Um mundo muito complexo: bem-vindos a 2026. Artigo de José R. Ubieto

Fonte: Pexels

Mais Lidos

  • Às leitoras e aos leitores

    LER MAIS
  • Cosmovisão, cultura e território são peculiares a cada povo e não devem ser generalizados. Se algumas etnias foram colonizadas, outras resistem e lutam por sua autonomia, cultivando seus próprios sistemas jurídicos

    Os 115 povos originários colombianos: cosmologias diversas e pilares de vida para reconstruir o tecido social. Entrevista especial com Marcela Gutiérrez Quevedo

    LER MAIS
  • O país suspenso. Poder, desgaste e expectativa no Brasil que caminha em 2026. Artigo de Paulo Baía

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

16 Janeiro 2026

Trump, Putin, Netanyahu, Thiel, Zuckerberg e tantos outros líderes e ideólogos globais não parecem sofrer dilemas morais. São homens de convicções firmes, sendo a principal delas a crença em si mesmos, o que constitui, por sinal, seu caráter delirante”, escreve José R. Ubieto, psicólogo clínico e psicanalista, membro da Associação Mundial de Psicanálise, em artigo publicado por Catalunya Plural, 09-01-2026. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Começamos 2026 com a confirmação de algo que já sabíamos, embora preferíssemos ignorar um pouco: o mundo é profundamente complexo e turbulento. Se aceitarmos que a ressonância é inversamente proporcional à aceleração, não nos resta outra coisa a não ser admitir que as transformações são rápidas demais para a nossa capacidade de assimilar o seu caráter multifatorial.

Complexidade, segundo a Real Academia Espanhola (RAE), significa “complicação, dificuldade, imbróglio, confusão, bagunça...”, sentimentos e emoções muito presentes hoje em dia, especialmente entre os jovens. O que nos perturba nesta complexidade contemporânea não é tanto a sua novidade - sempre existiu -, mas a pressa e, sobretudo, a oscilação das referências tradicionais. O Outro, como interlocutor social, não está simplesmente em crise, dividido ou oscilante; mais do que isto, conforme Lacan antecipou nos anos 1970, está fragmentado. Já não oferece certezas, narrativas ou identidades sólidas. Desse modo, o cinismo triunfa como um refúgio fiel para muitos órfãos de sentido.

Trump, Putin, Netanyahu, Thiel, Zuckerberg e tantos outros líderes e ideólogos globais não parecem sofrer dilemas morais. São homens de convicções firmes, sendo a principal delas a crença em si mesmos, o que constitui, por sinal, seu caráter delirante. A partir daí, aceitam outras: religião, ideologia, cultura… Sua enorme influência reside precisamente nessa aposta decidida na simplicidade, em um mundo complexo. Não investem muito em argumentos: suas palavras são fáceis e diretas porque conhecem sua eficácia.

Dificilmente algum deles compartilharia o temor de Korin, protagonista de Guerra e Guerra, romance do escritor húngaro László Krasznahorkai, quando conclui que era inútil se torturar em busca do sentido último, porque “a complexidade era em si o sentido do mundo”.

Admitamos que muitos de nós nadamos contra a corrente, como Korin, em um mundo onde a inteligência artificial e seus algoritmos propõem uma solução baseada na homogeneização das respostas: emoticons, fórmulas pré-fabricadas, respostas prêt-à-porter como as dos chats de bate-papo. Uma fórmula que exige conexão permanente, evita a surpresa e reduz a complexidade à simplicidade de uma máquina que fala por nós, escreve por nós e, cada vez mais, pensa por nós.

Em contextos educacionais e clínicos, aceitamos com naturalidade processos de rotulação psicopatológica e protocolos assistenciais que homogeneízam o sofrimento e se apresentam como a explicação e a solução para o mal-estar. Até mesmo os próprios pacientes chegam com seu autodiagnóstico, muitas vezes, extraídos dos milhares de canais das redes sociais que oferecem um “nome” para se apresentar na sociedade: bipolar, Asperger, TEA, TDAH… Novos ritos de batismo social em uma época de rupturas e identidades efêmeras.

A complexidade é também outro nome para a inexistência desse Outro que garantiria nossa existência. Se muitos dos líderes mencionados coincidem em suas declarações religiosas, e se tantos jovens almejam uma nova espiritualidade, é por causa do anseio por esse Deus que nos protegeria, libertando-nos de toda incerteza.

Mas também existem outras respostas possíveis frente a essa ausência radical: tornarmo-nos responsáveis por nossas vidas - o que implica ações e atitudes – sem renunciar ao pensamento crítico, nem aos laços sociais.

Leia mais