Inezita Barroso e o 20 de setembro: Quanta saudade você me traz

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19 Setembro 2022

 

"O que mais me entristece é a falta de memória do povo. Uma memória relapsa que apaga personagens importantíssimos de nossa história e enaltece pessoas nem tão felizes assim em seus atos", escreve Marcelo Zanotti, estudante dos cursos de História e Jornalismo da Unisinos e estagiário do IHU.

 

Eis o artigo.

 

O site Calendarr Brasil diz o seguinte sobre o feriado de 20 de setembro:

 

"O dia 20 de setembro, conhecido como o Dia do gaúcho, é feriado no estado do Rio Grande do Sul. A data recorda o início a Revolução Farroupilha, ou Guerra dos Farrapos, em 20 de setembro de 1835. Para o Brasil, marca a revolta civil mais longa da sua história. Durante 10 anos - conhecido como o Decênio Heroico (1835-1845) - a revolta teve como cenário o Rio Grande do Sul, sendo por isso a data mais importante do calendário desse estado. Assim, o Dia do Gaúcho consiste numa homenagem a um dos episódios históricos mais importantes para a comunidade gaúcha. A data ganhou maior destaque e comemoração a partir do momento em que foi decretado feriado no Rio Grande do Sul, de acordo com o Decreto estadual nº 36.180, de 18 de setembro de 1995."

 

 


O que mais me entristece é a falta de memória do povo. Uma memória relapsa que apaga personagens importantíssimos de nossa história e enaltece pessoas nem tão felizes assim em seus atos. Rememorando os fatos, e da visão que o Brasil tem do Rio Grande do Sul, recordei da primeira artista que gravou um disco com músicas do folclore gaúcho: Inezita Barroso. Essa senhora que falecera em 08 de março de 2015, é a principal responsável pela preservação das raízes da fina flor da música brasileira. Não, ela não cantava apenas “Moda da Pinga” e “Lampião de Gás”, ela resgatou todo um folclore esquecido por boa parte da mídia e da população. Ela com seu programa “Viola Minha Viola” da TV Cultura de São Paulo, levou a cultura interiorana para todo o Brasil.

 

 

E se engana quem pensa que essa senhora só cantava sertanejo. Ela foi a primeira pessoa que gravou um dos mais famosos sambas-canção brasileiro, “Ronda”, de Paulo Vanzollini (De noite eu rondo a cidade a te procurar sem encontrar...), ela cantava um Noel Rosa como nem Aracy de Almeida foi capaz (outra que ninguém sabe quem é). E, claro, junto com Paixão Cortes e Barbosa Lessa fez todo um trabalho de resgate das danças gaúchas, como o “Pézinho” (Ai bota aqui ai bota ali o teu pezinho...) e “Balaio” (Balaio meu bem, balaio sinhá, balaio do coração...).

 

 

 

Pesquisadora incansável das muitas realidades musicais interioranas do Brasil, Inezita já havia dedicado um LP de 10 polegadas ao cancioneiro do Sul, também chamado Danças Gaúchas (1955), com o acompanhamento do Grupo Folclórico Brasileiro de Barbosa Lessa. Tratavam-se de temas tradicionais recolhidos e adaptados pelos nativistas Barbosa Lessa e Paixão Côrtes, que se repetem na versão mais famosa, de 1961, sem as intervenções faladas da edição original, com novos (e pomposos) arranjos do maestro mineiro Hervé Cordovil e o acréscimo da faixa “Tatu” (na reedição, as composições não são classificadas mais como tradicionais, mas atribuídas diretamente a Lessa e Côrtes). "O tatu é bicho manso, nunca mordeu a ninguém/ só deu uma dentadinha na perninha do meu bem”, canta Inezita, traduzindo um humor gaúcho a um tempo ingênuo e ferino.

 

O apanhado de Inezita inclui danças/estilos metalinguísticos como tirana, rancheira e chimarrita, em mimos como “Chimarrita-Balão” (a chimarrita-balão, ai, não é pra todos dançar/ é pra quem tem os pés leves, ai, meu bem, pra quem sabe sapatear...) e “Maçanico” (maçanico, maçanico, maçanico do banhado/ quem não dança o maçanico/ não arruma namorado...).

 

 

 

Inezita Barroso, uma das tantas personalidades que se foi, mas deveriam sempre ser rememoradas em datas como essa, pois, seu legado, suas virtudes, seus anos e anos percorrendo o Brasil de carro recolhendo músicas, danças e versos, ficaram. Correrão os dias até o fim de tudo levando a origem de uma nação na bagagem. Hoje, nesse 20 de setembro, eu não relembro revoluções nem bato continência a estancieiros afamados na Revolução Farroupilha, eu bato minhas mãos, aplaudindo essa grande dama e dizendo, quase que parafraseando a música Lampião de gás: “Inezita, quantas saudades você me trás.”.

 

 

OBS: A última aparição pública de Inezita Barroso foi importantíssima. Durante a comemoração dos 45 anos da TV Cultura de São Paulo, em 2014, Inezita, já bastante debilitada, canta ao lado do acordeonista Caçulinha e do violeiro Joãozinho, do Regional Viola Minha Viola, a música "Tristeza do Jeca". Vale a pena o registro, pois, menos de 1 ano depois, Inezita foi para o céu, no dia 08-03-2015.

 

 

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