Planeta Terra: superlotado e faminto?

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24 Janeiro 2023

“Mesmo um só prato vazio é demais. É evidente que o mundo não está no caminho certo”. Essa afirmação da FAO - instituição técnica especializada das Nações Unidas - leva a ampliar nossos pontos de vista muito além das perspectivas regionais ou locais relevantes. Também por isso, escrevendo uma carta em 1º de maio de 2019, o Papa Francisco indicou Assis como um lugar estratégico para uma nova economia (Economia de Francisco), promovendo uma iniciativa em que participaram vários projetos nascidos na Calábria, para dar forma e substância a uma visão que o pontífice assim delineia: “Uma economia que se deixa inspirar pela dimensão profética se expressa hoje em uma nova visão do meio ambiente e da terra. Devemos ir para essa harmonia com o meio ambiente, com a terra”.

Por sua vez, o Observatório Político Internacional do Parlamento italiano, em um dos recentes Focus, do ponto de vista geopolítico, traz elementos em vista da almejada nova visão da terra e da economia.

A reportagem é de Vincent Bertolone, publicada por Settimana News, 22-01-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Oito bilhões de seres humanos

O primeiro dado é que a população mundial atingiu 8 bilhões em 15 de novembro de 2022. Um pico jamais alcançado. Ao mesmo tempo, porém, em dissonância com o aumento absoluto, registra-se que em 2020, pela primeira vez desde 1950, a taxa de crescimento da população mundial caiu abaixo de 1% ao ano, é se prevê que continue a diminuir nas próximas décadas. Podemos concluir que teremos que administrar uma Terra muito lotada, mas também subir a ladeira da chamada transição demográfica.

Daí as perguntas: como garantir a sobrevivência de todos, não só alimentar, mas ambiental, em uma Terra com 8 bilhões de pessoas? Nos processos de transição demográfica, como vamos gerir o progressivo envelhecimento das populações tradicionais, sobretudo europeias?

A superpopulação do planeta acarreta o consequente problema de alimentação global. No relatório Situação da Alimentação e Nutrição no Mundo 2022, a FAO faz um balanço: desde 2015 a curva da insegurança alimentar continua subindo; a coincidência de mudança climática, pandemia e guerra rapidamente agravou a situação.

Hoje 828 milhões de pessoas no mundo passam fome. A conquista do objetivo 2 da Agenda 2030 (acabar com a fome mundial naquele ano) parece, enfim, cada vez mais distante.

Devemos constatar mais uma vez que o mundo está dividido em Norte e Sul também no que diz respeito às crises alimentares: a fome e a insegurança alimentar estão muito mais presentes no Sul do mundo do que no Norte.

Superpopulação também significa velocidade excessiva no aumento de pessoas. A Divisão de População do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas (Un Department of Economic and Social Affairs, UN DESA) publica a cada dois anos uma atualização das Perspectivas da População Mundial.

A última atualização - prevista para 2021, mas adiada devido à pandemia – foi publicada em julho de 2022, no Dia Mundial da População: se 62 anos atrás a população mundial era de três bilhões, chegou a quatro bilhões em 1974, aumentando 1 bilhão de habitantes em apenas 14 anos.

Esses dois aspectos de "superpopulação do planeta" e "problemas de fome" devem então ser cruzados com um outro dado estrutural de mudança, indicado pelo Observatório: a superação demográfica da Índia sobre a China em 2023 como o país mais populoso do mundo. Em suma, a Índia ultrapassará a China principalmente devido à menor taxa de fecundidade chinesa. Isso com quatro anos de antecipação em relação ao que se previa no passado: em meados do século haverá mais de 1,6 bilhão de indianos contra cerca de 1,3 bilhão de chineses, considerando que o Oriente Médio e os países ocidentais passaram a ser os principais destinos dos indianos no exterior.

Em resumo, estamos percebendo que o grito dos pobres e o grito da terra coincidem (cf. encíclica Laudato si', 49).

Uma aliança entre gerações

Esses números nos abrem para a questão da transição demográfica e da relação entre gerações. Ao instituir o dia dos avós, o Papa Francisco quis recordar precisamente a relevância, também ético-religiosa, desse problema: “O sentido da vida não está só na idade adulta, dos 25 aos 60 anos. O sentido da vida é tudo, desde o nascimento até a morte e você deveria poder falar com todos, também ter relações afetivas com todos, assim sua maturidade será mais rica, mais forte. E também nos oferece este sentido da vida, que é integral”.

Daí a exigência de uma reforma do tempo do relógio, que deve ser convertido à beleza dos ritmos da vida, ou seja, à aliança entre as gerações para frear a corrida rumo a uma sociedade estéril, na busca desenfreada da versão elevada a sistema, do lazer e da evasão como uma via de mão única.

A questão fundamental, então - parafraseando Erich Fromm - é se o propósito da existência é tornar-se mais humanos ou produzir mais. E a resposta, coerente com o ensinamento evangélico, está numa afirmação do escritor russo Lev Tolstoi: “Toda tentativa de dar um qualquer significado à vida, se a vida não for baseada na renúncia ao egoísmo, se não tiver como objetivo servir os homens, torna-se uma quimera que se desfaz ao primeiro contato com a razão”.

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