, as cinzas simbolizam a humildade do penitente, que busca abandonar o orgulho e reconhecer sua necessidade de conversão. Ao mesmo tempo, Santo Agostinho afirma que o próprio Cristo se uniu à nossa fragilidade, fazendo-se pobre conosco, para que, unidos a Ele, também pudéssemos participar de seu Mistério e de sua vida.

Assim, ser católico também é viver a cruz, assumindo uma vida de renúncia. O tempo da Quaresma pode se tornar um momento de aperfeiçoamento e um desafio maior para aqueles que buscam crescer espiritualmente. Em A Imitação de Cristo, uma das obras mais influentes da espiritualidade cristã, Tomás de Kempis — monge agostiniano do século XV — chama os leitores a viverem como o próprio Cristo, desapegando-se das coisas passageiras do mundo e buscando a verdadeira paz interior.

Reconheçamos nossa condição de pecadores, para que a graça continue agindo sobre nós. A mesma graça que Santo Tomás de Aquino, em sua Suma Theologiae, afirma não destruir a natureza, mas aperfeiçoá-la, permitindo que ela alcance seu fim sobrenatural, como ensina o próprio santo: Gratia non tollit naturam, sed perficit (A graça não elimina a natureza, mas a aperfeiçoa).

Significado espiritual da Quaresma

O início da Quaresma é marcado pela Quarta-feira de Cinzas, uma das tradições mais antigas da Igreja Católica, que simboliza um tempo de penitência e recordação dos mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo.

Embora não seja um dia de preceito, os fiéis entre 18 e 59 anos devem observar o jejum, e todos os maiores de 14 anos devem observar a abstinência de carne, conforme os cânones 1251 e 1252 do Código de Direito Canônico. Grávidas, lactantes e pessoas que precisam manter uma alimentação regular estão dispensadas, bem como idosos e aqueles que possuem problemas graves de saúde.

Neste dia, a celebração é marcada pelo recebimento das cinzas, que não estão restritas apenas àqueles que estão em estado de graça, nem somente aos "católicos praticantes". Desse modo, qualquer fiel pode recebê-las, como um convite à conversão e à vivência plena da Quaresma. As cinzas são obtidas da queima dos ramos usados no Domingo de Ramos — celebração da entrada de Jesus em Jerusalém, quando Nosso Senhor foi aclamado pelo povo com ramos de palmeiras — no ano anterior.

Neste período, os fiéis buscam arrepender-se de seus pecados com maior intensidade, reconhecendo sua fragilidade. Nesse momento, somos lembrados de Gênesis 3,19, que diz: “tu és pó e ao pó voltarás”, retratando a sentença divina após a desobediência de Adão, por meio da qual a morte entrou no mundo.

Além das regras canônicas que estabelecem os dias obrigatórios de jejum e abstinência, muitos fiéis optam por viver renúncias voluntárias ao longo de toda a Quaresma, buscando substituir hábitos pela oração diária ou leitura espiritual.

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