Ucrânia. Governo de Kiev marca um ponto na disputa com o Vaticano

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03 Setembro 2022

 

O governo de Kiev marcou um ponto no braço de ferro entre o Vaticano e a Ucrânia sobre as perspectivas da guerra. Depois da intervenção de Francisco, na qual condenava a guerra como “loucura” e deplorava a morte de tantos inocentes e as muitas crianças ucranianas e russas que ficaram órfãs, além de dedicar um pensamento a Darya Dugina, “pobre menina que voou pelos ares devido a uma bomba posta debaixo do assento do carro em Moscou”, o Vaticano foi forçado a recuar.

 

O comentário é de Marco Politi, publicado em Il Fatto Quotidiano, 02-09-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Depois da fúria desencadeada na opinião pública ucraniana e do duro protesto do governo de Kiev, cujo ministro das Relações Exteriores convocou o núncio papal, um comunicado vaticano explicou que as intervenções do papa não devem ser consideradas uma “tomada de posição política”, mas sim um apelo “em defesa da vida humana e dos valores a ela ligados”.

 

Quanto à guerra, ela foi “iniciada pela Federação Russa”, Francisco a condenou claramente e é uma guerra “moralmente injusta, inaceitável, bárbara, insensata, repugnante e sacrílega”. O embaixador ucraniano junto ao Vaticano, Andrii Yurash, registrou satisfeito que a “reação ativa da Ucrânia encontrou a compreensão do Vaticano”.

 

É a segunda vez que o Vaticano é forçado a recuar. A primeira foi quando o L’Osservatore Romano se recusou a colocar na primeira página a foto da Sexta-Feira Santa em que uma mulher ucraniana e uma mulher russa seguravam a cruz como símbolo de esperança em uma reconciliação futura. O caso ilumina a determinação férrea com que o governo de Kiev quer impor sua visão à opinião pública.

 

Como lembrado recentemente pelo Corriere della Sera, nesta guerra está sendo aplicado o Resistance Operations Concept, um manual elaborado pelo Pentágono após a guerra russo-georgiana de 2013. O manual, focado nos aspectos militares e civis de uma resistência no caso de agressão de uma grande potência a um pequeno país, dedica atenção especial ao “controle da narrativa”.

 

É exatamente o que o governo de Kiev está fazendo, quando não tolera que seja oferecida ao público nenhuma interpretação dos antecedentes e das perspectivas da guerra diferente da “guerra até à derrota total” da Rússia defendida pelo presidente Zelensky. Não por acaso, Zelensky criou um canal de televisão de informação única.

 

O Papa Francisco está fora do coro, porque não demoniza os russos como povo e pede uma iniciativa concreta para um cessar-fogo. Por isso, deve ser diplomaticamente atacado.

 

Isso já aconteceu nos últimos meses com a França e a Alemanha. Quando o presidente francês defendeu que a Ucrânia deveria ser ajudada, mas sem “vingança, revanche e humilhação da Rússia”, Kiev se defendeu atacando.

 

O bastão midiático foi particularmente aplicado contra os dirigentes social-democratas alemães. O presidente federal, Steinmaier, foi acusado pelo então embaixador ucraniano Andriy Melnyk (agora substituído) de estar enredado em uma “teia de relações” com a Rússia. E, quando o chanceler, Scholz, adiou a viagem a Kiev devido a essas polêmicas, o embaixador Melnyk aumentou a dose, afirmando que o chanceler estava se comportando como um “idiota ofendido” (em alemão: salsicha ofendida).

 

Na sua linha de guerra ideológica total contra Moscou, Kiev é apoiada pela Polônia e pelos países bálticos, um front de falcões ao qual se junta agora a Finlândia (como se quisesse se vingar das guerras com a Rússia de 80 anos atrás). Resta normalizar a Santa Sé. Um empreendimento difícil. Bergoglio não se deixa calar com facilidade. O comunicado vaticano é do nível mínimo. Não relata palavras de Francisco, não é um posicionamento do secretário de Estado, cardeal Parolin, não é uma declaração do porta-voz vaticano. É uma folha anônima. Preparada para contentar Kiev.

 

Bergoglio é um líder político. Se necessário, ele sabe ziguezaguear”, diziam dele já em Buenos Aires. Dois passos para a frente, um para trás. Seguindo a sua rota. No entanto, suas palavras sobre a guerra como “loucura de todas as partes” desencadearam – como confidencia um intelectual de Kiev – uma “onda de ódio” contra o papa na mídia da Ucrânia, destinada a deixar sua marca. O que mais preocupa a Santa Sé não é apenas a espiral de uma escalada militar com destruições e vítimas crescentes, mas a disseminação de um ódio étnico cada vez mais forte.

 

O Vaticano já registrou isso durante o conflito na ex-Iugoslávia, quando se manifestaram surtos de ódio quase racial entre povos que por décadas haviam vivido tranquilamente lado a lado. O ódio antirrusso na Ucrânia assumiu conotações metafísicas. O Avvenire, o jornal dos bispos italianos, relata a conversa com um teólogo dominicano do Instituto Superior de Ciências Religiosas “Tomás de Aquino” de Kiev, que considera “ingênuo” quem crê na diplomacia e compartilha plenamente a decisão do governo ucraniano de vetar os livros de literatura russa, os espetáculos de teatro russo, as apresentações da ópera russa, os concertos de música russa, os vídeos russos. Uma proibição de marca totalitária, que contraria totalmente os valores da União Europeia.

 

No entanto, o dominicano justifica essa violenta censura com o fato de que escritores, compositores, pensadores e músicos russos são veículos de uma “forma sutil de chauvinismo” pan-russo a serviço do imperialismo de Moscou. Pensar que quem pronuncia tais conceitos veste a batina da ordem de São Tomás, um gigante da conexão entre fé e racionalidade, desperta inquietação. Mas é um fato real. Resta saber se a Europa deve se deixar guiar por tais impulsos.

 

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